Terça, 22 de Maio de 2012
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Entrevista

Bisturi em prol da beleza

Sebastião Nelson, o primeiro mineiro a presidir a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, fala da evolução dos procedimentos, riscos, da invasão de outros profissionais e do poder que a especialidade tem em mexer com a autoestima das pessoas

Texto: Luciana Avelino | Fotos: Pedro Vilela


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Do alto dos seus 35 anos de especialização em cirurgia plástica, o montes-clarense Sebastião Nelson, 65, assume o posto de presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica. O novo cargo, que passa a ocupar no início de 2010, resultado da indicação de 82,5% dos votos, simboliza feito inédito na história de Minas. Ele será o primeiro cirurgião plástico mineiro a responder pela presidência da instituição. Otimista com a nova responsabilidade, acredita que a nomeação simboliza para o estado a reafirmação da ética, política, respeitabilidade científica e prestígio dos profissionais locais. “A cirurgia plástica mineira sempre esteve presente de maneira respeitável no cenário nacional.” Em entrevista à Viver Brasil, ele faz avaliação crítica do setor e aponta as maiores preocupações com a prática no país, como a invasão de outras especialidades. Outra questão melindrosa, apontada pelo médico, é a luta travada com empresas que querem intermediar as cirurgias, a partir de consórcios e financiamentos. Por outro lado, coloca os profissionais nacionais – hoje são 4.640 em todo o país – no alto do pódio.

Fala-se que o Brasil é referência no turismo da cirurgia plástica. 
Sim, há um movimento de pessoas do exterior que vem ao Brasil fazer cirurgias plásticas, principalmente para Rio e São Paulo, em função do maior contato das celebridades com cirurgiões plásticos e da divulgação da mídia so­bre as grandes clínicas locais. Operar celebridades tem repercussão. Tentamos administrar essa propaganda para que ela seja ética e nos preocupamos muito com aqueles médicos que estão mais interessados em fazer propagan­da que no crescimento científico. Gostamos daqueles que crescem mais lentamente, com prestígio associado à responsabilidade.

Quais as maiores demandas?
As cirurgias estéticas, sem dúvida, são a maioria (69%) em comparação às reparadoras/reconstrutivas (31%). Os implantes de silicone ocupam a liderança (21%), em sequência lipo­as­piração (20%), abdome (15%), redução de mamas (12%), pálpebras (9%), face (7%), nariz (7%) e orelha (5%). Consideramos também os procedimentos complementares que são co­adjuvantes em muitos destes re­sultados, como no caso da toxina botulínica, preenchimentos e outros tra­tamentos que fazem parte da gama que envolve o universo da cirurgia estética.
 
As cirurgias plásticas estão cada vez mais precoces. Quais os riscos dessa antecipação?

São inúmeros os fatores que contribuem para esta questão. Os jovens da era tecnológica são bombardeados por milhares de informações diárias, que se esbaldam na divulgação de corpos perfeitos. Os adolescentes procuram se destacar no seu meio social, principalmente ativando a autoestima através da boa apresentação e com isto a conquista do melhor espaço. A cirurgia plástica é uma especialidade altamente consequente. Os riscos podem se desencadear desde a escolha do profissional ao excesso de procedimentos no mesmo paciente. Trabalhamos a mentalidade da população para que antes da tomada de decisão por uma cirurgia plástica, procure um profissional devidamente capacitado, membro da SBCP. Quando o paciente é adolescente, avaliamos a possibilidade, a partir da análise dos benefícios e maléficos psicológicos.

O que é mais recomendável: fazer várias intervenções cirúrgicas simultâneas ou uma de cada vez?
Um procedimento isolado proporciona além da segurança uma recuperação mais rápida. As cirurgias associadas são recomendáveis após avaliação pelo profissional escolhido. Estando o paciente desfrutando de boa saúde e bom estado clínico, poderá se submeter a mais de uma intervenção, se confirmado a partir de abrangentes exames pré-operatórios. 
 
