Terça, 22 de Maio de 2012
Logo Revista Viver Brasil - Assim é viver
 

Entrevista

Euforia perigosa

Números da economia, crise superada e pré-sal? Para o ex-ministro da Indústria e Comércio João Camilo Penna é muito cedo para tantos rojões no céu brasileiro

Texto: Flávio Penna | Fotos: Victor Schwaner


Envie seu comentário


O engenheiro João Camilo Penna é uma das maiores autoridades brasileiras em energia. Ex-presidente da Cemig, ex-secretário da Fazenda de Minas, ex-ministro da Indústria e Comércio, ele tem vasta experiência profissional e é um estudioso da economia mundial, especialmente da brasileira. É com a bagagem técnica e a vivência profissional adquirida ao longo dos anos e nos vários cargos ocupados por ele, que Camilo Penna adverte sobre a crise ser mais profunda do que parece, e portanto não vai acabar tão cedo. Suas consequências ainda podem durar muito. Ele pede cautela e menos euforia com o pré-sal e diz não acreditar muito nas chances do presidente Lula eleger seu sucessor.

Nós saímos da crise?
Esta é uma crise mundial e séria. Tem origem nos Estados Unidos, onde o povo aprendeu, nos últimos anos, a comprar o que não precisa com o dinheiro que não tem. Criaram déficits enormes e, além disto, a regulamentação financeira lá é muito fraca, muito frágil, com aquela história de liberdade em excesso. O mercado imobiliário, junto com o financeiro, foi muito leviano. Se os Estados Unidos criassem juízo não haveria mais problemas futuros, mas o presidente Obama é um gastador. Ele está operando com déficit fiscal, este ano, de 1,8 trilhão de dólares e anuncia que nos próximos anos será ainda maior. O enorme déficit norte-americano resulta na impressão de dólar. A maquininha roda e o mundo inteiro paga. Esta é a razão básica da crise. Como os Estados Unidos não vão mudar de hábito tão cedo, esta crise será longa e profunda.

E os outros países...
Em contraponto a isto tem a China que está com uma política forte de crescimento, comprando e exportando muito, o que faz com que ela desvie da crise um pouco. Particularmente com os Estados Unidos a China tem conluio, um casamento. Ela vende para lá e com os dólares que recebe financia o Tesouro norte-americano. São dois bêbados, um segurando o outro, até quando ninguém sabe. A China já deu sinais de que não está satisfeita com a queda do dólar, pois tem reserva da moeda, algo em torno de 2 trilhões de dólares. Por isso, começou a mudar suas reservas, comprando euros. Isto altera o quadro. Estamos numa fase imprevisível, em que muita coisa pode acontecer.

Então de onde vem esta euforia de que a crise está superada?
Isto não é verdade. A crise não está superada. Ela está com sinais de que não vai se aprofundar mais, talvez porque os governos estão tomando as medidas chamadas contracíclicas. Os governos baixam juros e soltam dinheiro para estimular o consumo. Isto alivia um pouco a crise. Aqui no Brasil, o presidente Lula diz que está tomando medidas anticíclicas, colocando dinheiro no mercado, aumentando o funcionalismo. Isto é um erro terrível. Isto vira despesa permanente. Anticíclica é medida que você toma, soltando dinheiro na praça, de forma provisória.

O quadro que o senhor desenhou sobre a falta de juízo do norte-americano não acontece também aqui, em função da facilidade do crédito?
Este é um problema que, há tempos, incomoda os pensadores. O mundo está tentando copiar o modelo norte-americano, que não serve para todos países. É um modelo de consumo exagerado, com agressão terrível à natureza. Eu tinha esperanças de que a China viesse a ser exemplo para o mundo, com vida simples, sem ataques à natureza. Deu-se exatamente o oposto. A China está crescendo insensatamente, buscando o padrão de vida norte-americano. Felizmente ela vai ser freada pelo meio ambiente. Lá o ar está ficando irrespirável. O Brasil segue o mesmo caminho. Há hoje muita preocupação com o risco de o mundo se tornar inabitável por causa da poluição ambiental, em função da economia do carbono,  altamente poluidora. O pré-sal, por exemplo, vai ajudar em muito a emissão do carbono. O petróleo é altamente poluidor e nós estamos aí muito felizes com o pré-sal.


