Hoje a cirurgia plástica se popularizou muito. Quais as consequências positivas e negativas?
A cirurgia plástica não se popularizou. Nós, cirurgiões plásticos almejamos tornar o que era privilégio de poucos, algo ao alcance de muitos. A especialidade muitas vezes renova uma vida e isto é muito positivo. Uma vez mais acessível, o mercado se torna mais vulnerável às questões menos éticas, como a invasão dos profissionais não capacitados que na maioria das vezes tornam sonhos em pesadelos. A cirurgia plástica está paralela à televisão. A primeira televisão que apareceu era do preço de um automóvel. Hoje se passou a operar muito e o preço vem se diluindo. As próprias cirurgias eram muito complicadas e os resultados limitados. Atualmente, temos cirurgias maravilhosas, com resultados quase perfeitos. O que acontece é que o número de cirurgiões plásticos é maior, a concorrência aumentou e o preço caiu. Antigamente, não se usava facilitar o pagamento, era quase considerado antiético. Hoje, o cirurgião facilita para seu cliente. Mas lutamos muito contra empresas que querem intermediar cirurgias, com consórcios e empresas de financiamentos. Com isto a coisa fica perigosa. O cliente passa a ser uma peça.
O movimento dessas empresas de financiamento é significativo?
Elas existem, mas não conseguiram se estruturar. Há pouco tempo havia mais de 40 destas empresas. Hoje há poucas em São Paulo ainda tentando se organizar, sem conseguir. Não queremos a mercantilização da medicina. Em última análise, quem vai pagar a conta, levar prejuízo, é o cliente.
Muitas pessoas que fazem lipo costumam dizer que engordaram novamente. Há recorrência neste tipo de intervenção?
A lipoaspiração resume-se na perfuração da célula gordurosa com a destruição de um grande número delas e não o extermínio total das mesmas. O corpo humano em uma de suas surpreendentes ações é capaz de regenerar boa parte delas. O aumento de peso pós-lipoaspiração se dá por alterações metabólicas do indivíduo. Neste caso indicamos associar ao resultado pós-cirúrgico mudança de hábitos alimentares e atividades físicas.
Como lidar com a expectativa do paciente ante os seus desejos muitas vezes impossíveis e até contraindicados?
A expectativa é do paciente. Nem sempre o querer está ao nosso alcance. Compete ao profissional salientar o possível e impossível, apresentando prós e contras em cada caso. Diante da insistência, o profissional deverá atuar de maneira cautelosa, e muitas vezes uma detalhada avaliação psicológica se faz necessária. A cirurgia plástica tem a capacidade de elevar a autoestima dando força às conquistas, mas não é a responsável direta por elas. Nós trabalhamos com o que o cliente tem. Se, por exemplo, a paciente tem uma bolinha na ponta do nariz, nós a tiramos. E, às vezes, o nariz da outra cliente é todo fininho, pele fina, ossos finos, narinas bem-estruturadas... Muitas vezes é difícil transformar o nariz dela no nariz da outra. O que ela pode é dizer assim: eu quero busto grande igual ao da atriz tal e nós vamos aumentar o busto dela. Mas fazê-lo igual não é nem bom o médico prometer porque dificilmente será. Temos de ver o porquê de ela estar querendo aquilo. Se é porque acha bonito, vamos mostrar que podemos tornar o dela bonito ao seu perfil.
Muitos casos de intervenções cirúrgicas excessivas acabam alterando a expressão das pessoas. Qual seria o ponto de equilíbrio?
Na maioria das vezes os excessos de procedimentos se tornam catastróficos. No caso da cirurgia plástica o ponto de equilíbrio está na postura do profissional com a conscientização de seus limites e a firmeza no momento de parar.
A demanda do público masculino ainda é bem inferior ao do feminino?
Ainda é. Fica em torno de 12%, em média. Quando se fala em beleza, fala-se em mulher. A mulher vive de sua beleza e ela é cobrada a todo instante. O homem jovem está fazendo muito nariz e lipo. O de meia-idade, lipo e colocação de peitorais, silicones. E, os da segunda para a terceira idade, cirurgia de pálpebra.
Por que as mulheres brasileiras passaram a adotar próteses nos seios cada vez maiores nos últimos anos? Qual o tamanho ideal?
Evolução cultural. As mamas estão cada dia mais expostas e o tamanho, forma e consistência contribuem para sua sensualidade. A intensa divulgação da mídia desta parte do corpo, antes muito preservada, e do próprio padrão de beleza norte-americano contribuíram muito para a nova estética. Mas vamos destacar aqui os extremos. Mulheres que querem mamas gigantes pagam por isto: estrias, desconforto e, às vezes, o ridículo. Existem medidores que ajudam definir o tamanho, mas é extremamente importante um bom entendimento médico-paciente.
Antes de ter filhos a cirurgia interfere em alguma coisa?
Há técnicas atuais visando a preservação do tecido mamário permitindo a amamentação sem grandes transtornos. Compete ao cirurgião um detalhado esclarecimento ao seu paciente. Eu defendo muito o momento de felicidade da gente. Já tive cliente que adiou por anos a prótese: primeiro para ter os filhos, depois para amamentá-los e, por fim, por estarem pequenos. Por outro lado, vimos muitas clientes que, mesmo querendo filhos dentro de dois anos, colocaram prótese e não se arrependeram. O silicone não atrapalha a sucção do bebê porque é inserido atrás da mama. A pessoa pode operar hoje e engravidar logo porque a mama só irá começar a ter alterações no terceiro mês.
Qual a eficácia da lipo a laser?
Há cirurgião que faz a barba com gilete, outro com navalha e outro com aparelho elétrico. Claro que cada instrumento ajuda um pouco mais, mas está ligado à habilidade do profissional. O laser não é coisa recente, é de 20 anos. Apresentou vantagens, mas muitas desvantagens. Muitos cirurgiões o estão adotando, mas não se difundiu tanto, porque ainda há condutas melhores. Mas, a gente respeita quem usa o laser. O que dizemos é que o cliente não deve procurar a máquina que vai fazer a lipo, mas o profissional que vai manipulá-la. Mas o laser não está na ponta como melhor conduta.
O senhor já se submeteu a alguma cirurgia plástica?
Já. Eu amo. Estou na fila para fazer rosto, que já está chegando a hora. Fiz duas lipos: nos quadris e no abdome. Este cabelinho na frente foi reiplantado. Sou altamente a favor. Tem dias que tenho vontade de fazer plástica na barriga, porque acho homem barrigudo muito feio. Luto contra a minha barriga.