Segunda, 21 de Maio de 2012
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Política

Casa dos horrores

Sabe qual a pauta em discussão no Senado nas últimas semanas? A da falta de vergonha na cara de alguns parlamentares

Texto: Iracema Barreto | Fotos: Fotomontagem: Paulo Werner sobre fotos de Nélio Rodrigues e Nelson Marins - Celso Junior/AE - Fábio


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“O senhor me diagnostica como precisando de psiquiatra. Vossa Excelência está na vida pública, mas revela uma vocação para medicina invejável”
Arthur Virgílio, líder do PSDB no Senado, ironizando Renan Calheiros

“Eu até gosto de Vossa Excelência. Eu só lamento que o esporte de Vossa Excelência nos últimos 35 anos seja falar mal de Sarney”
Renan Calheiros, criticando Pedro Simon, que havia pedido a renúncia de Sarney

“O dedo sujo, infelizmente, é o de Vossa Excelência, são os dedos dos jatinhos que o Senado pagou”
Renan Calheiros, retrucando Jereissati, em referência à denúncia de que o senador tucano usou parte de sua verba de passagens para fretar jatinhos

“Pelo menos, era com o meu dinheiro, o jato é meu. Não é do que o senhor anda, dos seus empreiteiros”
Treplicou Tasso Jereissati

“São palavras que eu quero que o senhor as engula e as digira como achar conveniente”
Fernando Collor, atacando Pedro Simon, que havia feito referências a uma aliança de conveniência entre Collor e Renan Calheiros

“Senador Renan, não aponte esse dedo sujo para cima de mim. Estou cansado de suas ameaças”
Tasso Jereissati, no bate-boca com Renan Calheiros


Os senadores José Sarney, Renan Calheiros, Fernando Collor e Tasso Jereissati protagonizaram bate-bocas no Senado: vergonha nacional
Os senadores José Sarney, Renan Calheiros, Fernando Collor e Tasso Jereissati protagonizaram bate-bocas no Senado: vergonha nacional

A lista de escândalos exposta nos últimos seis meses, por si só, já seria suficiente para deixar envergonhados até mesmo os brasileiros que se acreditam imunes à política. Porém, não bastasse a bandalheira evidenciada pelas denúncias de nepotismo terceirizado, nomeações secretas de parentes, uso indevido de dinheiro público, tráfico de influência e fraude, a crise no Senado ganhou contornos ainda mais sombrios. A baixaria, a troca de insultos entre os parlamentares – com direito a palavrões – foi transmitida pela TV e ganhou também as capas de jornais e revistas.

Esse triste cenário começou a se desenhar na segunda-feira, 3 de agosto, na primeira sessão de trabalho do Senado após o recesso de julho. Tentando emergir da crise como homem de comando da Casa, Sarney abriu a sessão anunciando que, dos 663 atos administrativos e­di­tados secretamente nos últimos 14 anos no Senado, apenas 151 fo­ram considerados válidos. Os demais, anulados. Nem bem saiu do ple­nário, no entanto, o tempo fechou.

O senador Pedro Simon (PMDB-RS) fez um discurso pedindo a renúncia de Sarney. O líder do partido na Casa, Renan Calheiros (AL), que encabeça a chamada tropa de choque arregimentada para tentar salvar o pescoço de Sarney, reagiu. “Eu só lamento que o esporte de Vossa Excelência nos últimos 35 anos seja falar mal de Sarney”, provocou Calheiros, que ainda acusou o colega de partido de ter se voltado contra Sarney quando o atual presidente do Senado foi escolhido para ser vice na chapa de Tancredo Neves durante a transição da ditadura militar para a democracia.

“Você está inventando. É mentira”, rebateu Simon, que acusou Calheiros de mudar de posição conforme seus interesses políticos e de ter abandonado o atual senador Fernando Collor, por ocasião do impeachment, por conveniência. Foi a deixa para que o ex-presidente da República entrasse no bate-boca. No velho estilo bateu-levou, nada apropriado para um representante do povo, mas que foi uma de suas marcas na Presidência, Collor atacou Simon. “São palavras que eu quero que o senhor as engula e as digira como achar conveniente”, disse um Collor exaltado, olhos esbugalhados, ameaçador, prometendo, se necessário, revelar “alguns momentos extremamente incômodos” da trajetória de Simon.

No dia seguinte, o senador gaúcho confessou-se assustado com o olhar transtornado de Collor. O alagoano, no entanto, continuou descontrolado. Ao ser questionado sobre o que achava da possibilidade de Simon entrar com uma representação contra ele na Corregedoria do Senado, o ex-caçador de marajás deixou a frase incompleta, mas mandou seu recado: “Ah, manda ele....”

O que já estava ruim ficou ainda pior na quinta-feira, dia 6, quando Tasso Jereissati (CE) e Renan Calheiros se acusaram de dedo em riste e foram apartados por seguranças. Trataram-se, respectivamente, por “cangaceiro de terceira categoria” e “coronelzinho de m...”. “A instituição tem sido vítima de uma disputa de interesses pessoais e da vaidade de alguns senadores que se colocam acima das verdadeiras funções daquela Casa legislativa”, avalia o historiador Ricardo Barros. “Triste situação para o Senado brasileiro, que nasceu com uma origem tão nobre na época do Império, e que hoje se vê envolvido numa situação tão atroz”, emendou. E os próximos capítulos de diálogos tão produtivos para a nação não devem acabar por aí. Como uma novela de tremendo mau gosto, as trocas de farpas devem continuar a fazer parte da pauta (sem vergonha) do Senado.

 
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