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Passos Cronometrados
Tudo na vida do vice-governador de Minas Gerais, Antonio Augusto Anastasia, parece meticulosamente planejado, sem atrasos, sem imprevistos, e com total discrição. Na agenda já consta o governo do estado, o qual assume no início de 2010
Texto: Silvânia Arriel | Fotos: Nélio Rodrigues
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 7h - O vice-governador faz aeróbico acompanhado pelo personal Fernando Ferreira
A vida parece que foi prescrita: tudo funciona como planejado, sem se desviar do prumo, numa rotina espartana. Disseram, caro leitor, que ia sair às 6h45. Não deu outra, no horário previsto, lá está ele dentro do seu carro para ir à academia de ginástica. “É só fazer a foto, senão atrapalha os outros”, logo avisa. Uma hora de musculação e aeróbica, desce ao estacionamento, sai dirigindo o carro, passa em frente à sede administrativa do Atlético, seu time do coração, escuta notícias, retorna a casa. Toma água de coco, vai para o banho, volta com terno e gravatas impecáveis. Às 8h45, fecha as persianas e a porta do apartamento, com nada fora do lugar: os inúmeros porta-retratos distribuídos em dois móveis, a cristaleira nada empoeirada cheia de biscuit, lembranças de suas viagens. Aí tem segurança, veículo oficial. Vai para o gabinete, lá protegido por 32 imagens de santos e começa a despachar, dá choque de cobrança por telefone em quem não atendeu sua determinação. De meia em meia hora, há reuniões, cronometradas, sem nem um minuto a mais. Ai dos prolixos, porque são cortados educadamente.
Os bastidores desta matéria você encontra no Blog da Redação.
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7h45 - Anastasia volta para casa |
Não é só agora, neste cargo. Sempre foi organizado, estudado, pensado. Nasceu sob a promessa da mãe Ilka Junho a Santo Antônio para que tivesse saúde: ficou com o nome Antonio e de quebra com o dom da leitura, de bom orador, só não é casamenteiro. Se Antônio, o santo, é conhecido como a arca do testamento, por saber tudo das escrituras, Antonio Augusto Anastasia, o vice-governador de Minas, se associa ao da gestão. Levou para o estado o jeito de vida desde que veio ao mundo. “Sempre fui muito organizado.” Nem precisa falar, vê-se. Azeitou a máquina, sobressaiu como gerente dessa engrenagem pública e agora se prepara para ser o número um no início de 2010, o governador de plantão por no mínimo nove meses, quando Aécio Neves se desincompatibiliza do cargo. Quem é ele afora o choque de gestão, de metas a serem cumpridas? Foi com essa incumbência, prezado leitor, que a revista seguiu seus passos por um dia, fez entrevista em outro, ouviu pessoas próximas para desenhar seu perfil, o do Antonio Augusto para os íntimos, o professor, como gosta de ser chamado.
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7h55 - O vice-governador toma água de coco |
Meta nada fácil de ser atingida pela discrição dele, o caçula da professora Ilka e do comerciante Dante Anastasia, e das pessoas próximas, que repetem ter sido o melhor aluno em todos os degraus da escola, da sua obsessão por organização, pontualidade. “Falar o quê do meu irmão”, esquiva-se Carla Maria Junho Anastasia, professora de história. De marcação e desmarcação de entrevista, acabou sem descrever esse belo-horizontino. Mas vamos lá, há quem fale. “Enquanto os outros iam brincar, ele estudava. O seu passatempo era enciclopédia”, lembra o arquiteto Bernardo Schor, colega do ensino fundamental e amigo até hoje. Cresceu assim. “Mas não era um nerd. Era agradável, boa-praça. O defeito é que não gostava de dar cola”, entrega a advogada Célia Barroso.
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8h40 - Anastasia mostra biscuits adquiridos nas viagens |
Participava das festas, programava campeonatos de pingue-pongue e sobrava tempo, naquela época, para praticar hipismo. Sempre liderava e não admitia perder. “Eu tinha mais destreza no pingue-pongue, ganhava e o Antonio ficava uma fera”, diz a advogada Luciana Raso, sua colega desde o ensino fundamental até a faculdade de Direito, que fez por sua influência. Também é organizada: mostra o convite da formatura em dezembro de 1983, o papel com o juramento afixados no álbum de fotografias. Continuam amigos, como os outros, com quem ainda mantém contato. Até faz parte da banda Os Intocáveis, que não toca nada. Anastasia é o do chocalho, Luciana, o triângulo e Célia, o teclado.
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8h42 - Olha os CDs favoritos |
Célia o conheceu na faculdade quando era candidata a secretária-geral do Centro Acadêmico Afonso Pena (Caap) e ele representante no colegiado, na chapa Cores Novas. Ganharam a eleição, firmaram o relacionamento e foram sócios de escritório de advocacia, no centro da cidade, onde havia três mesas compradas no leilão para seis pessoas. “A gente disputava os lugares”, lembra Célia. O escritório durou 10 anos e até hoje eles fazem festa de final do ano. “Mas o Antonio sempre teve o perfil de servidor público.” Associou o direito ao de funcionário de carreira da Fundação João Pinheiro. Foi professor, assessor da relatoria da Constitutinte Mineira, época em que se encontrou pela segunda vez com Paulo Paiva, presidente do Banco de Desenvolvimento de Minas (BDMG).
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8h45 - Anastasia sai de casa pontuamente |
Ele o viu pela primeira vez na defesa da Fundação de Desenvolvimento e Pesquisa da UFMG. “Fiquei impressionado, quem é este menino?”, diz Paiva. O menino cresceu com a constituinte e no governo de Hélio Garcia lá estava ele com Paulo Paiva, o novo secretário de Planejamento, numa dobradinha que foi parar no centro do poder, em Brasília, nos ministérios do Planejamento e do Trabalho.
