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CapaEstímulo à vidaA postura familiar diante do transtorno é parte decisiva tanto no processo de melhoria dos sintomas quanto da socialização de pessoas autistas
Texto: Elisângela Orlando | Fotos: Pedro Vilela
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Tudo começou com as aulas de equoterapia, método terapêutico e educacional que utiliza o cavalo dentro de uma abordagem interdisciplinar nas áreas de saúde e educação. Busca o desenvolvimento biopsicossocial de pessoas portadoras de deficiência física ou intelectual. Marco Antônio, que já foi cavaleiro profissional, percebeu que, aos poucos, Alexandre perdeu o medo do animal e que era capaz de ir além – algo que, há 13 anos, quando foram surpreendidos com o diagnóstico do filho, era praticamente impensável para os pais do garoto. Só quem conhece as limitações que uma criança autista pode ter se não for bem assistida sabe o que isso significa. Além de montar a cavalo, Alexandre aprendeu a andar de bicicleta, pratica natação, faz aulas de pintura e cerâmica, frequenta a escola regular com alunos de sua idade e também a especial, e realiza terapias multidisciplinares. Chegar a esse patamar não foi fácil. O pai, o engenheiro Eduardo Henrique Corrêa da Silva, reconhece que ainda há uma longa estrada. Ele lembra que começou a suspeitar que Alexandre era “diferente” quando o menino tinha pouco mais de um ano. “Ele era agitado, não se socializava com as demais crianças e não falava”, conta. Após uma consulta, o pediatra aconselhou os pais a levarem o garoto a uma psicóloga, que afirmou que ele não era autista. O diagnóstico veio seis meses mais tarde, tendo sido confirmado por um psiquiatra, um neuropediatra e por uma equipe multidisciplinar do Centro de Referência da Criança O psiquiatra Walter Camargos explica que a maioria das crianças que nascem autistas sofre de outros transtornos médicos como paralisia cerebral, epilepsia e hipotonia muscular. Segundo ele, 75% das pessoas com o transtorno têm algum tipo de deficiência mental. Os que não têm prejuízo intelectual são chamados de autistas de alto desempenho ou de alto funcionamento. Muitos podem, inclusive, ter inteligência superior à da média da população, o que não impede que apresentem os sintomas que caracterizam a síndrome. “Quando esses autistas não possuem problemas na fala, diz-se que eles têm Síndrome de Asperger”, informa. |
No entanto, mesmo que o autista tenha um bom nível de inteligência, se ele não possuir uma família estruturada que invista em seu desenvolvimento, as chances de melhora são pequenas. Essa é a razão porque a história de Alexandre é um bom exemplo de como é possível fazer com que a criança autista aprenda as regras sociais, interaja com outras pessoas e desenvolva mais autonomia e autoconfiança. Isso porque o tratamento consiste, basicamente, em reabilitação, o que engloba escola, fisioterapia, terapia ocupacional, fonoaudiologia, psicologia e orientação à família. Esse tipo de tratamento é disponibilizado pela rede pública de saúde, como no Centro Psíquico da Adolescência e Infância – Cepai (ver quadro). A fonoaudióloga Érica Gomes Fornero trabalha há 12 anos no Cepai e se especializou no atendimento a autistas. O acompanhamento deste profissional é fundamental para que a criança possa aprender a desenvolver condutas simbólicas socialmente adequadas. Érica explica que o exercício de estimulação é feito nos ambientes usuais em que a criança realiza suas atividades diárias como, por exemplo, na hora do almoço, de escovar os dentes, de tomar banho ou no ato de regar plantas. De forma bastante simplificada, pode-se dizer que ela trabalha noções de causa e efeito comunicativas para que o autista faça associações da palavra, do som que ela ouve, com seu objeto de desejo. “A partir do momento que consigo fazer isso, a criança já tem imagens mentais necessárias para que possa falar.” Foi o que aconteceu com Deilly Diniz Gonzaga, 8 anos, que faz acompanhamento com a fonoaudióloga desde os 4. Segundo a mãe, Cristiene Diniz Martins, Deilly começou a falar aos 6, quando passou a ser estimulada pela especialista durante o horário do almoço. “Hoje, ela já está aprendendo a pedir”, conta a mãe, que aplica as mesmas técnicas em casa, o que demonstra, mais uma vez, que a participação e o incentivo da família são preponderantes para a obtenção de êxito nas terapias. Quem também está feliz com os avanços obtidos pela filha é Karine Gabriela Nunes, mãe de Amanda, de apenas 3 anos. A menina faz terapia com a fonoaudióloga há um ano e, desde então, já obteve diversos avanços. “Ela está mais calma, passou a aceitar o convívio com outras pessoas e a firmar o olhar. Já sabe pedir água e apontar o objeto que quer”, diz Karine, que também estimula Amanda |
