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Entrevista
Euforia perigosa
Números da economia, crise superada e pré-sal? Para o ex-ministro da Indústria e Comércio João Camilo Penna é muito cedo para tantos rojões no céu brasileiro
Texto: Flávio Penna | Fotos: Victor Schwaner
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O engenheiro João Camilo Penna é uma das maiores autoridades brasileiras em energia. Ex-presidente da Cemig, ex-secretário da Fazenda de Minas, ex-ministro da Indústria e Comércio, ele tem vasta experiência profissional e é um estudioso da economia mundial, especialmente da brasileira. É com a bagagem técnica e a vivência profissional adquirida ao longo dos anos e nos vários cargos ocupados por ele, que Camilo Penna adverte sobre a crise ser mais profunda do que parece, e portanto não vai acabar tão cedo. Suas consequências ainda podem durar muito. Ele pede cautela e menos euforia com o pré-sal e diz não acreditar muito nas chances do presidente Lula eleger seu sucessor.
Nós saímos da crise? Esta é uma crise mundial e séria. Tem origem nos Estados Unidos, onde o povo aprendeu, nos últimos anos, a comprar o que não precisa com o dinheiro que não tem. Criaram déficits enormes e, além disto, a regulamentação financeira lá é muito fraca, muito frágil, com aquela história de liberdade em excesso. O mercado imobiliário, junto com o financeiro, foi muito leviano. Se os Estados Unidos criassem juízo não haveria mais problemas futuros, mas o presidente Obama é um gastador. Ele está operando com déficit fiscal, este ano, de 1,8 trilhão de dólares e anuncia que nos próximos anos será ainda maior. O enorme déficit norte-americano resulta na impressão de dólar. A maquininha roda e o mundo inteiro paga. Esta é a razão básica da crise. Como os Estados Unidos não vão mudar de hábito tão cedo, esta crise será longa e profunda.
E os outros países... Em contraponto a isto tem a China que está com uma política forte de crescimento, comprando e exportando muito, o que faz com que ela desvie da crise um pouco. Particularmente com os Estados Unidos a China tem conluio, um casamento. Ela vende para lá e com os dólares que recebe financia o Tesouro norte-americano. São dois bêbados, um segurando o outro, até quando ninguém sabe. A China já deu sinais de que não está satisfeita com a queda do dólar, pois tem reserva da moeda, algo em torno de 2 trilhões de dólares. Por isso, começou a mudar suas reservas, comprando euros. Isto altera o quadro. Estamos numa fase imprevisível, em que muita coisa pode acontecer.
Então de onde vem esta euforia de que a crise está superada? Isto não é verdade. A crise não está superada. Ela está com sinais de que não vai se aprofundar mais, talvez porque os governos estão tomando as medidas chamadas contracíclicas. Os governos baixam juros e soltam dinheiro para estimular o consumo. Isto alivia um pouco a crise. Aqui no Brasil, o presidente Lula diz que está tomando medidas anticíclicas, colocando dinheiro no mercado, aumentando o funcionalismo. Isto é um erro terrível. Isto vira despesa permanente. Anticíclica é medida que você toma, soltando dinheiro na praça, de forma provisória.
O quadro que o senhor desenhou sobre a falta de juízo do norte-americano não acontece também aqui, em função da facilidade do crédito? Este é um problema que, há tempos, incomoda os pensadores. O mundo está tentando copiar o modelo norte-americano, que não serve para todos países. É um modelo de consumo exagerado, com agressão terrível à natureza. Eu tinha esperanças de que a China viesse a ser exemplo para o mundo, com vida simples, sem ataques à natureza. Deu-se exatamente o oposto. A China está crescendo insensatamente, buscando o padrão de vida norte-americano. Felizmente ela vai ser freada pelo meio ambiente. Lá o ar está ficando irrespirável. O Brasil segue o mesmo caminho. Há hoje muita preocupação com o risco de o mundo se tornar inabitável por causa da poluição ambiental, em função da economia do carbono, altamente poluidora. O pré-sal, por exemplo, vai ajudar em muito a emissão do carbono. O petróleo é altamente poluidor e nós estamos aí muito felizes com o pré-sal.