Há determinado número de intervenções que o corpo humano suporta?
Sim. Há limite para certos procedimentos. No caso da lipoaspiração subsequente vai se tornando mais difícil pela fibrose, tecido cicatricial deixado pela lipo anterior. Numa terceira intervenção estaríamos atingindo os limites do procedimento em questão, salvo exceções.
 
Por que tantas pessoas ainda recorrem a profissionais sem especialização? 
A invasão das especialidades vem sendo um dos principais problemas que as entidades médicas vêm enfrentando. No caso da cirurgia plástica, 97% dos casos de complicações registrados no Conselho Federal de Medicina são realizados por profissionais que não são cirurgiões plásticos. A escolha do profissional na maioria das vezes é feita através de fontes não seguras como a internet. A escolha do profissional é uma opção do paciente. Os procedimentos realizados por esta especialidade são de total responsabilidade dos cirurgiões plásticos. Compete ao paciente selecionar estes profissionais com base em suas reputações, comprovadas através de sua certificação. Há, por exemplo, cursos latu sensus de cirurgia plástica de fins de semana. Um absurdo em vista de que um cirurgião plástico para se formar, estuda medicina, faz dois anos de cirurgia geral numa escola especializada e, após seleção, passa três anos numa escola de cirurgia plástica. Notamos que, infelizmente, é impossível não ter complicações, mas 99% delas estão ligadas a fatalidades, ou a casos isolados como pacientes que usavam drogas, ou fumavam, e que não declararam. 


“97% dos casos de complicações são realizados por profissionais que não são cirurgiões plásticos”
“97% dos casos de complicações são realizados por profissionais que não são cirurgiões plásticos”

Hoje a cirurgia plástica se popularizou muito. Quais as consequências positivas e negativas?
A cirurgia plástica não se popularizou. Nós, cirurgiões plásticos almejamos tornar o que era privilégio de poucos, algo ao alcance de muitos. A especialidade muitas vezes renova uma vida e isto é muito positivo. Uma vez mais acessível, o mercado se torna mais vulnerável às questões menos éticas, como a invasão dos profissionais não capacitados que na maioria das vezes tornam sonhos em pesadelos. A cirurgia plástica está paralela à televisão. A primeira televisão que apareceu era do preço de um automóvel. Hoje se passou a operar muito e o preço vem se diluindo. As próprias cirurgias eram muito complicadas e os resultados limitados. Atualmente, temos cirurgias maravilhosas, com resultados quase perfeitos. O que acontece é que o número de cirurgiões plásticos é maior, a concorrência aumentou e o preço caiu. Antigamente, não se usava facilitar o pagamento, era quase considerado antiético. Hoje, o cirurgião facilita para seu cliente. Mas lutamos muito contra empresas que querem intermediar cirurgias, com consórcios e empresas de financiamentos. Com isto a coisa fica perigosa. O cliente passa a ser uma peça.

O movimento dessas empresas de financiamento é significativo?
Elas existem, mas não conseguiram se estruturar. Há pouco tempo havia mais de 40 destas empresas. Hoje há poucas em São Paulo ainda tentando se organizar, sem conseguir. Não queremos a mercantilização da medicina. Em última análise, quem vai pagar a conta, levar prejuízo, é o cliente.  
 
Muitas pessoas que fazem lipo costumam dizer que engordaram novamente. Há recorrência neste tipo de intervenção?
A lipoaspiração resume-se na perfuração da célula gordurosa com a destruição de um grande número delas e não o extermínio total das mesmas. O corpo humano em uma de suas surpreendentes ações é capaz de regenerar boa parte delas. O aumento de peso pós-lipoaspiração se dá por alterações metabólicas do indivíduo. Neste caso indicamos associar ao resultado pós-cirúrgico mudança de hábitos alimentares e atividades físicas.
 
