Terça, 22 de Maio de 2012
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Artigo

Foi bom para a França; será bom para o Brasil?

É inacreditável como o nosso sistema político permita tocar um projeto como o trem bala com argumentos tão absurdos. Essa fragilidade é uma das causas do nosso subdesenvolvimento

Texto: Eduardo Fernandez Silva
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Eduardo Fernandez Silva -

Desculpem-me, leitores: retorno, mais uma vez, ao tema trem bala. É que me assusta a fragilidade das nossas instituições, a ponto de permitir prosperar ideia tão descolada das nossas necessidades! Além de ser um dos maiores projetos jamais empreendidos no Brasil, trata-se de obra de utilidade e prioridade duvidosas, além de inviável. Tanto que, para justificá-la, seus promotores têm usado argumentos insustentáveis, um dos quais é dizer que o projeto é bom porque os vendedores de trem bala têm interesse no mesmo. Pode? Recentemente, ouvi outro argumento também inacreditável: o trem bala gerou grandes benefícios na França e no Japão e, portanto, também beneficiará o Brasil. Trata-se de nova versão daquele velho ditado “o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”, que tanto mal nos causou e que pensávamos superado...

Senão, vejamos. Há, nos países mencionados, pelo menos quatro diferenças principais em relação ao Brasil que determinam resultados opostos, lá e cá, com o uso de dinheiro público para implantar um trem bala. Primeira, lá existem malhas ferroviárias maiores que a nossa, embora em territórios menores, e toda a população viaja de trem a cada semana. Ou seja, alguns avanços tecnológicos obtidos com o desenvolvimento do trem bala aplicam-se a toda a malha, beneficiando 100% da população. No Brasil, como não há trem, não haverá benefício algum para a maioria da população.

Segunda diferença: lá, há uma indústria ferroviária que produz desde trilhos e rodas até locomotivas e sistemas de controle operacional e gestão. Aqui, nossa indústria ferroviária é proporcional à malha: ridiculamente pequena e até locomotivas temos que importar. Quase tudo, do trem bala, virá de fora. Terceira: existem, lá, cen­tros de pesquisa em transporte ferroviário que desenvolvem tecnologia e empregam milhares de profissionais de alta qualificação. Para manter seus empregos, nada como vender um trem bala para os países subdesenvolvidos. Com o início das obras do trem bala nós, brasileiros, ajudaremos a manter os empregos dos engenheiros franceses, que parecem os prováveis vencedores da futura licitação... A quarta diferença também ajuda a entender por que, lá, um trem bala faz sentido e, aqui, tenderá a ser mais um elefante branco, uma megaobra que tenderá a se arrastar por décadas e na qual enterraremos muito, mas muito mesmo, dinheiro público: sem trocadilho, serão 100 km de túneis! Há muitas aplicações melhores para o nosso dinheiro! Esta quarta diferença é o fato de que, quando franceses e japoneses deram início ao desenvolvimento do trem bala, há décadas, naqueles países todas as crianças frequentavam escolas de boa qualidade, favelas eram quase inexistentes, saneamento básico era amplamente disponível, a atenção à saúde já era melhor que a brasileira, as ferrovias já estavam incorporadas ao cotidiano etc, etc, etc.

Essas diferenças significam, em síntese, que o mesmo projeto terá resultados completamente diferentes, lá e cá. No entanto, seus defensores não se vexam de dizer que, como foi bom para eles, será bom para nós! Aliás, é inacreditável como o nosso sistema político permite tocar um projeto como esse com argumentos tão absurdos. Essa fragilidade é, certamente, uma das causas do nosso subdesenvolvimento!

 
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