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“Tinha esperanças de que a China viesse a ser exemplo para o mundo. Deu-se o oposto. Ela está buscando o padrão de vida americano” |
O pré-sal, de alguma forma, prejudica ou anula o ProÁlcool? Não, de modo algum. O petróleo do pré-sal está sendo alardeado no mundo sem estudos que sustentem isto. Estão falando em reservas de 50, 80 bilhões de barris, o que dá aproximadamente 2,5 trilhões de dólares. Não existem estudos claros sobre a quantidade de barris. Ainda serão necessários dois ou três anos de sondagens para se chegar ao número certo. Estas sondagens são muito caras. Aliás, a própria Petrobras é muito cautelosa. Ela fala em reservas prováveis. Evidentemente, o presidente Lula, que é um grande propagandista, grande vendedor, está fazendo oba-oba em cima do assunto, visando à eleição da Dilma Rousseff.
Mas e o ProÁlcool? O álcool é não poluente, renovável, produzido no período seco, com sobra de bagaço que poderá gerar 15% da energia elétrica brasileira, dentro de dois ou três anos. E a energia produzida na seca vale o dobro do preço, pois amplia a capacidade de oferta das usinas. Então a energia do álcool, mais a elétrica que pode ser produzida com a queima do bagaço, é maior do que toda a energia hidráulica do Brasil. É o ciclo da natureza. A cana cresce, chupa o carbono. A cana queima, expele o carbono. É o ciclo zero. Além disto, ele compete com o petróleo produzido pela Petrobras em termos de custo de produção, sendo ainda um forte gerador de emprego. Sem dúvida o álcool veio para ficar.
Mas acusam o álcool de ser prejudicial ao meio ambiente. O país está até restringindo a área de plantação de cana... Isto é balela. O álcool não é produzido na Amazônia e o governo está proibindo sua produção lá. Estão proibindo onde ninguém planta por questão de solo e clima. A cana está sendo cultivada hoje em terras que foram degradadas pela pecuária. Hoje o gado é criado confinado e formam extensas áreas de terra para a plantação de cana. O álcool é produzido com a utilização de apenas 2% das terras agricultáveis.
Como ficará a produção da energia hidráulica? Até uns cinco anos atrás, 80% da energia elétrica no Brasil era hidráulica e os outros 20%, térmica. A energia térmica era para completar a oferta no período da seca. No governo Lula foi estimulada a construção de usinas térmicas, movidas a petróleo, e altamente poluentes. Os projetos hidráulicos não eram aprovados por questões ambientais. Finalmente o governo acordou novamente para a necessidade das usinas hidráulicas, mas havia perdido muito tempo, sem realizar estudos. Decidiu então entregar às grandes construtoras a tarefa de fazer os projetos, o que, a meu ver, é um grande erro. Elas se interessam muito mais pelo volume de obras do que pela energia barata. Estão aí em construção as usinas de Santo Antônio e Jirau, no norte do país. Agora, acertadamente, o governo estuda o rio Tapajós, mas, curiosamente, entregou à engenharia francesa os projetos, quando a nossa hoje tem tecnologia melhor que a deles. A Amazônia é a nova fronteira hidráulica do Brasil. É longe, muito longe, implica linhas de transmissão caras e são usinas sem reservatórios, o que eliminaria florestas. Então, elas produzem muita energia no período chuvoso e chegam a quase zero na seca. Elas vão exigir linhas de transmissão caríssimas, de alta tecnologia, com mais de 3 mil quilômetros e, além disso, implicam a necessidade de o país ter usinas térmicas para suprir a falta de energia na seca. Grandes usinas poderão então ser tocadas com a queima do bagaço da cana, subproduto do álcool. Nos próximos anos o Brasil vai se alimentar também com o gás.
Para o senhor, o que seria melhor descobrir agora: gás ou petróleo? São coisas diferentes que se complementam. Eu gosto mais do gás. É muito menos poluente, mais limpo, mas tem o problema do custo do gasoduto que é caro. Se houve possibilidade de fazer uma usina perto da fonte de gás, ótimo.
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“A Dilma nunca foi candidata nem a vereadora. Não tem jogo de cintura para lidar com políticos. Isso enfraquece” |
O senhor acredita que em Minas poderá haver produção de gás, na região do São Francisco? Eu sou do conselho da Cemig e o diretor da área específica é o José Carlos Matos. Estão pesquisando e ele é otimista. Eu sou um pouco menos.
