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CapaVocê é feliz?Boa pergunta, de difícil resposta. Até porque a vida é feita de momentos felizes, com intensidade, frequência e percepção que variam em cada ser humano
Texto: Raquel Ayres | Fotos: Alexandre C. Mota, Matheus Dias, Paulo Werner
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Danilo Gentili, 30 anos, repórter do programa de humor Custe o que Custar (CQC), experimenta o que se denomina sucesso. Em 2008 foi premiado como Paulistano do Ano pela revista Veja. A agenda profissional está cheia e é considerado destaque da stand-up comedy. Mas nem por isso sente-se completamente feliz. “Ainda falta uma coisa: conhecer alguém que o é de fato. Nunca conheci até hoje. Se você conhecer, me apresenta que ele vai me ensinar com certeza esse milagre.” Tema da filosofia há pelo menos três séculos a.C., a ideia de felicidade seria um fim para o ser humano, que usa todos atributos que a vida oferece para esta busca. Mas diferente dos animais, no homem a satisfação das necessidades básicas de vida nunca é suficiente. “Esta é a marca do ser humano: a impossibilidade de ser inteiramente feliz”, aponta o psiquiatra Wellerson Alkimim. Não é à toa que o pote de ouro está sempre depois do arco-íris, bem sabia Judy Garland em O Mágico de Oz. Mesmo tendo um bom encontro sexual, o casal continua discutindo a relação. O bebê sacia a fome, mas ainda chora. Queremos respeito, reconhecimento, ser amados. “Desejamos ter lugar no discurso do outro, queremos o algo além”, afirma Alkimin. “Somos condenados ao desejo de sermos felizes porque sempre vai faltar alguma coisa.” |
A publicitária Cris Guerra, 39 anos, sabe bem o que é isso. Há dois anos, em suas próprias palavras, sentia-se a mulher mais feliz do mundo. Já havia sofrido dois abortos espontâneos, mas finalmente, depois de também perder pai e mãe, conseguia levar a gravidez adiante. Até que, ao abrir a porta do apartamento, em janeiro de 2007, encontrou o companheiro Guilherme Fraga caído no chão. Estava morto. Sem nenhuma amargura, ela constata que a felicidade é relativa. “É o gostinho do instante. É quase nada. Dura pouco, mas pode ser vivida com intensidade. É saber olhar para o que se tem. Nunca vamos ter tudo.” Neste olhar generoso Cris deu a volta na infelicidade. Para dizer a todo mundo que eles, sim, já eram felizes, escreveu o livro Para Francisco, dedicado ao filho que está com um ano. Seu blog de moda, Hoje vou assim, ganhou o prêmio Chic de melhor do segmento em 2008. A coragem de falar de suas dores lhe renderam até mesmo certa dose de celebridade: é garota propaganda de grifes de sapato e roupas. Está em revistas de circulação nacional dando entrevistas e escrevendo colunas. O nascimento do filho significou redenção. “Mas ainda falta unir o amor e o filho para formar uma família completa.” |
Em outra ponta está o faxineiro Manoel Messias. Sua renda mensal não alcança 700 reais. Como a maioria, é anônimo. A pizza acompanhada do refrigerante compartilhado em família é um de seus grandes prazeres; alimentar a família. Casado, duas filhas, afirma que se sente muito, muito feliz. Mas nem sempre foi assim. Era viciado em sinuca. Deixava na mesa grande parte de seu salário. Vivia em atrito com a esposa. Na religião, Manoel conta que encontrou a felicidade. E a liberdade. Tal qual o jornalista Edson Batista Júnior, funcionário do Tribunal de Justiça. Nasceu com glaucoma congênito e é totalmente cego. “A fé me fortalece porque acredito que o Criador sustenta esta história toda. Sirvo a um propósito: demonstrar que a vida é para ser sonhada e vivida.” Sensação não estática, e sim dinâmica, conceito não universal, cada um é feliz à sua maneira, em sua singularidade. O óbvio? Não há receita. Importa que cada um busque o que dá significação à existência e está além de mera adaptação a despeito de infortúnios. “O prazer não é suficiente e em busca do algo mais escrevemos, fazemos arte, inventamos a cultura e nos reinventamos. Aquilo que ainda não alcançamos nos faz criar, construir, ir atrás”, frisa a psicanalista Mônica Belizário. |
