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Saúde
Quando corpo e mente se confundem
Além de diagnóstico difícil, a somatização – transtorno psíquico responsável por 10% dos custos com a saúde no Brasil – ainda esbarra na desconfiança de alguns pacientes que se negam a procurar ajuda psiquiátrica
Texto: Daniele Hostalácio | Fotos: Arte: Paulo Werner, Pedro Vilela, Alexandre Brum
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Beatriz era uma paciente cheia de queixas: sentia dores em diferentes partes do corpo, sofria com palpitações, falta de ar, tonturas e uma série de outros incômodos inespecíficos. Os males eram vários, recorrentes e já vinham de longa data. Inúmeras consultas médicas, exames de todos os tipos e até uma intervenção cirúrgica, e, mais uma vez, ela é informada de que os sintomas que apresenta não têm origem orgânica definida. Ao ser encaminhada para avaliação psiquiátrica, o profissional que a recebe não tem dúvidas: está diante de um quadro clássico de somatização. O termo, que usamos de maneira ampla quando nos referirmos a qualquer reflexo das emoções no nosso corpo, tem um sentido médico estrito: trata-se de transtorno, pelo qual a pessoa sente uma série de sintomas físicos desconfortáveis, produzidos por distúrbios de origem psíquica.
Personagem fictícia desta matéria, a paciente Beatriz apresenta um histórico de hospitalizações e extensa trajetória médica. O psiquiatra José Atílio Bombana, coordenador do Programa de Atendimento e Estudos sobre Somatização da Unifesp, explica que esse é o quadro típico de somatização, pois os sintomas são múltiplos e recorrentes e a pessoa busca diversos serviços médicos. Soma é um termo que vem do grego, e significa corpo. Somatizar seria transferir para o corpo físico os incômodos emocionais. “Corpo e mente interagem permanentemente, mas apenas algumas vezes isso acarreta transtornos. As repercussões dependem da magnitude dos estímulos que somos obrigados a suportar na vida, e da capacidade interna de cada um de digerir tais situações”, esclarece o psiquiatra.
Para explicar como isso acontece, a psicóloga hospitalar da Secretaria de Saúde do Estado do Rio de Janeiro, e especialista em terapia cognitivo-comportamental, Cristiane Figueiredo Araújo, recorre a um exemplo. “Uma pessoa que está triste pela perda de um ente querido pode sentir aperto no peito, cansaço e fadiga muscular, além de sintomas emocionais como desânimo e falta de motivação. Isso é normal durante um tempo, mas se ela pensar: Não consigo viver sem essa pessoa, a vida perdeu o sentido para mim, provavelmente ela irá experimentar repercussões físicas ainda maiores. O pensamento acaba modulando a intensidade da repercussão física e afetando o modo como a pessoa se comporta”, explica.
É por isso que, dependendo do contexto em que o termo é utilizado, somatização pode ter diferentes conotações. Qualquer pessoa pode somatizar, se certo limiar de desconforto psíquico for ultrapassado. Entretanto, existem os típicos somatizadores, que frequentam continuamente os serviços médicos. De acordo com Atílio, do ponto de vista psíquico, os somatizadores têm sido caracterizados por carência na elaboração psíquica, por falhas no processo de simbolização e pelo chamado pensamento operatório – pobreza da vida de fantasia, da vida imaginativa, do devaneio e uma excessiva ligação com a realidade, onde o sujeito é muito concreto, sendo até os seus sonhos, quando existem, repetições da realidade.
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José Lorenzato Mendonça: “Buscar equilíbrio” |
Quando é uma patologia, a somatização é enquadrada como transtorno somatoforme. Entre as queixas mais comuns dos somatizadores, estão problemas cardiológicos, neurológicos, respiratórios, dermatológicos, gastrointestinais e de origem sexual. Por acreditarem que o mal-estar que sentem é orgânico, e não psicológico, esses pacientes representam um grande custo para o sistema de saúde particular e o público. A psicóloga Cristiane explica que a busca por atendimento médico – clínicos gerais, cardiologistas e ginecologistas – ocorre pelo fato de os sintomas físicos sentidos por esses pacientes serem reais, e preocuparem a pessoa. “A busca constante por explicações médicas para os sintomas leva à realização de exames e intervenções invasivas, muitas vezes desnecessárias”, pontua a psicóloga.