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8h46 - Saindo de casa |
“Ô homem cheiroso!”, lembra Milton Steinbruch, ex-deputado e na época delegado do trabalho. Vê em Anastasia a pessoa que colocou o ministério em ordem, incapaz de falar nome feio, um gênio. Voltou a Belo Horizonte e logo já estava no programa do governador Aécio Neves, depois secretário de Planejamento, da Defesa Social, até ser candidato a vice-governador, o primeiro cargo eletivo, fora os da faculdade. Os amigos dizem que não mudou, é sempre o mesmo. Os que trabalham com ele, no anonimato, inflam a fama de ser duro nas cobranças de resultados. “Minha vontade é desafiar quem eu tenha dado bronca. Para mim, isto é quando grita, o que não faço. Eu ajo com firmeza, falo que está errado”, argumenta.
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9h - Despachando |
A sua volta tudo funciona. Nada de imprevistos: a agenda sempre lotada é cumprida à risca. Há dias que são atendidas 20 pessoas. Mais de 90 viagens só este ano. “O que mais me aborrece são os prolixos. É uma coisa pavorosa e são muitos. Pedem audiência e em vez de ir direto ao assunto, falam, falam. É desperdício de tempo.” Os servidores são cortados sem dó nem piedade, os de fora não. “Aí admito que a pessoa da comunidade fale mais.” A máquina precisa rodar, os contribuintes pagam tributos para resolver os problemas, não há espaço para susceptibilidades.
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10h - O vice-governador dá depoimento sobre os 20 anos da Constituição mineira à TV Assembleia |
É a profissionalização da administração pública, mas a fama ficou. “Ouvi falar que ele é bravo, exigente, mas comigo é tranquilo”, conta Fernando Ferreira, seu personal trainer há cinco anos. Lá, a situação se inverte, o vice-governador é que tem de obedecê-lo, cumprir metas. Só reclama da parte aeróbica, mas faz. “É todo certinho. Não falha, chega no horário, raramente muda os dias. É mais fácil eu faltar.” Encontra reforço no arquiteto Bernardo Schor, o colega do ensino fundamental. “Pessoalmente, o Antonio é doce, extremamente generoso, compreensivo.” Mantiveram a amizade, mesmo com sua mudança para o Rio de Janeiro em 1976. Quando um vai à cidade do outro, não fica em hotel, mas na casa do amigo. “Ele é sistemático, não gosta de bagunça. O apartamento é superlimpo, faz parte de sua personalidade.”
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11h - Anastasia recebe representantes da Polícia Federal |
Nada fora do lugar. A cristaleira com as lembranças ajuntadas de 20 anos de viagens pelo mundo, um dos passatempos do vice-governador, aliado à leitura e ao cinema. A primeira foi de Veneza, Itália. “Este ano, fui ao Havaí, durante uma semana, e fiquei especialista em monarquia havaiana. Visitei o palácio, pesquisei”, diz. A história apareceu mais alta que as ondas. Sempre gostou desta matéria, das biografias. Agora, está na hora de voltar ao cargo, à expectativa de assumir a administração do estado.
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12h05 - Discursa durante almoço com empresários |
“Vou levar o governo até o final, no mesmo ritmo, nas mesmas condições, nas mesmas diretrizes que Aécio Neves administrou nestes sete anos”, diz. Nessa toada, o leitor pode perguntar se ele é candidato, tão cogitado como o plano A de Aécio para sua sucessão. A resposta é que tudo vai depender do partido, das circunstâncias. “O sonho de ser governador, se houver, vai estar realizado com estes nove meses. O que há são especulações prévias.” Mas ele continua a viajar Minas a dentro, a mexer as peças do jogo, a se traduzir em gerente da administração pública.
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19h11 - Recebe quadro assinado por Camaleão, de Mariana |
Só na administração
Confira a linha do tempo traçada por Antonio Augusto Anastasia no serviço público
- 1983 – Forma em direito no final do ano - 1985 – Passa no concurso para a Fundação João Pinheiro e é servidor de carreira do estado - 1988 e 89 – É assessor do relator da 4ª assembleia constituinte mineira, deputado Bonifácio Andrada - 1990 – Colabora com o programa de governo de Hélio Garcia - 1991 a 1994 – É secretário-adjunto de Estado de Planejamento e Coordenação Geral, presidente da Fundação João Pinheiro. No final do governo Hélio Garcia, assume a Secretaria de Cultura e de Recursos Humanos e Administração - 1993 – É aprovado no concurso para professor de direito administrativo da UFMG - 1995 a 1999 – Assume o cargo de secretário-executivo do Ministério do Trabalho, no governo Fernando Henrique Cardoso - 1999 – Torna-se secretário-executivo do Ministério da Justiça - 2001 – Volta para Belo Horizonte, reassume as aulas na Faculdade de Direito e a advocacia. É chamado a coordenar o programa de governo do candidato Aécio Neves e depois de eleito, passa a liderar a equipe de transição - 2002 – É novo secretário de Estado da Administração - 2005 – Acumula a função de secretário de Estado de Defesa Social - 2006 – É chamado a ser vice na chapa do candidato à re-eleição Aécio Neves - 2007 – Toma posse como vice-governador - 2010 – Deve assumir em abril o cargo de governador
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Manias Anastasianas
- Não atrasa nem muda compromissos - Corta cabelo de 15 em 15 dias, de preferências às quintas-feiras - Quando faz jantar em casa, coloca o nome do convidado no lugar em que vai assentar - A placa do carro é o ano do seu aniversário - Possui várias imagens de santos. A que sobressai é de santo Antônio - Acha defeito as pessoas prolixas e lenientes
Confira o vídeo desta matéria.
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