A crise atual é do Senado ou do Congresso?
No sentido mais amplo é uma crise do parlamento. Para dizer a verdade, os parlamentos, no plural, vão muito mal. No Brasil vão de forma comprometedora. A performance das Câmaras Municipais, das Assembleias Estaduais, do parlamento em Brasília é muito abaixo da crítica. O Senado é uma estrutura para lá de superada e foi desenvolvida ao longo do tempo num processo pouco republicano. Estabeleceram no Congresso e no Senado um padrão de permissividade comprometedor. A eleição do presidente Sarney consolidou a vitória deste conteúdo. Agora, não foram os senadores, mas sim a imprensa, que fez as denúncias contra o senador José Sarney e outros membros do Congresso. O presidente foi incapaz de responder a estas denúncias. Foi incapaz também de proteger o Senado. Em vez de tratar a sociedade com o respeito que ela merecia, o presidente começou a culpar a imprensa. Depois culpou os adversários. Ora, esta crise não é culpa da imprensa, da oposição. Esta crise é do Senado. A maioria aqui sempre predominou no seguinte sentido: o mesmo grupo domina o Senado há muitos anos. É multipartidário. Este grupo não elege muitos senadores, mas tem sempre muito apoio. Por isso José Agripino, que é do DEM, foi vencido há três, quatro anos, quando se candidatou contra este grupo. E agora o Tião Viana, do PT, que é o partido do presidente da República, foi vencido também. Isto prova que não é um problema de partido, mas do grupo que domina o Senado.
Isso significa que não há qualquer perspectiva de mudança.
Isso nos coloca na seguinte situação: apesar de o Conselho de Ética ter arquivado dezenas e dezenas de acusações, e outras que viraram representações, os fundamentos da crise permanecem. São reais e foram mantidos. Eu não acredito que na liderança do presidente Sarney isso vai mudar. Nem na liderança do grupo que o apoia vai haver mudança. Vão continuar os embates, vão continuar as denúncias e vão continuar o confronto e o desgaste do Senado por muito tempo.
Este grupo que deseja mudanças é maioria ou minoria?
Neste momento é minoria, mas uma minoria importante. Talvez uns vinte senadores.
Qual sua opinião em relação à suplência?
Sou a favor da existência da suplência, mas o suplente teria que ser escolhido pelo voto. Do jeito que está não pode ficar, muito embora existam suplentes de qualidade. Mas a parcela maior não tem qualidade.
O PSDB foi muito atingido pela crise?
Não, sinceramente acho que não. Fizemos um enfrentamento muito consciente. A gente não radicalizou. Pedimos o afastamento do presidente Sarney depois que a proposta estava colocada. Acho que vamos ganhar no final. O PT é que segurou o presidente Sarney no cargo.
O que se diz é que as oposições estão derrotadas eleitoralmente. Na sua opinião, ninguém derrotaria o presidente Lula, hoje?
Neste instante talvez não ganhasse. Mas o PT está derrotado. A candidata Dilma nem sei se será mesmo candidata. E se for, acho que nós temos muito mais chances de ganhar do que ela. A votação que ela apresenta hoje, nas pesquisas, indicam que o presidente Lula transfere muitos votos. Acho que ela é até negativa. Sozinha não tem votos.
Dentro do PT o senhor vê outro nome?
Para substituí-la, sinceramente que não. Ela é a líder deste governo. Os outros nomes do PT são municipais, ou no máximo estaduais, mas, mesmo assim, alguns já estão muito desgastados. Quem tem candidato demais somos nós: dois.
Na disputa dentro do PSDB o senhor e o restante da executiva têm posição neutra?
A executiva tem posição absolutamente neutra no episódio da disputa, com prévia ou sem prévia entre Aécio e José Serra.
Qual dos dois tem mais chances neste momento?
Acho que os dois têm. Neste momento Aécio tem mais potencialidade e o Serra mais intenção de voto. Vamos ganhar com qualquer um dos dois.
Esta disputa interna deixa sequelas?
Num determinado momento cheguei a pensar que sim. Hoje tenho certeza de que não. A nossa experiência mostra que, quanto mais a gente caminha, com um ou outro ou ainda com os dois juntos, mais fica claro que os dois estão a favor do partido.
Numa campanha eleitoral, o que diferencia os dois?
Como eu disse, Aécio tem mais potencialidade, Serra mais intenção de voto. Numa campanha, os dois têm patrimônio eleitoral. Os dois têm patrimônio administrativo, no sentido de que realizaram obras importantes. Um tem mais juventude, outro mais experiência. Eu não estou sendo mineiro, não. São realmente dois excepcionais candidatos. Aécio é muito bom na rua. O Serra tem se mostrado um político com imensa capacidade de ter estratégia. Os dois têm estilos bem diferentes, mas os resultados dos dois são suficientes para eles ganharem a eleição.
Para que lado vai o PMDB?
Não estamos discutindo o PMDB. Estamos discutindo o tempo de televisão do PMDB. Neste momento a tendência do tempo do PMDB é de ficar com o governo, mas tudo vai depender do que irá acontecer até a escolha dos candidatos. Na soma dos votos dos estados nos quais o PMDB caminhará conosco, é maior do que a soma dos estados onde o PMDB caminhará com eles.
