É pedagógica, oportuna e absolutamente pertinente a entrevista do ex-ministro João Camilo Penna publicada na edição de 25 de setembro da Viver Brasil. Sua visão sobre a crise financeira e econômica mundial, a mais grave desde a quebra da bolsa de Nova Iorque, nos anos 30, reflete a realidade do momento, que não comporta a euforia exacerbada de muitos nem tampouco o pessimismo deletério de outros. É preciso ser realista e compreender que a crise, de fato, não acabou. Os mais recentes indicadores de desempenho da economia brasileira divulgados pelo IBGE efetivamente confirmam que o pior já passou, que o brasileiro continua consumindo e que a economia começa a se recuperar. O crescimento do PIB no segundo trimestre do ano, de 1,9%, encerra o chamado quadro de recessão técnica, que ocorre quando o PIB cai por dois trimestres consecutivos. O aumento do consumo das famílias, de 2,1% em relação ao primeiro trimestre e de 3,2% quando comparado com o mesmo período de 2008, mostra que os brasileiros continuam a comprar.
A economia se move positivamente, mas não significa que voltamos a voar em céu de brigadeiro. Embora o consumo seja um indicador importante, sabemos todos que o que efetivamente movimenta e acelera o crescimento econômico é a taxa de investimentos na economia em relação ao PIB – e eles caíram significativamente após a eclosão da crise. Os números divulgados pelo IBGE registram queda histórica, com retração de 17% em relação ao mesmo período de 2008. No acumulado dos seis primeiros meses do ano, a queda dos investimentos é de 15,6% em relação ao primeiro semestre do ano passado.
É um alerta que não pode ser ignorado. Sem investimentos, a economia não cresce de forma sustentada no médio e longo prazo. Outra sinalização preocupante é a significativa redução da produção interna de máquinas e equipamentos – os chamados bens de capital. Máquinas e equipamentos são os principais insumos utilizados pelas empresas na implantação de novos projetos e na expansão dos já existentes. A queda na produção interna, juntamente com a menor importação desses bens explicitam, portanto, que os investimentos ainda não foram retomados no ritmo necessário.
É preciso entender a crise e a sua dinâmica. Para economias desenvolvidas, sair do fundo do poço e alcançar taxas positivas de crescimento, ainda que baixas, pode ser suficiente. O Brasil precisa mais que isso. Ainda somos uma economia emergente e acumulamos grandes carências sociais que nos diferenciam negativamente dos países desenvolvidos. Crescer a taxas mais elevadas nesse momento adverso da economia mundial, somente será possível com resgate da capacidade de investimentos do país, como ocorreu nos últimos anos quando cresceram sempre a taxas superiores às do PIB, ampliando a sua participação de 15,3%, em 2003, para 19% em 2008.
Para voltar a estes níveis e ampliá-los, é preciso eliminar os gargalos que sabotam a competitividade do Brasil como nação e de suas empresas como entes produtivos, geradores de renda e de emprego – enfim, como geradoras de crescimento econômico e desenvolvimento sustentável. Uma economia competitiva significa conquista de mercados, maior volume de produção e comércio, mais empregos e melhores salários. É necessário agir e a agenda a ser implementada é ampla. É preciso civilizar a carga tributária, reduzir juros e spreads bancários, modernizar a legislação trabalhista, fazer a reforma da previdência, conter o avanço dos gastos públicos de custeio, liberando recursos para maiores investimentos públicos. É preciso recuperar e expandir a infraestrutura de apoio ao setor produtivo e, fundamental, desonerar os investimentos produtivos no país.