Estamos tecnicamente fora da crise. Festivamente fora da crise. Tem razões o governo para alardear a retomada do crescimento, embora alguns setores ainda estejam em dificuldades. Mas de forma geral o cenário é de recuperação, principalmente de empregos. Há porém injustiças sendo cometidas. O governo atribui a si, e exclusivamente a suas ações, o sair da crise. Claro que há méritos governamentais no enfrentamento do dilúvio econômico, mas não reconhecer o esforço de toda cadeia produtiva é faltar com a verdade dos fatos. Aliás, o presidente Lula tem feito até mais do que deixar de reconhecer. Acusa o setor empresarial de ter, nos momentos mais cruciais, deixado de investir e dispensado pessoal. Se considerarmos como verdade universal fatos pontuais, está certo o presidente. Mas esta não é a realidade.
A contenção de investimentos e a dispensa de pessoal foram em setores específicos, voltados principalmente para a exportação, onde houve queda assustadora nos negócios que ainda persiste. Quando se toma uma decisão de adiar investimentos ou reduzir custos, não se faz isto por capricho ou por falta de compromisso social. Qualquer desaceleração nos investimentos é prejudicial à própria empresa que corre o risco de, na retomada do crescimento, ser superada no mercado. A dispensa de pessoal significa, em várias situações, perda de parte da inteligência da empresa que, no futuro, pode ser difícil de recuperar, obrigando a investimentos altos na formação de pessoal. Tem-se então que, na maioria dos casos, o empresário é obrigado a tomar medidas em defesa de seu negócio que, em última análise, é também em defesa do emprego num prazo mais longo.
Talvez os governantes, e Lula em especial, tenham dificuldade de enxergar esta realidade. Ser governo é muito mais fácil. Empresas estatais não quebram. Qualquer dificuldade é resolvida pelo Tesouro Nacional, ou pelos bancos e fundos de pensão estatais ou ainda via manobras contábeis, não permitidas às empresas privadas, como fez a Petrobras, desonerando-se do pagamento de mais de 4 bilhões de reais em impostos.
Por dever de justiça, então, o governo deveria convidar para sua festa, quem realmente faz a economia andar, que são os megas, grandes, pequenos, micros, individuais, formais ou informais empresários. Mas é bom que todos se lembrem de que a festa tem que ser rápida e sem direito a ressaca. Há muito a se fazer ainda. Ou melhor, há quase tudo a se fazer. Mal comparando, o Brasil está numa estrada de terra, no período de chuvas. Já vencemos alguns, mas temos muitos atoleiros à frente. Sem as reformas que o governo deixou de fazer, não vamos longe. Nosso espaço de crescimento está se estreitando pela falta de investimentos governamentais em infraestrutura. Somos entre os emergentes, e mesmo os de maior economia do mundo, o país que menos investe em infraestrutura. Para enfrentar a crise, tomamos uma série de medidas de desonerações, oferta de crédito, mas deixamos para trás o remédio tradicional do investimento público. Na relação PIB/investimento, tivemos aumento de apenas 0,1% nos investimentos públicos na comparação do primeiro semestre de 2009 com o mesmo período do ano passado. Incorporamos milhões de brasileiros ao mercado consumidor via Bolsa Família, principalmente, e aumento da oferta de ocupação, mas ainda temos 10% de nossa população, acima de 15 anos, analfabeta. Se considerarmos o analfabetismo funcional, este índice é superior a 20%. São, portanto, milhões de brasileiros sem qualquer qualificação chegando ao mercado de trabalho. Temos ainda muitos problemas a resolver, mas que ficarão para o próximo governo, pois os atuais – federal e estaduais – já estão em palanque.