Como buscar? O que é preciso, mesmo sem receituário? Geraldo Caldeira, especialista em medicina psicossomática, defende os princípios de Aristóteles: ser justo, solidário, magnânimo, amigo e ético. Para ele, invejosos e hostis são infelizes porque não conseguem ser solidários. Sem bom humor o mundo torna-se negro. Entretanto, segundo Caldeira, nos dias de hoje está mais difícil atingir a felicidade aristotélica. “A ética está desmoralizada. O mundo está despencando. O país está violento. Como ser magnânimo nesta sociedade competitiva?” Na opinião de Salim Zaidan, praticante do budismo tibetano, treinar é a palavra. Treinar a mente a usufruir sem se apegar. A ter flexibilidade no olhar, admitir que a morte é comum a todos e sofrer por ela é negar o óbvio. Entender que a vida é livre e tudo é sonho porque não dura. “Adiar é perder a felicidade. O momento agora nunca mais vai existir. E nós o perdemos em troca do amanhã.” |
Pode ser a solidariedade um dos meios possíveis à felicidade. Tereza da Gama Guimarães Paes, 56 anos, é voluntária da Fundação Benjamin Guimarães, que administra o Hospital da Baleia. Instituição que atende prioritariamente o SUS, tem enormes dificuldades para sobreviver. “A luta em busca de apoio, recursos e desenvolvimento faz parte do meu dia-a-dia. Cada conquista é fortemente valorizada pela equipe, pois sabemos o impacto que vai gerar para os pacientes. É a nítida sensação de que sua atuação faz, de fato, diferença para alguém.” A empresária Mariana Silva Costa Abrantes, 65 anos, viúva há 2, está de bem com a vida. Assinala que fundamental mesmo para ser feliz é estar bem consigo, o que se alcança ao longo da vida. O trabalho e o gosto pelo que faz são ingredientes importantes para a felicidade. |
Talvez por isto a relações públicas Fabiana V. Dias, 28 anos, esteja sentindo-se infeliz. Casada, relacionamento baseado em companheirismo, como diz, está desempregada há 2 meses. Desmotivada, sente angústia, isolamento. “A mulher moderna trabalha, cuida da casa, do filho e ajuda nas despesas. A sociedade cobra demais e quem está fora desse padrão é discriminado, sim. O ser humano precisa produzir, sentir que faz a diferença.” “Por meio do trabalho qualificamos nosso tempo e também damos sentido à existência”, assinala o professor de filosofia René Dentez. No entanto, hoje há muita cobrança pelo sucesso, otimização do tempo e resultados. “Isto causa também angústia”, explica. Num mundo em que, para satisfazer as exigências do trabalho impõem-se componentes emocionais como estar bem disposto e de alto astral diariamente, “as pessoas colocam suas máscaras de felicidade e saem por aí. Mas uma hora a máscara não serve mais”, adverte o psicólogo e terapeuta comportamental Ghoeber Morales. O corpo dá sinais; instalam-se fobias e medos. “As infelicidades e a psicopatologias são fruto da mesma contingência: algo não vai bem na interação do indivíduo com o mundo.” E não há prozac que dê jeito. Medica-se o corpo, o cérebro, a química, mas não a subjetividade. “Corrigir a serotonina pode dar sensação de alívio a alguns sintomas, mas não dá sentido à vida”, destaca Wellerson Alkimin. Tal é o drama do homem contemporâneo: ser feliz para a modernidade é a capacidade das pessoas de responderem a infinitas demandas. A modernidade é exigente, são muitos papéis a desempenhar ao mesmo tempo e se dar bem em todos. O corpo tem que ser belo, as obrigações sociais cobrem todos espaços. É imperativo estar em dia com um turbilhão de informações. Fazer tudo com muita pressa e ser bem-sucedido. Então, já conseguiu responder: você é feliz? Rápido, rápido... Ainda há muitas páginas a ler. |