Fala-se que José Serra já é o candidato.
Estão dizendo bobagem. Não tem nada fechado. Está tudo aberto ainda.
Por outro lado falam também que o governador Serra tem admitido
a hipótese de vir a disputar a re-eleição em São Paulo.
O governador Serra nunca falou disto comigo. Acho o contrário. Ele deseja ser candidato a presidente. Mas ele tem absoluta convicção de que se durante o processo, se não houver respeito integral entre os candidatos, nós não teremos nossa unidade. E sem unidade não ganhamos a eleição. Teremos que ter unidade entre o eleitorado de Minas e São Paulo.
Hoje quem tem mais chances dentro do partido? Não está ficando tarde para uma definição?
Eu acho que, eventualmente, talvez o governo Serra tenha alguma vantagem. Mas não quer dizer que daqui a um mês a situação permaneça a mesma. Agora eu não acho que está ficando tarde. Pessoalmente gostaria que a decisão ocorresse agora no segundo semestre.O Serra prefere que seja no ano que vem. O Aécio, eu não sei.
E o senhor é candidato em Pernambuco?
Eu sou candidato a senador. O candidato a governador é o Jarbas Vasconcelos, com o apoio do PSDB e de outros partidos.
O senhor não acha que há uma excessiva preocupação com a eleição do Executivo e quase nenhuma com a escolha do Legislativo?
Esta é uma distorção da sociedade brasileira. A nossa sociedade em geral, tem menos força do que deveria ter. Neste momento, em que o PT instrumentalizou quase todo o governo, aumentou esta distorção. O estado está forte demais e a sociedade com pouca capacidade de indignação. Uma das razões é que muitos movimentos sociais e sindicatos são dominados pelo PT e hoje estão dependurados no governo, em seus cargos, seus empregos. É uma luta dura, que marca a difererença entre a democracia e os não-democratas.
Por que os demais partidos não têm o comando de movimentos sociais?
Porque não cuidaram disto. O PT tem uma raiz sindical meritória, mas que foi distorcida por um movimento sindical dependente que o estado patrocina claramente como hoje se vê. Este processo de ocupação do estado por partido, como fala sempre o governador Aécio Neves, é dramático e grave, totalmente prejudicial às instituições.
O presidente Lula assumiu um discurso a favor de um estado mais intervencionista e até iniciou uma briga com a Vale, ameaçando pressionar pela mudança de diretoria. Este discurso é um retrocesso?
É um discurso anacrônico, já superado. Nós precisamos de regras boas, regulamentos sólidos, mas não do estado cuidando daquilo que não sabe fazer. As regras e os regulamentos devem ser poderosos, mas o governo está destruindo as agências reguladoras e os marcos regulatórios. É um governo estatizante. Eles nos acusam de querer privatizar a economia. Eles são estatizantes, mas ao mesmo tempo armam na sociedade econômica privilégios absolutamente desproporcionais e equivocados para vários setores privados que eles protegem. Esse discurso estatizante não pega mais no Brasil. Temos uma economia mais forte, mais complexa. Já passamos por isto. Além disso, o presidente Lula, apesar de um discurso estatizante, desenvolveu uma política que não estabelece regras para a sociedade econômica num sentido mais amplo e tem favorecido interesses privados como nenhum outro governo, em nenhum momento da história do Brasil fez. Este governo fez pela indústria automobilística o que nenhum outro governo fez. Este governo deu a alguns setores importantes, vantagens que até hoje eram desconhecidas. A Petrobras, por exemplo, é hoje um campo onde algumas empresas privadas crescem geometricamente e crescem numa relação que não é muito transparente e muito menos republicana.
O PSDB sofreu um grande desgaste com o poder. Hoje é o PT que enfrenta dificuldades mas, ao que parece, menores. O PT conseguiu fechar melhor a porteira e com isto segurou um pouco mais a entrada, no governo, de pessoas sem identidade com o partido?
O que aconteceu com o PSDB é que ele não soube capitalizar o que fez de bom, como o Real, a estabilidade, seus programas sociais. Aliás, como diz o governador Serra, o PSDB em matéria de comunicação é um naufrágio. O presidente Lula ao contrário, soube capitalizar bem e fixar um padrão, o que não conseguimos. Agora, o PT não fechou porteira não. Até abriu e muita gente saiu. Fizeram a agregação pelo mensalão. O presidente Lula quando assumiu, poderia ter feito a reforma política. Preferiu fazer o mensalão. O que é o mensalão? Pegaram dez caras do PSDB que não valiam muito a pena. Quinze do PMDB que também não serviam e uns vinte do DEM que também não eram gente boa e chamaram para o mensalão. Vem que aqui vocês vão levar vantagem e fizeram uma maioria que os sustenta no Congresso e que produziu todas as crises desde que o presidente Lula assumiu. Todas elas têm a mesma raiz que é o estado protegendo alguns de forma não republicana.