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CapaTudo por dinheiroEles vendem o corpo para ganhar a vida. Muitos se dizem heterossexuais. Mas topam tudo. Conheça as histórias de quatro garotos que têm o sexo como fonte de renda
Texto: Nayara Menezes | Fotos: Nélio Rodrigues
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O primeiro, assim como a maioria dos programas, foi com outro homem. “Se fizer só com mulher, morre de fome. Mas só sou ativo”, avisa, fazendo questão de afirmar a masculinidade. “Faço pelo dinheiro. Gosto mesmo é de mulher. Tenho namorada”, repete. Para ter ereção com os clientes, recorre aos comprimidos azuis. “Sem eles, não tem jeito.” Pela pouca idade, o garoto é bastante procurado. Faz em média três programas por dia. Todos à base de estimulantes. “Já passei mal uma vez, mas tenho que usar, senão não consigo trabalhar.” Se ele pensa em mudar de atividade? “Onde vou ganhar esse mesmo dinheiro, sem estudo?”, diz após contar que já faturou 1,6 mil reais num único dia. Rafael Moura*, 26, foi mais um dos que se deixou levar pelo retorno financeiro. Saiu do interior e começou a fazer programas aos 20 anos. Mas, desde o princípio, não se adaptou bem à profissão. “O primeiro programa foi horrível. Era um homem casado mais velho, me lembrava meu pai”, relata o garoto, que se recorda ainda hoje do nome desse cliente. Apesar do trauma inicial, ele continuou na vida. Para se acostumar com o ofício, entrou por um caminho comum entre eles – as drogas. Todo dinheiro que ganhava, cheirava. Chegou a largar a vida por três anos, quando arranjou emprego convencional. “Fui trabalhar como assistente administrativo.” Mas um convite para ir à Europa fez com que voltasse para o ramo. “Cada programa lá custava 100 euros. Ganhei muito. Cheguei a fazer 20 programas num único dia.” Para aguentar o ritmo, muitas pílulas azuis. Mas o destino foi mais generoso com o rapaz. Rafael tirou a sorte grande, almejada por muitos nesse ramo. Conheceu um cliente que passou a bancá-lo. “É um padre italiano. Precisa de maior discrição. Gostou de mim e pagou pela exclusividade”, relata. O garoto viajou pela Europa com o “amigo”, como o chama. De presente, ganhou um apartamento na zona sul de São Paulo. Ainda hoje, o amigo italiano manda boa quantia por mês para o michê. Há oito meses, Rafael conheceu Erick, também garoto de programa. Em nome do namoro, pararam de fazer programa. Hoje moram e trabalham juntos num banco. Ganham correspondente a 10 dias de programa. Mas Rafael diz que está feliz. O uso contínuo de drogas, bebida e estimulantes causou danos à sua saúde. Desenvolveu síndrome do pânico. Se voltaria para a vida? “A gente não sabe o dia de amanhã. Se precisar, volto. Mas não é o que quero. Não valeu a pena. Ganhei dinheiro, mas perdi minha saúde.” E o movimento continua nas ruas, internet, classificados e catálogos. Enquanto houver demanda, haverá oferta. À venda corpos sarados e realização de fantasias e desejos obscuros. Nesse mundo da busca pelo prazer sem limite, tudo tem seu preço. * Nomes artísticos ou fictícios Para conferir o vídeo desta matéria, clique aqui. |
Garotos de RuaNas ruas de São Paulo há vários pontos espalhados pela cidade. O taxista Pedro*, que confessou ser agenciador de garotos e garotas, nos levou a alguns deles. O funcionamento é basicamente o mesmo que nos pontos de garotas. Os carros param, abordam, apreçam. Se há interesse, seguem para o programa. Em um dos bairros mais nobres da capital paulista, no Jardins, há uma praça onde descobrimos ser ponto fixo de alguns garotos. Ao chegarmos, avistamos Leandro. Moreno bonito, bem vestido. Se não fosse a indicação do taxista, jamais imaginaria ser um deles. O valor do programa, 150 reais. A clientela também segue a linha geral. “Cerca de 85% são homens”, conta Leandro. Ele é mais um que se diz heterossexual e afirma que só faz programa pelo dinheiro. Fatura cerca de 6 mil reais por mês trabalhando de quarta a domingo. Diferentemente da maioria, ele cursa faculdade. Tem bom papo. Os atributos lhe permitem clientela mais refinada. Leandro afirma que já atendeu muitos famosos. “Artistas, músicos, jogadores de futebol.” Do outro lado da praça fica Marcelo, 35 anos. Não é tão receptivo quanto Leandro. Nem tão bonito. Entre uma abordagem e outra, ele topa conversar um pouco. Conta que está na vida há 16 anos e só faz programa ali. “No site é muita exposição. Não posso, tenho duas filhas.” É divorciado. A ex-mulher sabe da profissão. “Nos conhecemos aqui. Ela fazia programa com o marido. Ele morreu e nós nos casamos depois.” Quando pedimos para tirar uma foto... “Até faço, mas tem que pagar o valor do programa. Aqui sou uma mercadoria. Pagou, levou.” |
Clientela- 85% homens, na faixa dos 35 a 50 anos. A maioria se diz casada; Fonte: Garotos entrevistados Bastidores - “Muitos querem usar droga durante o programa. Eu não uso, mas deixo que eles usem. Alguns nem dão conta de fazer o programa. Outros ficam agressivos, violentos.” Fonte: Depoimentos colhidos durante a produção da matéria |