Terça, 22 de Maio de 2012
Logo Revista Viver Brasil - Assim é viver
 

Comportamento

Dias de Fúria

Nesta vida estressante, levada pela maioria das pessoas, os acessos de raiva são comuns. O importante é que cada um crie sua válvula de escape

Texto: Nayara Menezes | Fotos: Arte: Paulo Werner e Pedro Vilela


Envie seu comentário

Helena é daquelas mulheres tranquilas, considerada apaziguadora. Nas brigas é ela quem geralmente faz o papel de conciliadora, de colocar panos quentes nas situações conflitantes. Tenta resolver tudo pelo caminho da conversa. Certo dia, quando voltava do trabalho com o marido, ela foi repreendida no trânsito por outro motorista com um xingamento comum dirigido às mulheres: “Ô dona Maria!” O insulto desencadeou uma reação desproporcional. “Um sentimento de raiva tomou conta de mim e eu soltei um cala a boca tão agressivo, carregado de tanta ira, que meu marido ficou boquiaberto. Aquela não era a Helena que ele conhecia há 20 anos.”

Cenas como essa, narrada por Helena Tanure, 40, são mais comuns do que se imagina. Quem não se lembra de Michael Douglas no filme Um Dia de Fúria. Nele, o ator vive o personagem Willian Foster, um cara comum, que, em um dia como outro qualquer, tem uma crise de nervos no trânsito, abandona o carro no meio do congestionamento e sai destruindo tudo o que vê pela frente, chegando a atirar contra desconhecidos. Apesar de ser um caso extremo, o filme não é puramente ficção. Qualquer pessoa que esteja com nível de estresse elevado pode ter uma reação explosiva, atípica, como a de Foster no filme, ou a de Helena, no trânsito. Quem garante é a psicóloga Marilda Lipp, autora do livro Stress e o Turbilhão da Raiva. Segundo ela, tais sentimentos estão diretamente ligados. “O estresse é um dos fatores que mais desencadeiam a raiva.” Em uma situação como as descritas acima uma série de reações são despertadas no organismo. O coração bate rápido, os músculos ficam tensos e há a sensação de sufocamento. A partir daí, a raiva é expressada para dentro ou para fora. Nos casos mencionados, os personagens despejaram-na para fora. Mas afinal, qual seria a melhor forma de lidar com a raiva provocada pelo estresse? Extravasando-a ou reprimindo-a?

“Engolir a raiva não é recomendado. Mas também explodir por qualquer razão pode levar a aumentos de pressão arterial perigosos”, alerta Marilda Lipp. Por isto, a recomendação é externar os sentimentos, mas de forma mais tranquila. Para o psiquiatra Vladimir Bernik, coordenador da Clínica de Estresse de São Paulo, o ideal é ter controle emocional a ponto de não desenvolver a raiva, que é um sentimento maligno para a saúde. “Exercícios de relaxamento e meditação ajudam”, afirma. Quando não for possível, segundo o médico, é melhor extravasar um sentimento capaz de gerar problemas clínicos, do que reprimi-lo. “Acumular raivas é ruim porque um pequeno incidente gera uma reação desproporcional.” Foi o que aconteceu com Helena Tanure, citada no início da reportagem. Após o episódio no trânsito, ela fez uma reavaliação em sua vida. E hoje busca formas de não acumular o estresse ou de extravasá-lo no dia-a-dia. “Estar com os filhos, ler um livro na rede, ouvir uma música, fazer uma caminhada tem me ajudado bastante.”


Ademir Lataliza: trilha de moto para extravasar o estresse do dia-a-dia
Ademir Lataliza: trilha de moto para extravasar o estresse do dia-a-dia

Segundo a psicóloga e professora da Fundação Dom Cabral, Kedma Mano Nascimento, é cada dia mais comum pessoas, em especial, empresários e profissionais que ocupam cargos de chefia passarem por esse processo de revisão em suas vidas, após serem vítimas do estresse e da ira descomunal. “Chega um momento em que é preciso fazer escolhas. Não dá para abraçar o mundo sempre.” Mas ela ressalta que é preciso ter coragem de dizer sim e não a despeito do que as pessoas irão pensar. Kedma, que presta serviço de coaching a empresários, diz que já viu muitos abrirem mão de cargos e salários em troca de uma vida mais simples, porém, mais feliz.

Esse foi o caso do advogado Ademir de Souza Lataliza, 56. “Além de trabalhar muitas horas, estou exposto a pressões e ameaças de criminosos”, ressalta. O estresse se manifestou não em acessos de raiva, mas como uma angina instável. Por sorte, ele foi socorrido a tempo e passou por cirurgia cardíaca. A síndrome do pânico foi outra consequência. “Estava ligado no piloto automático. O corpo não aguentou”, conta.  O advogado teve que se afastar de suas atividades durante seis meses. Hoje, após retomá-las, ele tenta quebrar a rotina em pequenas atitudes. “Voltei a fazer trilha de moto e sempre tento dar uma escapada até o sítio para recarregar as energias.” Estas escapulidas são fundamentais.

Até porque, de acordo com o médico Vladmir Bernik, o acúmulo de estresse e situações de raiva são capazes de provocar infarto e até a morte. “A raiva estimula o lançamento da adrenalina na circulação, que é vasoconstrictora, age sobre as coronárias e levam à isquemia e ao infarto”, explica.

