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SaúdeRestrição à fumaçaLeis contra o tabagismo avançam pelos estados brasileiros e, com elas, cresce a demanda por tratamentos para largar o cigarro
Texto: Eliana Fonseca | Fotos: Victor Schwaner
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Há nove anos tratando de pessoas que desejam parar de fumar, Leite diz que a maioria dos clientes que chega à Melhorar sabe de todos os males causados pelo cigarro. Alguns chegam com olfato prejudicado, outros com a capacidade aeróbica limitada, muitos não têm paladar. Sem contar na possibilidade de vários tipos de câncer, impotência, cegueira, AVC, para falar de algumas doenças. O administrador de empresa Maurício Rigotto começou a fumar aos 15 e frequenta mensalmente o tratamento antitabagismo. Parou de fumar, mas diz que agora combate outra dependência, a emocional, do tabaco. “Não consegui acabar com a minha amizade com o cigarro”, diz. Associa fumar a uma bengala – é o apoio para quando se sentia fragilizado, para disfarçar a timidez, compensar alguma carência. Chegava a fumar um maço e meio por dia. Começou a ficar incomodado com a restrição dos locais. Essa é a segunda tentativa sem o cigarro. Da primeira vez, ficou cinco anos sem fumar. Rigotto associava o cigarro ao café. Passou a tomar suco de laranja. Quando se conectava a internet, também fumava. Colocou um espelho em frente ao computador, onde passou a controlar o hábito. Ao contrário do que se possa imaginar, não se revoltou com as limitações e aprova as novas restrições de locais para fumantes. Levanta a bandeira de que o interesse da coletividade deve suplantar o individual. “Sou a favor da lei antifumo. Num primeiro momento, ela pode até parecer discriminatória, mas essas leis estimulam a pessoa a parar de fumar, até por falta de opção”, opina. |
O psicólogo Rogério Salgado, da Associação Brasileira Comunitária para Prevenção do Abuso de Drogas (Abraço), afirma que pesquisas indicam que as mudanças coercivas, no caso da luta antitabagismo, produzem mais efeitos do que investir na conscientização das pessoas de que o cigarro faz mal. “Aumentar impostos, proibir o acesso de quem fuma em determinados lugares motivam muito mais as pessoas a pararem de fumar”, diz. No caso da Abraço, também houve aumento da procura pelo programa antitabagismo, que reúne, em um ano, de três a quatro grupos de pessoas que desejam abandonar o vício. “Em julho, tivemos 20 novas inscrições para um grupo da Abraço. Foi recorde. Geralmente, demoraríamos pelo menos três meses para reunir esse número de pessoas”, conta Salgado. O psicólogo analisa que as restrições cada vez maiores ao fumo tendem a tornar o tabaco uma droga ilícita. Há ainda outros fatores que podem contribuir para essa derrocada do vício do cigarro – empresas começam a manifestar explicitamente a preferência por não-fumantes no momento da contratação. Outros fatores também engrossam as estatísticas negativas. Segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca), 97% dos usuários de tabaco são dependentes e cerca de 200 mil pessoas morrem no país em decorrência do vício. |
O mais grave é que esses números pouco dizem aos fumantes, que sempre tendem a jogar para outro fumante – sem cara, mais um na estatística – as doenças e os males. Por isso, quem chega à Abraço tem como principal ponto do programa uma pesquisa de conscientização personalizada. “Essa pesquisa faz estudo do paciente, apontando todas as probabilidades de doenças e males. Se personalizo o estudo, não há como o fumante acionar esse mecanismo de negação”, diz Salgado. A aposentada Regina Maria Paraguassu Casaes fumou por quase 40 anos. Era um maço por dia. Sentia-se humilhada, tinha vergonha de fumar, mas afirma que não encontrava forças para largar o vício. As duas filhas, fisioterapeutas, viviam comentando o sofrimento de alguns de seus pacientes por causa do vício de tabaco. Fez um tratamento antitabagismo com medicação, laser e psicoterapia. Parou de fumar. “Não adianta proibir determinados lugares. Quem fuma vai achar um lugar até no fim do mundo. Não se trata de querer fumar, muita gente até percebe o mal que o cigarro faz, mas há aquela angústia terrível da cobrança do outro, de as pessoas acharem que o fumante é fraco”, diz. O coordenador do Programa de Atenção Ativa à Saúde da Unimed, o médico Estevão Alves Valle, diz que um dos objetivos do programa, que atendeu mais de 500 pessoas no primeiro semestre, é justamente trabalhar dificuldades para parar de fumar como a depressão, ansiedade, dificuldades de cada paciente. Ao contrário das outras clínicas, Valle afirma que não houve aumento de atendimentos que demonstrasse maior procura pelo programa depois da aprovação de leis de restrição ao fumo. “Mas, sempre que abrimos grupos, as vagas são rapidamente preenchidas. A realidade da legislação, vindo como reforço para as pessoas pararem de fumar, restringindo espaços, tem demonstrado resultado efetivo em vários países. É uma estratégia positiva”, avalia o médico. O aposentado Delcides Floriano Silva fumou por mais de 50 anos. Ele foi um dos integrantes desse programa. Sentia-se constrangido de ser o único fumante na casa, o que incomodava a mulher e os filhos. Achava que exalava o cheiro do cigarro. Decidiu parar de fumar da mesma forma que, há cerca de 15 anos, havia decidido parar de beber. “O difícil mesmo é tomar a decisão. É algo que tem de partir da pessoa. Só assim pode dar certo”, acredita. |