Quarta, 23 de Abril de 2014
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Reportagem

Dois dias na tribo

Num final de semana de junho a Viver Brasil fez um programa de índio e viu de perto a luta dos pataxós para manter viva sua cultura e rituais em tempos de telefonia móvel e internet

Texto: Eliana Fonseca | Fotos: Pedro Vilela


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Índios em dança secular

A transformação é quase imediata: as camisetas e shorts comuns dão lugar a saias de fibras de coco e os acessórios como os cocares, pinturas no rosto, cachimbo com ervas, brinco com penas coloridas, enfatizam ainda mais o perfil marcante dos índios pataxós. Para completar, uma grande fogueira, acesa horas antes, e a temperatura de 12º, dão o tom diferente à noite de lua cheia. Assim que cerca de 30 índios começam uma dança e cantos quase em transe, a impressão que se tem é que o tempo não passou para os pataxós. O ritual poderia estar acontecen­do em qualquer época nos últimos 500 anos tamanha a sintonia com suas crenças e cultura. Porém, a modernidade elimina as fronteiras, até mesmo na terra dos pataxós. Alguém precisa falar com outro alguém e não pode esperar.  Um toque de celular insistente destoa daquele ambiente. A luz azul pisca diversas vezes na cintura de um pataxó. Ele sai da roda para atender à chamada.

Num final de semana de junho, a reportagem da Viver Brasil esteve na aldeia Imbiruçu, na cidade de Carmésia, a 173 km de BH, no Vale do Aço. Os pataxós in­tegram os 10 povos indígenas que atualmente habitam Minas Gerais. No total, são 14,5 mil índios. Os de Carmésia vivem numa área de 3.270 hecta­res, localizada na fazenda Guarani, e estão divididos em quatro aldeias – Im­biruçu, Retirinho, Al­to das Posses e Sede. Têm a mesma ori­gem. Os pais eram de Barra Velha, interior da Bahia, de onde vieram de­pois de um massacre ocorrido no local. Che­ga­ram a Mi­nas no início dos anos 70. De um lado não podem fugir da moder­nidade com seus celulares, notebooks, comunicação, carros. Do outro, a luta é pa­ra preservar a tradição secular e não deixar morrer sua língua, rituais, cultu­ra.

Os bastidores desta matéria você encontra no Blog da Redação.


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O vice-cacique Sõi
O vice-cacique Sõi
Em Imbiruçu, os pataxós ainda chamam suas casas de ocas, mas essas moradias, para quem está de fora, estão cada vez mais parecidas com as casas dos não-índios, feitas de cimento, tijolos, janelas. A energia elétrica também trouxe a geladeira, o chuveiro, a televisão, outros eletrodomésticos. Minutos depois do ritual, as TVs ligadas por toda a aldeia faziam eco com informações sobre as últimas notícias do desaparecimento do Airbus, da Air France. Até mesmo a velha rotina de tantas outras casas brasileiras também se estabelece de segunda a sábado para a matriarca da aldeia, Hemúgây Pataxó, ou dona Rosa. No momento da novela das 8h da noite, os 43 netos e dez filhos não insistem em conversas. Podem levar bronca. “As pessoas ainda têm uma visão antiga dos índios, como se tivéssemos ficado parados no tempo primitivo”, afirma Uru, batizado na língua dos brancos como Ronaldo. Para os pataxós da aldeia Imbiruçu não há paradoxo. Arcaico, contemporâneo. Tudo se mistura num estilo de vida ao mesmo tempo muito próximo e em outros muito distante da realidade de quem não é índio.
Jandaia na sala de aula
Jandaia na sala de aula

Há espaço ainda para as mesmíssimas atividades dos antepassados – o cultivo de milho, mandioca, feijão, acender uma fogueira, fazer a farinha, a produção de bijuterias com sementes, o noivo carregar uma pedra do mesmo peso da noiva no dia do casamento. Não há luxos na aldeia. Pelo contrário, as casas inacabadas por vezes estão sem janelas e portas. Em outras vezes são feitas de pau-a-pique. O grande diferencial que torna os pataxós também cosmopolitas é a forma como encaram o mundo, sua educação, a preocupação e a solidariedade com as outras etnias. Os pataxós de Carmésia comem o que plantam, têm terras, um bom nível de nutrição. Mas caciques e representantes das aldeias se uniram, no mês de maio, a outros povos indígenas para percorrer 10 aldeias em Minas Gerais. É um estudo inédito para levantar os hábitos alimentares dessa população, saber quem não tem nada para comer, os que não têm terra. Assim saberão da situação dos maxacali, dos krenak, dos kaxixó, dos aranã, dos pankararu, do xukuru-kariri, dos mukurim, dos pataxós hãhãhãe. Alguns deles sofrem com o empobrecimento, outros lutam pela demarcação de suas terras, por melhores condições de vida, pela criação de uma reserva indígena.

Vão transformar todas essas informações em propostas de uma política para a população indígena. O resultado deverá ser entregue ao gover­no do estado em outubro, quando a­contece a Festa das Águas, importante data para os pataxós. “Fizemos um diagnóstico parecido há 10 anos. Que­remos ver o que melhorou e o que não está tão bom para, a partir daí, dis­cutirmos um projeto de autossustentação dos povos indígenas”, diz o ca­cique Baiara, da aldeia Alto das Pos­ses.

