Terça, 22 de Maio de 2012
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Saúde

Restrição à fumaça

Leis contra o tabagismo avançam pelos estados brasileiros e, com elas, cresce a demanda por tratamentos para largar o cigarro

Texto: Eliana Fonseca | Fotos: Victor Schwaner


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Maurício Rigotto parou de fumar e agora combate a dependência emocional do cigarro

Com certeza, quem tem mais de 30 deve se lembrar do cowboy másculo do anúncio, que numa paisagem dourada de sol condicionava o espectador a pensar que a vida era mais bela com um cigarro aceso. O glamour ficou para trás, levar vantagem em tudo, certo? – jargão de outra marca de cigarro – se transformou em palavrão. O próximo passo é associar às campanhas que mostram as advertências sanitárias com imagens de doentes terminais e com sequelas do fumo, um ataque ostensivo, com leis específicas e multas, para limitar os lugares para fumantes. A pressão tem surtido efeito. Algumas clínicas antitabagismo em Belo Horizonte registraram, nesses últimos meses, aumentos que variam de 20% a 40% no número de pessoas que querem parar de fumar.

Há quem acredite que a coerção de uma lei pode ter revés de rebeldia no fumante. Em vez de procurar ações para parar o seu vício, pode adaptá-lo aos lugares permitidos. E continuar fumando. “É uma lei que não é simpática, mas é necessária. Porém, ela vem muito repentinamente, sem nenhuma adaptação. É preciso sempre nos lembrarmos de que o combate é ao tabagismo e não ao tabagista”, diz o psiquiatra e psicanalista Cláudio Pérsio Carvalho Lei­te, da Clínica Antitabagismo Me­lhorar. Depois das leis sancionadas em outros estados e o começo da discussão em Minas Gerais, Leite destaca que houve aumento de 40% dos clientes que passaram a consultar o tratamento por telefone e internet. Para o tratamento propriamente dito, são 20% de clientes a mais do que antes das leis.


Cláudio Pérsio Carvalho: “O combate é ao tabagismo e não ao tabagista”
Cláudio Pérsio Carvalho: “O combate é ao tabagismo e não ao tabagista”

Há nove anos tratando de pessoas que desejam parar de fumar, Leite diz que a maioria dos clientes que chega à Melhorar sabe de todos os males causados pelo cigarro. Al­guns chegam com olfato prejudica­do, outros com a capacidade aeróbica limitada, muitos não têm paladar. Sem contar na possibilidade de vários tipos de câncer, impotência, cegueira, AVC, para falar de algumas doenças.

O administrador de empresa Mau­rício Rigotto começou a fu­mar aos 15 e frequenta mensalmen­te o tratamento antitabagismo. Parou de fumar, mas diz que agora combate outra dependência, a emocional, do tabaco. “Não consegui aca­bar com a minha amizade com o cigarro”, diz. Associa fumar a uma bengala – é o apoio para quando se sentia fragilizado, para disfarçar a timidez, compensar alguma carência. Chegava a fumar um maço e meio por dia. Começou a ficar incomodado com a restrição dos locais. Essa é a segunda tentativa sem o cigarro. Da primeira vez, ficou cinco anos sem fumar.

Rigotto associava o cigarro ao café. Passou a tomar suco de laranja. Quando se conectava a internet, também fumava. Colocou um espelho em frente ao computador, onde passou a controlar o hábito. Ao contrário do que se possa imaginar, não se revoltou com as limitações e aprova as novas restrições de locais para fumantes. Levanta a bandeira de que o interesse da coletividade deve suplantar o individual. “Sou a favor da lei antifumo. Num primeiro momento, ela pode até parecer discriminatória, mas essas leis estimulam a pessoa a parar de fumar, até por falta de opção”, opina.

