Você chega a uma cidade que não conhece, vê o anúncio daquele espetáculo que queria assistir há tempos, mas não sabe como fazer para comprar ingressos. A descarga do banheiro do seu apartamento estragou, a agenda do dia está lotada e o problema não pode esperar para ser resolvido amanhã. Quer ir a uma loja no shopping que vende artigos esportivos e não sabe sua localização. Para tudo, chame um concierge. A profissão nasceu na Idade Média e vem ganhando mercado diante da correria e da falta de tempo provocadas pela vida moderna. Mais tradicionais em hotéis de luxo, esses profissionais ganham espaço em condomínios residenciais e comerciais e em shoppings. E, com certeza, agradam, e muito.
Não é uma palavra que não faz parte do vocabulário de um concierge. Por mais esdrúxulo que seja o pedido. “Atendo a 100% das solicitações que me chegam”, afirma a administradora do condomínio misto Çiragan, em São Paulo, Nilda Oliveira. Ela é concierge há 16 anos. Formada em hotelaria, ela diz que está se realizando profissionalmente atendendo a um novo público. E que público. As torres que administra, juntamente com outras duas concierges assistentes, têm 320 condôminos residenciais e 340 pessoas que trabalham na torre comercial. Haja paciência e disposição. “A gente sempre tem horário para chegar ao trabalho, mas nunca para sair”, conta Nilda.
Gostar de servir aos outros é uma função com a qual o estudante de publicidade e propaganda Vinícius Lima Ziviani se identifica. Estagiário no shopping DiamondMall, em Belo Horizonte, ele se candidatou a uma das três vagas de concierge que o centro de compras disponibilizou no início deste ano. O estabelecimento é o primeiro do gênero a ter concierge na capital mineira. “Todos os dias nos deparamos com situações distintas”, conta. Os quase quatro meses de trabalho foram suficientes para que o estudante percebesse o quanto BH recebe turistas estrangeiros. “Não tinha noção da quantidade de pessoas de outros países que vêm aqui”, diz. Ele conta que o setor onde ficam os concierges tornou-se o de atendimento principal do shopping. Os serviços são os mais variados nos 60 atendimentos diários, em média. Vão de um simples fornecimento de informação de localização de loja no shopping à troca de bilhetes aéreos. “Nossos concierges estão preparados para informar as opções de lazer na cidade, pontos turísticos, promoções, exposições que estão ocorrendo e, claro, tudo sobre os serviços oferecidos pelo shopping”, conta a gerente de marketing do DiamondMall, Flávia Louzada. “Nossa intenção principal é fazer um mimo para o cliente”, revela.
Histórias engraçadas e estranhas não faltam na carreira de Isabela Dias, concierge do Ouro Minas Palace Hotel há três anos. Segundo ela, responsável pelo atendimento aos clientes vips do hotel, alguns hóspedes ilustres pedem para que todos os móveis do apartamento sejam cobertos por lençóis brancos, outros pedem para trocar todo o mobiliário escuro, por cor clara, há os clientes que só comem produtos orgânicos e por aí vai. Certa vez uma hóspede queria fazer uma surpresa ao marido grego, que estava voltando da Grécia. “De uma hora para outra consegui encontrar todos os profissionais para que a suíte presidencial ficasse como um verdadeiro ambiente grego”, relembra a concierge do Ouro Minas. Mas o atendimento que mais a marcou foi o da apresentadora Xuxa. “Não que seja sua fã hoje, mas ela fez parte da minha infância. Foi bem marcante”, conta Isabela, que também teve de encomendar batata frita e chicletes para os cãezinhos da pop star Alanis Morissette. “Nem sabia que existia isso”, conta.
Mas nem só de glamour vive um concierge. Eles trabalham duro, fazem muita hora extra. “Além disso, a profissão exige qualificação permanente”, observa Isabela Dias, dona de uma agenda com mais de mil contatos. Afinal, é por meio deles que o concierge consegue atender às solicitações de seus clientes. O excesso de trabalho tem lá suas recompensas. O salário de um concierge varia de 3 mil a seis mil reais. Além do mais, a profissão pode ser a porta de entrada para quem deseja ingressar no mercado de trabalho, até porque não há curso específico para ser um concierge, mas há pré-requisitos: ter disposição e vocação para servir 24 horas por dia.