“Tinha esperanças de que a China viesse a ser exemplo para o mundo. Deu-se o oposto. Ela está buscando o padrão de vida americano”
“Tinha esperanças de que a China viesse a ser exemplo para o mundo. Deu-se o oposto. Ela está buscando o padrão de vida americano”

O pré-sal, de alguma forma, prejudica ou anula o ProÁlcool?
Não, de modo algum. O petróleo do pré-sal está sendo alardeado no mundo sem estudos que sustentem isto. Estão falando em reservas de 50, 80 bilhões de barris, o que dá aproximadamente 2,5 trilhões de dólares. Não existem estudos claros sobre a quantidade de barris. Ainda serão necessários dois ou três anos de sondagens para se chegar ao número certo. Estas sondagens são muito caras. Aliás, a própria Petrobras é muito cautelosa. Ela fala em reservas prováveis. Evidentemente, o presidente Lula, que é um grande propagandista, grande vendedor, está fazendo oba-oba em cima do assunto, visando à eleição da Dilma Rousseff.

Mas e o ProÁlcool?
O álcool é não poluente, renovável, produzido no período seco, com sobra de bagaço que poderá gerar 15% da energia elétrica brasileira, dentro de dois ou três anos. E a energia produzida na seca vale o dobro do preço, pois amplia a capacidade de oferta das usinas. Então a energia do álcool, mais a elétrica que pode ser produzida com a queima do bagaço, é maior do que toda a energia hidráulica do Brasil. É o ciclo da natureza. A cana cresce, chupa o carbono. A cana queima, expele o carbono. É o ciclo zero. Além disto, ele compete com o petróleo produzido pela Petrobras em termos de custo de produção, sendo ainda um forte gerador de emprego. Sem dúvida o álcool veio para ficar.

Mas acusam o álcool de ser prejudicial ao meio ambiente. O país está até restringindo a área de plantação de cana...
Isto é balela. O álcool não é produzido na Amazônia e o governo está proibindo sua produção lá. Estão proibindo onde ninguém planta por questão de solo e clima. A cana está sendo cultivada hoje em terras que foram degradadas pela pecuária. Hoje o gado é criado confinado e formam extensas áreas de terra para a plantação de cana. O álcool é produzido com a utilização de apenas 2% das terras agricultáveis.

Como ficará a produção da energia hidráulica?
Até uns cinco anos atrás, 80% da energia elétrica no Brasil era hidráulica e os outros 20%, térmica. A energia térmica era para completar a oferta no período da seca. No governo Lula foi estimulada a construção de usinas térmicas, movidas a petróleo, e altamente poluentes. Os projetos hidráulicos não eram aprovados por questões ambientais. Finalmente o governo acordou novamente para a necessidade das usinas hidráulicas, mas havia perdido muito tempo, sem realizar estudos. Decidiu então entregar às grandes construtoras a tarefa de fazer os projetos, o que, a meu ver, é um grande erro. Elas se interessam muito mais pelo volume de obras do que pela energia barata. Estão aí em construção as usinas de Santo Antônio e Jirau, no norte do país. Agora, acertadamente, o governo estuda o rio Tapajós, mas, curiosamente, entregou à engenharia francesa os projetos, quando a nossa hoje tem tecnologia melhor que a deles. A Amazônia é a nova fronteira hidráulica do Brasil. É longe, muito longe, implica linhas de transmissão caras e são usinas sem reservatórios, o que eliminaria florestas. Então, elas produzem muita energia no período chuvoso e chegam a quase zero na seca. Elas vão exigir linhas de transmissão caríssimas, de alta tecnologia, com mais de 3 mil quilômetros e, além disso, implicam a necessidade de o país ter usinas térmicas para suprir a falta de energia na seca. Grandes usinas poderão então ser tocadas com a queima do bagaço da cana, subproduto do álcool. Nos próximos anos o Brasil vai se alimentar também com o gás.

Para o senhor, o que seria melhor descobrir agora: gás ou petróleo?
São coisas diferentes que se complementam. Eu gosto mais do gás. É muito menos poluente, mais limpo, mas tem o problema do custo do gasoduto que é caro. Se houve possibilidade de fazer uma usina perto da fonte de gás, ótimo.

“A Dilma nunca foi candidata nem a vereadora. Não tem jogo de cintura para lidar com políticos. Isso enfraquece”
“A Dilma nunca foi candidata nem a vereadora. Não tem jogo de cintura para lidar com políticos. Isso enfraquece”

O senhor acredita que em Minas poderá haver produção de gás, na região do São Francisco?
Eu sou do conselho da Cemig e o diretor da área específica é o José Carlos Matos. Estão pesquisando e ele é otimista. Eu sou um pouco menos.