Regina Casaes: tratamento com medicação, laser e psicoterapia
Regina Casaes: tratamento com medicação, laser e psicoterapia

O psicólogo Rogério Salgado, da Associação Brasileira Comunitária para Prevenção do Abuso de Drogas (Abraço),  afirma que pesquisas indicam que as mudanças coercivas, no caso da luta antitabagismo, produzem mais efeitos do que investir na conscientização das pessoas de que o cigarro faz mal. “Aumentar impostos, proibir o acesso de quem fuma em determinados lugares motivam muito mais as pessoas a pararem de fumar”, diz. No caso da Abraço, também houve aumento da procura pelo programa antitabagismo, que reúne, em um ano, de três a quatro grupos de pessoas que desejam abandonar o vício.

“Em julho, tivemos 20 novas inscrições para um grupo da Abraço. Foi  recorde. Geralmente, demoraríamos pelo menos três meses pa­ra reunir esse número de pessoas”, conta Salgado. O psicólogo analisa que as restrições cada vez maiores ao fumo tendem a tornar o tabaco uma droga ilícita. Há ainda outros fatores que podem contribuir para es­sa derrocada do vício do cigarro – empresas começam a manifestar ex­plicitamente a preferência por não-fumantes no momento da contratação. Outros fatores também engrossam as estatísticas negativas. Segundo o Instituto Na­cional do Câncer (Inca), 97% dos usuários de tabaco são dependentes e cerca de 200 mil pessoas morrem no país em decorrência do vício.

O médico Estevão Valle: legislação que restringe espaços para fumar é positiva
O médico Estevão Valle: legislação que restringe espaços para fumar é positiva

O mais grave é que esses núme­ros pouco dizem aos fumantes, que sempre tendem a jogar para ou­tro fumante – sem cara, mais um na estatística – as doenças e os males. Por isso, quem chega à Abraço tem como principal ponto do programa uma pesquisa de conscientização personalizada. “Essa pesquisa faz estudo do paciente, apontando todas as probabilidades de doenças e males. Se personalizo o estudo, não há como o fumante acionar esse mecanismo de negação”, diz Salgado.

A aposentada Regina Maria Pa­raguassu Casaes fumou por quase 40 anos. Era um maço por dia. Sentia-se humilhada, tinha vergonha de fumar, mas afirma que não encontrava forças para largar o vício. As duas filhas, fisioterapeutas, viviam comentando o sofrimento de alguns de seus pacientes por causa do vício de tabaco. Fez um tratamento antitabagismo com medicação, laser e psicoterapia. Parou de fumar. “Não adianta proibir determinados lugares. Quem fuma vai achar um lugar até no fim do mundo. Não se trata de querer fumar, muita gente até percebe o mal que o cigarro faz, mas há aquela angústia terrível da cobrança do outro, de as pessoas acharem que o fumante é fraco”, diz. 

O coordenador do Programa de Atenção Ativa à Saúde da Unimed, o médico Estevão Alves Valle, diz que um dos objetivos do programa, que atendeu mais de 500 pessoas no primeiro semestre, é justamente trabalhar dificuldades para parar de fumar como a depressão, ansiedade, dificuldades de cada paciente. Ao contrário das outras clínicas, Valle afirma que não houve aumento de atendimentos que demonstrasse maior procura pelo programa depois da aprovação de leis de restrição ao fumo. “Mas, sempre que abrimos grupos, as vagas são rapidamente preenchidas. A realidade da legislação, vindo como reforço para as pessoas pararem de fumar, restringindo espaços, tem demonstrado resultado efetivo em vários países. É uma estratégia positiva”, avalia o médico.

O aposentado Delcides Floriano Silva fumou por mais de 50 anos. Ele foi um dos integrantes desse programa. Sentia-se constrangido de ser o único fumante na casa, o que incomodava a mulher e os filhos. Achava que exalava o cheiro do cigarro. Decidiu parar de fumar da mesma forma que, há cerca de 15 anos, havia decidido parar de beber. “O difícil mesmo é tomar a decisão. É algo que tem de partir da pessoa. Só assim pode dar certo”, acredita.


 
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