Quem também sofreu problemas de saúde como consequência de um forte período de estresse foi o psiquiatra Martim Vitová Jun­queira. Mesmo sendo profissional da área, ele não conseguiu aplicar os ensinamentos em si próprio. Há um ano, a esposa estava grávida e a mãe adoeceu. Além disso, ele tinha que se dividir entre vários empregos.“É um traço da minha personalidade querer resolver tudo para todos. Com isso, fui absorvendo todos os problemas da família.” Embora ajudasse os outros, o psiquiatra demorou a perceber que também precisava de ajuda. “Tive uma deficiência enorme de plaquetas. O índice normal é de cerca de 150 mil, o meu estava em 4 mil”, conta. O diagnóstico foi de púrpura. Apesar de ainda não muito bem explicada pela ciência, já se sabe que é o estresse um dos principais fatores que causam a doença sanguínea. Após o sinal aceso, o psiquiatra passou por tratamento psicológico e farmacológico, tirou férias e realizou mudanças. Hábitos já perdidos no tempo como a corrida e a natação foram recuperados. Além disso, a preocupação com horários foi deixada de lado.“A doença sempre vem como mensagem na vida. Não somos super-homens, temos que respeitar os limites do nosso corpo.”

Helena Tanure: ficar com os filhos é a melhor terapia
Helena Tanure: ficar com os filhos é a melhor terapia

10 dicas para lidar com a Raiva

1 Reconheça que está com raiva

2 Aprenda a perceber os eventos desencadeadores da raiva em você

3 Entenda que algo só se torna um evento desencadeador (uma provocação) pela interpretação que você dá a ele

4 As reações físicas da raiva têm o poder de aumentá-la

5 Sempre tente quebrar o processo de reação da raiva na sua fase inicial, verificando se o seu modo de avaliar a situação pode ser mudado. Para tal mude o seu diálogo interno, o modo como fala consigo mesmo

6 Quando perceber que a raiva está caminhando para as reações físicas, que o coração já começou a bater rápido, que corpo e mente estão ficando tensos, e está desenvolvendo sensação de sufoco, tente relaxar

7 Ao mesmo tempo que vai dialogando consigo mesmo, respire profundamente pelo nariz e expire devagar pela boca

8 Diga a si mesmo frases como: “ Vou deixar para reagir amanhã, quando puder avaliar a situação sem raiva”; “Estou aborrecido, mas não é o fim do mundo”; “Posso controlar minhas emoções”
 
9 Encontre modos construtivos do uso da raiva, por exemplo, faça ginástica, caminhe, dance, cante, ria, seja positivo, converse sobre ela

10 Quando já estiver em controle da sua raiva, tente resolver a situação que o fez ficar tão aborrecido


Fonte: Marilda Lipp, psicóloga e autora do livro Stress e o Turbilhão da Raiva

Após adoecer pelo estresse, Martim Vitová passou a se preocupar menos com o relógio
Após adoecer pelo estresse, Martim Vitová passou a se preocupar menos com o relógio

Danos da raiva

Existem pessoas que sentem raiva com muita facilidade, que estão sempre sob o domínio deste sentimento. Suas ações, muitas vezes, fogem do seu controle. As consequências são graves para a saúde, como hipertensão, úlceras, depressão, obesidade, perda de emprego, abuso físico ou psicológico de familiares e amigos. O resultado inevitável é uma autoestima prejudicada, relações interpessoais tumultuadas e um alto nível de estresse emocional.

Fonte: Marilda Lipp, psicóloga e autora do livro Stress e o Turbilhão da Raiva

Estresse

- No dicionário Aurélio diz que o estresse é “o conjunto de reações do organismo a agressões de ordem física, psíquica, infecciosa, e outras capazes de perturbar o equilíbrio interno”

- O médico canadense Hans Selye, criador da moderna conceituação de estresse diz que “o estresse é o resultado de o homem criar uma civilização que ele mesmo não mais consegue suportar”
 
Dados: 
- Pesquisas dão conta de que o estresse atinge 60% de executivos. A doença do terceiro milênio é um sério problema social, econômico e de saúde pública, pois ceifa pessoas ainda jovens, em idade produtiva e que geralmente ocupam cargos de responsabilidade  

- Não se sabe exatamente a incidência no Brasil, mas nos Estados Unidos gastam-se de 50 a 75 bilhões de dólares por ano em despesas diretas e indiretas

Fonte: Vladimir Bernik, médico psiquiatra, coordenador da Clínica de Estresse de S. Paulo


 
Compartilhe:    Bookmark com Delicious Bookmark com Delicious  Bookmark com Digg  Bookmark com Facebook  Bookmark com /.   Bookmark com Google  Bookmark com StumbleUpon   Bookmark com Technorati  Bookmark com Linkarena  Bookmark com Yahoo  Bookmark com SEOigg  Bookmark com Spurl  Bookmark com Live  Bookmark com Rec6  Bookmark com Myspace
Versão para Impressão  Versão Impressão    Assinar NewsletterNews:    

Busca no Portal

 
  

Blog do PCO


Assinatura Anual

© Copyright 2009, Revista Viver Brasil – MG-030, nº 8625. Torre2 – Shopping Serena Mall – Vale do Sereno.
Cidade: Nova Lima – MG / CEP:34000-000 | Telefone: (31) 3503-8888