Nos Estados Unidos alguns estudos mais antigos chegaram a apontar taxas de aproximadamente 50% dos custos de ambulatórios médicos serem devidas a processos realizados em pacientes com transtorno de somatização. “Um estudo recente mostrou que os somatizadores tiveram, em relação aos demais pacientes, o dobro de utilização de cuidados médicos, tanto em nível ambulatorial como hospitalar, e também o dobro de gastos, quanto ao cálculo anual de cuidados médicos. Não temos dados precisos no Brasil, mas acredito que não deve ser muito diferente”, afirma Atílio.
Infelizmente, nem sempre os médicos não psiquiatras conseguem identificar o paciente somatizador. Essa demora na identificação do transtorno implica desgaste para o paciente e para o médico. Contudo, quando são indicados para um profissional da saúde mental, muitos pacientes com suspeita de apresentarem somatização não aceitam esse encaminhamento. “Mais de 70% não seguem a orientação, pois não acreditam que todas aquelas queixas estejam acontecendo no cérebro”, pontua José Lorenzato Mendonça, professor do Departamento de Saúde Mental da UFMG. Sentem-se fisicamente doentes – e não psiquicamente.
Mas, o que pode desencadear o processo de somatização? Segundo Cristiane, eventos de vida estressantes, que exijam esforço de adaptação da pessoa a uma situação nova, podem ser desencadeantes do transtorno. “E o que pode predispor são estilos inadequados de enfrentamento de estresse aprendidos ao longo da vida, além da influência biológico-hereditária”, diz. É muito comum que aqueles que apresentam somatização também sofram com depressão e transtornos de ansiedade. Diante de paciente com diagnóstico de somatização, os profissionais de saúde devem recorrer a um tratamento multidisciplinar. Psicoterapia e medicações podem ser combinadas, tendo em vista cada paciente. “Ter vida social rica, lazer, praticar atividade física, ioga, meditação, buscar equilíbrio, tudo isso ajuda no tratamento”, diz Lorenzato. Uma das formas de minimizar os desconfortos físicos é, também, a pessoa desenvolver a capacidade de expressar, verbalmente, seus sentimentos e emoções – relatar seus medos, suas frustrações, angústias, tristezas, decepções. Mas, acima de tudo, é necessário saber distinguir situações pontuais e passageiras, bastante frequentes, de outros quadros graves e crônicos. “Neste último caso, uma abordagem especializada pode ser necessária”, finaliza Atílio.
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Cristiane Figueiredo: estresse pode causar transtorno |
Somatização
- Pode ser compreendida de duas formas: fenômeno ou transtorno psiquiátrico - Como fenômeno, a somatização é entendida como a tendência a expressar um mal-estar emocional ou social por meio de queixas físicas - Quando o processo de somatização torna-se um modo constante de expressar desconforto psicológico com a busca de auxílio médico para os sintomas, entende-se que a pessoa pode estar sofrendo de transtorno psiquiátrico - A somatização como transtorno psíquico é classificada como um tipo de transtornos somatoformes - As queixas são variadas: náuseas, dores em diferentes partes do corpo, palpitações, tonteiras, formigamentos, zumbidos, dormências, problemas sexuais, insônia, problemas menstruais, falta de ar, entre outras - Podem ocorrer somatizações em ambos os sexos, mas há predominância entre as mulheres - Crianças também somatizam. Muitas situações de demanda emocional, como brigas entre os pais e provas na escola se refletem em crises de dispneia (falta de ar) e manifestações na pele, por exemplo - Pessoas com transtorno da somatização muitas vezes também apresentam quadros de depressão ou transtornos de ansiedade - Para diagnosticar o processo ou transtorno de somatização é fundamental uma boa avaliação médica que descarte disfunções orgânicas que possam ser responsáveis pelos sintomas
Fonte: Cristiane Figueiredo Araújo, José Atílio Bombana, José Lorenzato Mendonça.
Custos para saúde
- é responsável por 10% dos gastos diretos com saúde - pacientes somatizadores têm custo total nove vezes maior do que outros pacientes - gasto hospitalar seis vezes maior - custo 14 vezes maior com consultas médicas
Fonte: Cristiane Figueiredo Araújo, José Atílio Bombana, José Lorenzato Mendonça
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