Terça, 22 de Maio de 2012
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Educação

Ao mestre, sem carinho

Houve aquele tempo em que os professores eram tratados com respeito e devoção. Hoje são alvos de xingamentos e até de agressões físicas

Texto: Silvânia Arriel | Fotos: Pedro Vilela e Robson Regato


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A convivência se acirra a cada semestre letivo. Não é nada pacífica dentro dos muros vazados das escolas públicas e privadas, que deixam entrar as relações tumultuadas, a violência da sociedade. Não há como ficar emersas a tudo que ocorre fora, à frenética revolução tecnológica, ao suceder quase instantâneo de informações mundo afora. Estão lá entre o quadro e o fundo da sala de aula a exasperar os conflitos, que deveriam ser normais, inerentes a qualquer relacionamento, mas extrapolam e fazem os boletins de nota dividir os escaninhos com os de ocorrências policiais. Impensadas em tempos não tão remotos, em que o professor era o detentor do conhecimento, a autoridade, o mestre no pedestal do saber. Hoje, desceu deste posto, enfrenta indisciplina exacerbada e em casos mais extremos agressões físicas. Por quê? Os especialistas dizem que a resposta não se resume na exatidão do certo ou errado, há várias atenuantes a serem consideradas.

A explicação remonta à década de 80, quando começou a democratização do ensino, que abriu as portas das salas de aula para todas as classes sociais. Não que sejam contra, muito pelo contrário. Só que com a massificação houve demanda rápida por professores, nem sempre preparados para a função, sem aperfeiçoamento e sem definição clara do papel dessa nova escola. “Ela passou a ser refeitório, no caso dos colégios públicos. Não se acertou com o jeito de ensino, perdeu sua identidade”, diz o educador Cláudio Saiani, professor da Universidade Federal Fluminense. “A escola precisa se posicionar, rever seus princípios. O que ela quer do aluno, o que o aluno quer dela”,completa Jussara Bueno de Queiroz Paschoalino, coordenadora pedagógica e doutoranda pela UFMG.


Sônia Penin: ”A escola é um reflexo da sociedade”
Sônia Penin: ”A escola é um reflexo da sociedade”

Logo num mundo em evolução constante, em que os professores, com salários baixos, têm de se desdobrar em muitas aulas e não sobra tempo para a busca de qualificação, de se inteirar nesta época de revolução digital para a transmissão de ensino. Perdeu seu valor. “O professor quer se sentir útil, fazer a diferença. Quando não obtém isto, se sente culpado”, afirma Jussara Paschoalino, que fez pesquisa de mestrado na UFMG sobre o mal-estar dos docentes. Não consegue motivar os alunos nas salas de aula, ser reconhecido, legitimado e aí aparecem as agressões verbais ou físicas.  “A escola é um reflexo da sociedade; se essa tornou-se mais violenta, então as relações no interior também a acompanham. Somos um décimo da população mundial e temos cerca de um terço dos crimes de morte do planeta”, diz Sonia Penin, professora da USP e autora do livro Profissão Docente: Pontos e Contrapontos. Incorporam o que vivem fora, direta ou indiretamente.

Piora com os pais que, quando não estão ausentes, cobram da escola educação, o que deveriam fazer, ser os responsáveis por impor limites, repassar valores. “As instituições de ensino se preocupam hoje em instruir, não educar, o que é diferente. Por outro lado, a família está muito permissiva”, avalia a professora aposentada Maria José Caldas. Não aceita o seu papel,  repassa-o para a escola.

“A sociedade quebra a vida de crianças e adolescentes e depois quer que a escola cole os cacos”, afirma o educador Miguel Arroyo. Ele não vê falta de qualificação do professor e avalia que as tensões são normais na família e na escola. “A paz só existe no cemitério, não é pedagógica. O que temos de fazer é entender a infância, a adolescência.” O consenso é de que as agressões necessitam de válvula de escape e que a sociedade precisa participar para reverter essa situação de convívio penoso. “É importante a permanência do professor por mais tempo numa escola específica, participando da vida da comunidade local e trazendo-a para a escola”, diz Sonia Penin.

Os especialistas apontam o dedo da culpa para todos: sociedade, governos, professores, pais e alunos. Quem deveria se entender e harmonizar a convivência dentro das salas de aula, tirar das delegacias os boletins, transferir a atenção para os de notas e avançar o país na busca pelo conhecimento.

Jussara Paschoalino: “O professor quer se sentir útil, fazer a diferença”
Jussara Paschoalino: “O professor quer se sentir útil, fazer a diferença”

Alunos x estudantes

O que detona o relacionamento conturbado

- Democratização das escolas na década de 80, que ampliou a diferenciação socioeconômico-cultural, aumentou a demanda por professores e desvalorizou a profissão

- Eles não conseguem ter a mesma qualificação de antes, não se alinharam aos novos tempos tecnológicos
  
- Escola não estava preparada para essa mudança, perdeu seu papel de motivar o repasse de conhecimentos, a sua identidade

- A violência na sociedade se reflete na escola

Resultado: aumento das agressões aos docentes. Pesquisa do Sindicato dos Professores de Minas (Sinpro) mostra que 41% da categoria já foram agredidos ou ameaçados por alunos pelo menos uma vez

- Estudo da Unesco, feito em 14 capitais brasileiras, constatou que 47% dos professores foram xingados e 11% agredidos em sala de aula

Fonte: Sinpro, educadores Sonia Penin, Jussara Pachoalino e Cláudio Saiani


 
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