Criança da aldeia Imbiruçu: aprendizado da língua pataxó
Criança da aldeia Imbiruçu: aprendizado da língua pataxó
A educação também é outro grande diferencial. No sábado da reportagem, cerca de 30 índios estavam numa quadra de futebol de salão comum às quatro aldeias para debater quais seriam os representantes na Conferência Estadual de Educação Indígena, marcada para o início de julho em Belo Horizonte. “Queremos a federalização da educação indígena”, afirma Akã Pataxó, 26, da aldeia Sede. Atualmente, a educação é estadualizada. Para passar ao âmbito federal, depende de uma emenda constitucional. A luta por uma educação diferenciada é antiga para os pataxós. Há mais de dez anos, começou com a valorização dos conhecimentos dos índios mais velhos, depositários da cultura e da história indígena. Caso vençam a batalha pela federalização, os índios do país passariam a contar com órgão federal exclusivo para a educação indígena, com recursos próprios, nova didática. “A proposta é uma educação que leve em conta os nossos costumes, rituais, o conhecimento de plantas medicinais,” avisa o articulado cacique Txonãg que demonstra uma experiência muito além dos seus 28 anos.
Cacique Txonãg durante ritual de batismo
Cacique Txonãg durante ritual de batismo

O cacique explica algumas regras básicas de convivência: evangélicos, por exemplo, podem visitar a aldeia, mas não podem tentar converter nenhum índio à sua religião. Casamentos são realizados, preferencialmente, entre índios como forma de não enfraquecer a cultura. A diversão, no caso de Txonãg, é ficar entre os seus. Sistemático, prefere ficar em Imbiruçu a frequentar as festas no centro de Carmésia. “Te­mos boa convivência com a população, nos apresentamos em escolas, mas não gosto de festas, nem de bebidas”, finaliza.

A tribo segue o cacique, à exceção da mãe dele, Hemúgây, que não perde uma festa. É interessante perceber que são poucos os pataxós que saem na noite de Carmésia. A cidade é pequena, são cerca de 2,2 mil moradores, com poucos lugares para diversão. Mas, talvez o que impeça mes­­mo as saídas noturnas seja o fato de a população de solteiros ser minúscula na aldeia. A impressão é que todos os jovens estão casados. “Os ca­samentos aqui acontecem cedo. Se­guem a nossa tradição”, explica Hemúgây.

Índia pataxó: pintura para ritual
Índia pataxó: pintura para ritual

Foi assim que aconteceu com Jandaia Pataxó, 37, nora de He­múgây: ela se casou aos 13 anos, teve seis filhos e agora já é avó de duas crianças. Ninguém contesta seu destino ou sua cultura. Jandaia, por exemplo, diz que sempre quis ser dona de casa. Tudo mudou quando começou a ter percepção de como as  lideranças mais antigas lutavam por uma escola diferenciada para seu povo. “Nesta época não tinha estudo nenhum, mas então surgiu o desejo, em minha comunidade, de que eu fosse educadora infantil porque lidava bem com as crianças. Aceitei. Queria ensinar nossa cultura e também tudo o que os velhos da minha aldeia haviam nos ensinado”, conta. Hoje é uma professora remunerada pelo estado para ensinar as crianças de Imbiruçu e faz licenciatura indígena na Universidade Federal de Minas Gerais.

Um dos grandes desafios é o ensinamento da língua-mãe pataxó para as crianças. Jandaia afirma que não há uma pessoa mais velha na aldeia que fale a língua nativa. O ensinamento das palavras e sons é feito de forma lúdica: ela desenha no quadro da escola animais, plantas, instrumentos, enquanto as crianças se apressam em dizer o nome em pataxó. O grande desafio é que eles formem frases, dialoguem na língua-mãe. A escola é ao ar livre, numa estrutura semelhante a uma oca, com telhado de folhas de palmeiras e carteiras. O piso é de terra. “É preciso que nossas crianças aprendam a falar nossa língua, para que nosso idioma seja revitalizado”, diz.

Nayá Pataxó, 11, é filha de Jan­daia. Ela não sabe qual profissão irá escolher quando adulta, mas a intenção é permanecer na aldeia. “Que­­ro ajudar a minha comunidade”, diz a menina. Apesar de gostar da cultura de seu povo, ela não abre mão da cultura não índígena. Seus cantores prediletos são Eduardo Costa e o grupo Raça Negra. Hemúgây, sua avó, é uma das pessoas mais velhas da aldeia. Tem 57 anos. É a benzedeira de Imbiruçu, já que o espírito da natureza, segundo o cacique, ainda não escolheu o novo pajé da tribo. O antigo líder espiritual morreu em 2003. Hemúgây é também parteira, mas nos últimos tempos só fez dois partos na aldeia. “A maioria prefere o hospital”, diz. O mesmo acontece em casos de doença. As ervas, tão comuns nos antigos tratamentos, agora são apenas para um mal-estar leve.


 
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