O Brasil deverá ter crescimento este ano, mesmo diante da crise mundial. Há divergências quanto ao índice que poderá ser alcançado, mas até mesmo os mais pessimistas já aceitam que o país não terá PIB negativo, ao contrário do que se previa no início do ano. O mercado interno é o responsável pela manutenção da atividade econômica. O movimento da economia durante a crise deve-se, fundamentalmente, à capacidade do comércio de superar as dificuldades. A criatividade do setor para impulsionar as vendas, e com isto gerar novas oportunidades de trabalho e renda, foi fundamental para que o país não fosse tão atingido pela desaceleração da economia mundial.
Para Hiram Reis Correa, presidente do Sindilojas, ao contrário de outros segmentos da economia, no comércio não houve retração de investimentos. O ritmo de expansão da atividade, com a abertura de novas lojas e de ampliação de centros comerciais, mostra que a crise não afetou diretamente o setor. No início da crise, último trimestre do ano passado e início de 2009, houve certa preocupação dos comerciantes com a reação do consumidor. A redução das vagas de trabalho em setores importantes, como a indústria de base e a mineração, provocou sim uma certa insegurança. “As pesquisas realizadas por entidades de classe do comércio mostrou que o consumidor estava receoso em fazer compras, assustado com a possibilidade de perda de emprego. Isto, no entanto, foi passageiro e logo este medo foi superado”, diz Correa.
Para esta superação, acredita, foi fundamental a experiência dos comerciantes. “O comércio, não apenas no Brasil, mas em todo o mundo, desenvolveu mecanismos para se proteger de crises, estimulando as vendas. Liquidações, saldões, oferta de crédito direto, sem a burocracia do sistema financeiro, são armas para manter viva sua atividade, mesmo nos períodos mais críticos. O cheque pré-datado, esta criação tão brasileira, por exemplo, está voltando a ser forte atrativo nas vendas do comércio varejista.”
Outra importante contribuição do comércio durante o período mais agudo da crise, foi a manutenção do emprego. O setor é fortemente empregador e não fechou vagas – embora, em alguns momentos, não conseguiu manter a média de crescimento de postos de trabalho apresentado ao longo do ano passado. O presidente do Sindilojas destaca que o comércio varejista é, dentre todas as atividades econômicas, a de maior capilaridade. Não existe uma única comunidade no país que não tenha um comércio em funcionamento. Daí a sua enorme capacidade de gerar empregos diretos e indiretos. “Nas grandes cidades as ofertas de emprego no setor chegaram a ser ampliadas. Nos períodos de promoções e liquidações, como ocorreu na fase mais aguda da crise, há uma maior absorção de trabalhador. O vendedor tem que estar disponível para atender o cliente tão logo ele entre na loja.”
Ainda não há dados mais concretos disponíveis, mas o presidente do Sindilojas não acredita que tenha ocorrido queda na arrecadação do ICMS do setor varejista. A queda de receita anunciada pelos governos – União, estados e municípios – segundo ele, são resultado da desaceleração do setor exportador, este sim fortemente atingido. Para o final do ano as expectativas são muito boas. Hiram Reis Correa prevê incremento de vendas para o Dia das Crianças, em outubro, e para o Natal, com base nas pesquisas que mostram elevação nos índices de confiança de empresários e consumidor. “Eu não tenho dúvidas de que em grande parte a capacidade de superação do setor se sustenta na capacidade gerencial de nossos empresários. Fica também, para o governo, a lição de que é preciso dar maior atenção ao setor que soube segurar a economia, sem estímulos governamentais, embora alguns possam alegar que algumas isenções de IPI tenham sido dadas. Isto ocorreu sim, mas para poucos segmentos e produtos. O grosso do comércio teve que buscar sozinho o seu caminho. E encontrou, para a sorte dos brasileiros”.