O senhor tem postura nacionalista. Mesmo assim, não acha que estamos vivendo um período muito ufanista, que pode ser perigoso?
O governo Lula tinha o direito de ser pior. Eu esperava menos do governo dele. Mas o Lula revelou-se muito inteligente, audacioso e pragmático. Seguiu ipsis literis a política econômica do Fernando Henrique, inclusive colocando no Banco Central o Henrique Meirelles, que era do PSDB e ainda respeitou a Lei de Responsabilidade Fiscal feita no governo anterior. Manteve a moeda estável e conseguiu a estabilidade econômica. Por outro lado, ele tem um governo que 8 vive o dia. É hoje. O futuro não interessa. É um governo que não poupa, não investe. O investimento público federal no Brasil é menos de 1% da despesa total do Tesouro Nacional. O presidente não fez uma reforma sequer das muitas que o Brasil precisa. É um governo de consumo e despesa.

Lula pode colocar a perder os avanços que conseguiu tentando fazer sua sucessora?
Há aí no meio a Lei de Responsabilidade Fiscal que ele é obrigado a obedecer. Mas não há dúvidas de que Lula trouxe avanços sociais. Visando votos ou não, sem dúvida ele melhorou muito a vida dos mais pobres. Agora, isto é uma coisa mundial. É condição para se obter empréstimos externos. Então, qualquer outro teria que fazer a mesma coisa, ou muito parecido. O Lula tem, sem dúvida, muito apelo popular, mas por outro lado, o povo está ficando cansado. Eu tenho conversado com vários analistas políticos e eles acham que provavelmente ele não fará seu sucessor. A Dilma nunca foi candidata nem a vereadora. Não tem jogo de cintura para lidar com políticos e isto, certamente, enfraquece. Há ainda o problema da doença latente. Agora, ela é uma mulher muito trabalhadora, sob certo aspecto é realmente a máquina do governo, é competente, mas é ideológica até a raiz dos cabelos. Tem forte posição ideológica o que não agrada muito aos partidos, que têm medo dela. Então acho pouco provável que o Lula consiga elegê-la.

Entre os governadores Aécio Neves e José Serra, quem tem mais chance?
Eu acho que se um apoiar o outro, eles ganham a eleição. Minas com São Paulo elege. Um precisa do outro. O povo gosta do Lula, mas está cansado e quer mudanças. Oito anos é muito tempo. Eu acho que o Lula, apesar de todo o seu prestígio, não vai transferir seus votos.

O governo fala em criar agora mais uma estatal, com controle total de seu capital, para administrar o pré-sal. O senhor acha válida esta proposta?
É para criar mais empregos. A Petrobras está hoje nas mãos de sindicalista. Toda a direção da empresa é de sindicalistas e eles estão aproveitando para criar empregos também. Não há dúvida de que a Petrobras é uma boa companhia, mas está muito prejudicada pelo domínio de sindicalistas.

Isto pode atrapalhar na captação de recursos externos?
É claro, o pessoal vê isto. Isto é um risco no fato da empresa ser altamente sindicalizada e com outras coisas também. Então é preciso melhorar um pouco. Mas por outro lado, como ela tem domínio do petróleo, o pessoal não quer saber. Moral no mundo dos negócios é meio relativo, né. Se ela fizer a partilha...

Ela distribuindo bons lucros pode fazer o que quiser.
Exatamente. Moral em negócio é relativa.

E o futuro do Brasil?
Por quase cem anos, até 1980, o Brasil, segundo estudos bem fundamentados, foi o país que mais cresceu no mundo. A partir daí, por problemas na condução da política, a economia entrou em parafuso. A inflação explodiu. Foi preciso que o país fizesse nova Constituição para mudar o Brasil. A Constituição de 1988, no entanto, é cidadã, mas tornou o Brasil não competitivo por aumentar muito as despesas públicas e criar privilégios insustentáveis. Daí para frente o país passou a apresentar crescimento medíocre e continuou assim. A situação está a exigir uma grande reforma constitucional. Muita gente sabe disso e é provável que isso vá acontecer.


 
Compartilhe:    Bookmark com Delicious Bookmark com Delicious  Bookmark com Digg  Bookmark com Facebook  Bookmark com /.   Bookmark com Google  Bookmark com StumbleUpon   Bookmark com Technorati  Bookmark com Linkarena  Bookmark com Yahoo  Bookmark com SEOigg  Bookmark com Spurl  Bookmark com Live  Bookmark com Rec6  Bookmark com Myspace
Versão para Impressão  Versão Impressão    Assinar NewsletterNews:    

Busca no Portal

 
  

Blog do PCO


Assinatura Anual

© Copyright 2009, Revista Viver Brasil – MG-030, nº 8625. Torre2 – Shopping Serena Mall – Vale do Sereno.
Cidade: Nova Lima – MG / CEP:34000-000 | Telefone: (31) 3503-8888