O senhor tem postura nacionalista. Mesmo assim, não acha que estamos vivendo um período muito ufanista, que pode ser perigoso? O governo Lula tinha o direito de ser pior. Eu esperava menos do governo dele. Mas o Lula revelou-se muito inteligente, audacioso e pragmático. Seguiu ipsis literis a política econômica do Fernando Henrique, inclusive colocando no Banco Central o Henrique Meirelles, que era do PSDB e ainda respeitou a Lei de Responsabilidade Fiscal feita no governo anterior. Manteve a moeda estável e conseguiu a estabilidade econômica. Por outro lado, ele tem um governo que 8 vive o dia. É hoje. O futuro não interessa. É um governo que não poupa, não investe. O investimento público federal no Brasil é menos de 1% da despesa total do Tesouro Nacional. O presidente não fez uma reforma sequer das muitas que o Brasil precisa. É um governo de consumo e despesa.
Lula pode colocar a perder os avanços que conseguiu tentando fazer sua sucessora? Há aí no meio a Lei de Responsabilidade Fiscal que ele é obrigado a obedecer. Mas não há dúvidas de que Lula trouxe avanços sociais. Visando votos ou não, sem dúvida ele melhorou muito a vida dos mais pobres. Agora, isto é uma coisa mundial. É condição para se obter empréstimos externos. Então, qualquer outro teria que fazer a mesma coisa, ou muito parecido. O Lula tem, sem dúvida, muito apelo popular, mas por outro lado, o povo está ficando cansado. Eu tenho conversado com vários analistas políticos e eles acham que provavelmente ele não fará seu sucessor. A Dilma nunca foi candidata nem a vereadora. Não tem jogo de cintura para lidar com políticos e isto, certamente, enfraquece. Há ainda o problema da doença latente. Agora, ela é uma mulher muito trabalhadora, sob certo aspecto é realmente a máquina do governo, é competente, mas é ideológica até a raiz dos cabelos. Tem forte posição ideológica o que não agrada muito aos partidos, que têm medo dela. Então acho pouco provável que o Lula consiga elegê-la.
Entre os governadores Aécio Neves e José Serra, quem tem mais chance? Eu acho que se um apoiar o outro, eles ganham a eleição. Minas com São Paulo elege. Um precisa do outro. O povo gosta do Lula, mas está cansado e quer mudanças. Oito anos é muito tempo. Eu acho que o Lula, apesar de todo o seu prestígio, não vai transferir seus votos.
O governo fala em criar agora mais uma estatal, com controle total de seu capital, para administrar o pré-sal. O senhor acha válida esta proposta? É para criar mais empregos. A Petrobras está hoje nas mãos de sindicalista. Toda a direção da empresa é de sindicalistas e eles estão aproveitando para criar empregos também. Não há dúvida de que a Petrobras é uma boa companhia, mas está muito prejudicada pelo domínio de sindicalistas.
Isto pode atrapalhar na captação de recursos externos? É claro, o pessoal vê isto. Isto é um risco no fato da empresa ser altamente sindicalizada e com outras coisas também. Então é preciso melhorar um pouco. Mas por outro lado, como ela tem domínio do petróleo, o pessoal não quer saber. Moral no mundo dos negócios é meio relativo, né. Se ela fizer a partilha...
Ela distribuindo bons lucros pode fazer o que quiser. Exatamente. Moral em negócio é relativa.
E o futuro do Brasil? Por quase cem anos, até 1980, o Brasil, segundo estudos bem fundamentados, foi o país que mais cresceu no mundo. A partir daí, por problemas na condução da política, a economia entrou em parafuso. A inflação explodiu. Foi preciso que o país fizesse nova Constituição para mudar o Brasil. A Constituição de 1988, no entanto, é cidadã, mas tornou o Brasil não competitivo por aumentar muito as despesas públicas e criar privilégios insustentáveis. Daí para frente o país passou a apresentar crescimento medíocre e continuou assim. A situação está a exigir uma grande reforma constitucional. Muita gente sabe disso e é provável que isso vá acontecer.
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