Com dedicação e esforço, muitos autistas conseguem não só aprender a falar, como também a ler e escrever. Hoje, existem métodos específicos para a alfabetização de pessoas com o transtorno. A psicóloga e mestre em educação especial Camila Graciella Santos Gomes assinala que, antes de ensinar a ler, é preciso identificar quais são as dificuldades do autista e, a partir daí, realizar intervenções. Ela frisa que só quando a criança conseguir fixar a atenção por mais de O acompanhamento psicológico da criança e também da família é outro fator importante para o desenvolvimento. “O objetivo é tratar aquilo que parece ser invasivo para o autista e que causa reações desagradáveis para ele, como o toque e o som. A intenção é conseguir formas de entrar em contato com a criança de maneira que não seja hostil para ela, dando dimensão diferente para a voz, por exemplo, e estabelecendo laços”, explica o psicanalista e psicólogo Marcelo Bizzoto Pinto, especializado no atendimento a autistas. Em alguns casos, porém, as limitações causadas pelo transtorno são tão significativas que, em associação com outras doenças, impedem não só o autista, mas toda a família de levar uma vida mais próxima da normalidade. Em gêmeos, esse quadro é ainda mais grave. É o que acontece com os irmãos Gabriel e Rafael, 15 anos. Diagnosticados quando tinham pouco mais de 2 anos, iniciaram as terapias indicadas pelo médico psiquiatra desde o princípio, conta a mãe, Rosângela Maria Souza França. Hoje, 13 anos depois, eles necessitam de atenção especial 24 horas por dia. Na casa onde moram, não há mais vidraças, quebradas durante crises agudas. Como a família possui poucos recursos financeiros, levá-los à escola não é tarefa fácil. Deprimida, Rosângela, que vive com o auxílio do benefício que recebe do estado, luta para obter ajuda para reformar a casa e adequá-la às necessidades dos garotos. Apesar do cansaço, o amor de mãe fala mais alto. “Eles são carinhosos.” Mesmo entre os autistas de alto desempenho é possível identificar inúmeras dificuldades enfrentadas não só por quem tem o transtorno, mas por quem convive com ele. Que o diga a aposentada Lília Borges de Souza, mãe de Henrique, 37 anos, a quem ela preferiu preservar na reportagem. Quando o filho foi diagnosticado, pouco se sabia a respeito da síndrome e as terapias disponíveis à época eram limitadas. Mesmo sendo muito inteligente e tendo concluído o ensino médio, Lília conta que o filho não tem autonomia. Por isso, questiona o termo “alto funcionamento”. “A denominação seria correta se ele fosse independente, mas não é o caso. Minha maior preocupação é quanto ao futuro dele”, desabafa. O mais importante é saber diferenciar o que é mito do que é verdade quando o assunto é autismo. Em todos os casos, porém, o preconceito é, de longe, a maior limitação que o autista pode enfrentar. |
O que é?De acordo com o Cadastro Internacional de Doenças – 10ª edição (CID-10), o autismo é um Transtorno Global do Desenvolvimento, sendo caracterizado por desenvolvimento anormal ou alterado, manifestado antes da idade de três Em geral é acompanhado por outras manifestações inespecíficas como, por exemplo, fobias, perturbações de sono ou da alimentação, crises de birra ou agressividade, entre outras Causas Tratamento |
Saiba mais- De acordo com a definição da Associação Americana de Autismo, a síndrome é quatro vezes mais comum em meninos do que em meninas. - O autismo pode ocorrer isoladamente ou em associação com outros distúrbios que afetam o funcionamento do cérebro, tais como Síndrome de Down e epilepsia. Os sintomas mudam e alguns podem até desaparecer com a idade - O Q.I. de crianças autistas, em aproximadamente 60% dos casos, é abaixo dos 50, 20% entre 50 e 70 e apenas 20% tem inteligência maior do que 70 pontos. Esses números são questionados por alguns estudiosos, pois as metodologias de avaliação não são exatas e muitas vezes os métodos não se aplicam ao autista, que normalmente não se deixa ser testado - O diagnóstico é feito geralmente por um psiquiatra infantil, psicólogo ou neurologista. Existe muita dificuldade ainda hoje para se obter o diagnóstico, pois, no Brasil, existem apenas 400 psiquiatras infantis, por exemplo
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Atendimento pelo SUS em BH- Centro Psíquico da Adolescência e Infância (Cepai) – oferece atendimento a crianças e jovens nas áreas de psiquiatria, neurologia, pediatria, enfermagem, fisioterapia, fonoaudiologia, pedagogia, terapia ocupacional, serviço social e psicologia. Consultas podem ser agendadas pelo telefone (31) 3235-3000 - Hospital Infantil João Paulo II – a partir de 26 de outubro, o antigo CGP contará com ambulatório de Transtornos Complexos do Desenvolvimento. |
Mitos e verdadesMito: Os autistas têm mundo próprio Mito: Têm inteligência acima da média Mito: Os autistas não gostam de carinho Mito: Eles são assim por causa da mãe ou porque não são amados Mito: Os autistas não gostam das pessoas Mito: Eles não entendem nada do que está acontecendo Mito: Eles gritam porque são mal educados Fonte: http://www.bengalalegal.com/autismo.php Confira o vídeo desta matéria aqui. |