Segunda, 21 de Maio de 2012
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Qualidade de Vida

Sem medo de envelhecer

Algumas dicas de como atingir a feliz idade sem se atormentar por receios, como o de se tornar dependente de outra pessoa

Texto: Elisângela Orlando | Fotos: Pedro Vilela, Daniel de Cerqueira e Arquivo pessoal


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Manoel dos Santos: “Melhoro a cada dia”

É do psicólogo norte-americano James Hillman, último discípulo direto de Carl Gustav Jung, a frase que talvez explique melhor a relação do homem ocidental com o envelhecimento. Se­gundo Hillman, “a principal patologia da velhice é a nossa ideia de velhice”.  Em poucas palavras, ele conseguiu sintetizar o medo que a maioria das pessoas tem de envelhecer, como se a velhice fosse sinônimo de um câncer cruel, que precisa ser evitado a qualquer preço. Ideia cada vez mais reforçada pela mídia, que costuma ignorar tudo que se distancia do estereótipo de beleza e juventude tão cultuado pela sociedade ocidental.

Em razão desse medo, muitas pessoas tentam driblar a velhice se refugiando em todo e qualquer artifício que venda a fórmula fonte da juventude. Não é à toa que as clínicas de estética estão abarrotadas e as chamadas celebridades exibem na TV rostos e corpos que se distan­ciam cada vez mais da realidade etária. Mais parecem bonecos de cera sem expressão. Enquanto isso, do outro lado da telinha, cidadãos comuns tentam entender como é possível chegar aos 60, 70 a­nos e manter a aparência de 30. Missão impossível e que não deve ser levada ao pé da letra. O ideal é aprender a envelhecer com saúde e qualidade de vida, aproveitando ao máximo as inúmeras coisas que esse período traz de bom. E não são poucas as pessoas que, nadando contra a correnteza, descobriram que a chega­da da velhice pode e deve ser encarada com naturalidade, sem medo. Mais do que isso, elas deixam claro que não é preciso se tornar refém dos efeitos colaterais que costumam vir com a idade e muito menos es­cravo de procedimentos estéticos.

Exemplo disso é a jornalista e empresária de moda Jóia Senedese. Aos 56 anos, ela continua esbanjan­do beleza, humor e simpatia e atrain­do olhares por onde passa. Nun­ca se submeteu a pro­cedimento cirúrgico para fins estéticos, mas diz que não abre mão da alimentação saudável, pratica exer­cícios físicos regularmente, não dispen­sa um bom hidratante e protetor solar e gosta de ca­prichar na ma­quiagem. Tudo sem exageros, mas em prol de uma vida mais saudável. Medo de envelhecer? Jóia afir­ma que desconhece. “A maturidade foi chegando de uma manei­ra muito gostosa. Ao invés de focar nas coisas difíceis, me concentrei nas boas que só a idade pode me dar, como a sabedoria”, explica. A jornalista tem em quem se espelhar. Ela conta que, ainda hoje, a primeira coisa que a mãe, Alair Siqueira Se­ne­dese, 82 a­nos, faz após acordar é se maquiar. “Não tem jeito de uma pessoa ser jovem quando não se é mais jovem, mas você pode ser uma pessoa de terceira idade e ser linda. Tem a ver com a alegria.”


Jóia Senedese: “A beleza não é uma questão física”
Jóia Senedese: “A beleza não é uma questão física”

Para o fisioterapeuta e mestre em gerontologia Pedro Paulo Monteiro, por trás do medo de envelhecer está o medo de não ter condições de viver plenamente. Autor dos livros Enve­l­hecer: Histórias, En­con­tros e Trans­for­ma­ções e En­ve­lhecer ou Morrer, Eis a Questão, ele afirma que, infeliz­men­te, ainda existe a ideia de que somos máquinas e, portanto, enferrujamos com o passar do tempo. “Não há co­mo nos enganar, envelhecer é viver. Envelhecemos em tempo integral, não há como parar o fluxo do rio da vida, a não ser pela morte.”

Na opinião de Monteiro, o medo de envelhecer não está restrito ao mundo ocidental. Ele frisa que vivemos num mundo globalizado e que mesmo na cultura oriental a velhice é uma preocupação. Como exemplo, ele cita um pequeno centro budista de Kijidenji, na província de Nara no Japão, conhecido como o templo da mor­te súbita. “Diversas pessoas vão até lá rezar para que tenham morte rápida e em paz. O medo dos japoneses mais velhos é também a dependência. Eles não querem ser um fardo para seus filhos.”

O medo do desconhecido está intrinsecamente ligado ao da morte, o que explica, em parte, o receio que a maioria das pessoas tem em envelhecer. É o que afirma a psicanalista Vanessa Torres de Oliveira. “O envelhecimento, dentro de um processo natural que sucede a maturidade, em todos os seres vivos conduz ao inorgânico, isto é, à morte e é disso que todos têm medo”, salienta. Segundo ela, na tentativa de driblar este inevitável destino, as pessoas recorrem cada vez mais aos procedimentos estéticos que vão mudar a aparência, sem, entretanto, produzir um efeito de adiamento do processo.

Jandira Carvalho, 97 anos: sempre vaidosa
Jandira Carvalho, 97 anos: sempre vaidosa

E assumir a idade é correr o risco de ser rejeitado, acrescenta Pedro Pau­lo Monteiro. “A maturidade é alcançada por quem assume a própria história de vida, sendo ela mesma”, diz. É o caso da dona de casa Jan­dira Nair de Carvalho, 97 anos “mui­to bem vividos”, segundo ela. Ain­da hoje, ela afirma que adora ir ao salão de beleza e diz que sempre foi vaidosa. Em razão disso, sempre en­tra em atrito com a filha, Aparecida, de 75 anos, com quem mora. “Ela não me puxou”, brinca. Jandira assegura que nunca sentiu o peso da idade e revela seu segredo para envelhecer de forma saudável e feliz. “Beber leite da roça, pescar, ler muito e conviver em sociedade”, diverte-se a nonagenária.

Envelhecer bem e sem se render aos estereótipos das novelas também é uma preocupação do universo masculino. Que o diga o empresário Manoel Al­berto Teixeira dos Santos, 62. Depois de viver anos a fio de forma sedentária, aos 50 anos ele decidiu que era hora de mudar. Começou a fazer caminhada e a praticar natação por conta própria. Há três anos, porém, começou a frequentar academia.  “Fa­ço coisas que amigos da minha idade não fazem. Por exemplo, gosto muito de viajar e, para isso, é preciso ter disposição para subir escadas, an­dar em aeroportos. A pessoa só consegue fazer isso se estiver bem condicionada”, diz. Manoel Alberto também é enfático ao dizer que nun­ca teve me­do de envelhecer, principalmente depois que começou a cuidar melhor da saúde e a praticar atividade física. “Ao contrário, percebo que estou melhorando a cada dia. A minha ideia é substituir o medicamento pelo investimento na mensalidade da academia.”

Manoel, Jóia e Jandira são apenas alguns exemplos de que é possível enca­rar a velhice sem medo. Cada um encontrou a sua receita para envelhecer bem e feliz. Uma dica para enfrentar essa fase da vida com naturalidade e não se tornar mais uma vítima da mídia é se tornar um bom observador de si mesmo, como ensina o mestre em gerontologia Pedro Paulo Monteiro. “Precisamos entender que somos seres únicos em nos­so tempo vivido. E se temos uma história de vi­da, temos também um significado. Isso não pode ser descartado. A saída para não nos rendermos aos estereótipos criados pe­la mí­dia é uma porta que só abre para dentro.”


 
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