Como lidar com a expectativa do paciente ante os seus desejos muitas vezes impossíveis e até contraindicados?
A expectativa é do paciente. Nem sempre o querer está ao nosso alcance.  Compete ao profissional salientar o possível e impossível, apresentando prós e contras em cada caso. Diante da insistência, o profissional deverá atuar de maneira cautelosa, e muitas vezes uma detalhada avaliação psicológica se faz necessária. A cirurgia plástica tem a capacidade de elevar a autoestima dando força às conquistas, mas não é a responsável direta por elas. Nós trabalhamos com o que o cliente tem. Se, por exemplo, a paciente tem uma bolinha na ponta do nariz, nós a tiramos. E, às vezes, o nariz da outra cliente é todo fininho, pele fina, ossos finos, narinas bem-estruturadas... Muitas vezes é difícil transformar o nariz dela no nariz da outra. O que ela pode é dizer assim: eu quero busto grande igual ao da atriz tal e nós vamos aumentar o busto dela. Mas fazê-lo igual não é nem bom o médico prometer porque dificilmente será. Temos de ver o porquê de ela estar querendo aquilo. Se é porque acha bonito, vamos mostrar que podemos tornar o dela bonito ao seu perfil.

Muitos casos de intervenções cirúrgicas excessivas acabam alterando a expressão das pessoas. Qual seria o ponto de equilíbrio? 
Na maioria das vezes os excessos de procedimentos se tornam catastróficos. No caso da cirurgia plástica o ponto de equilíbrio está na postura do profissional com a conscientização de seus limites e a firmeza no momento de parar.   

A demanda do público masculino ainda é bem inferior ao do feminino? 
Ainda é. Fica em torno de 12%, em média. Quando se fala em beleza, fala-se em mulher. A mulher vive de sua beleza e ela é cobrada a todo instante. O homem jovem está fazendo muito nariz e lipo. O de meia-idade, lipo e colocação de peitorais, silicones. E, os da segunda para a terceira idade, cirurgia de pálpebra.
 
Por que as mulheres brasileiras passaram a adotar próteses nos seios cada vez maiores nos últimos anos? Qual o tamanho ideal?
Evolução cultural. As mamas estão cada dia mais expostas e o tamanho, forma e consistência contribuem para sua sensualidade. A intensa divulgação da mídia desta parte do corpo, antes muito preservada, e do próprio padrão de beleza norte-americano contribuíram muito para a nova estética. Mas vamos destacar aqui os extremos. Mulheres que querem mamas gigantes pagam por isto: estrias, desconforto e, às vezes, o ridículo. Existem medidores que ajudam definir o tamanho, mas é extremamente importante um bom entendimento médico-paciente. 


Antes de ter filhos a cirurgia interfere em alguma coisa?
Há técnicas atuais visando a preservação do tecido mamário permitindo a amamentação sem grandes transtornos. Compete ao cirurgião um detalhado esclarecimento ao seu paciente. Eu defendo muito o momento de felicidade da gente. Já tive cliente que adiou por anos a prótese: primeiro para ter os filhos, depois para amamentá-los e, por fim, por estarem pequenos. Por outro lado, vimos muitas clientes que, mesmo querendo filhos dentro de dois anos, colocaram prótese e não se arrependeram. O silicone não atrapalha a sucção do bebê porque é inserido atrás da mama.  A pessoa pode operar hoje e engravidar logo porque a mama só irá começar a ter alterações no terceiro mês. 

Qual a eficácia da lipo a laser?
Há cirurgião que faz a barba com gilete, outro com navalha e outro com aparelho elétrico. Claro que cada instrumento ajuda um pouco mais, mas está ligado à habilidade do profissional. O laser não é coisa recente, é de 20 anos. Apresentou vantagens, mas muitas desvantagens. Muitos cirurgiões o estão adotando, mas não se difundiu tanto, porque ainda há condutas melhores. Mas, a gente respeita quem usa o laser. O que dizemos  é que o cliente não deve procurar a máquina que vai fazer a lipo, mas o profissional que vai manipulá-la. Mas o laser não está na ponta como melhor conduta. 

O senhor já se submeteu a alguma cirurgia plástica?
Já. Eu amo. Estou na fila para fazer rosto, que já está chegando a hora. Fiz duas lipos: nos quadris e no abdome. Este cabelinho na frente foi reiplantado. Sou altamente a favor. Tem dias que tenho vontade de fazer plástica na barriga, porque acho homem barrigudo muito feio. Luto contra a minha barriga.


 
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