Segunda, 21 de Maio de 2012
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Tudo por dinheiro

Eles vendem o corpo para ganhar a vida. Muitos se dizem heterossexuais. Mas topam tudo. Conheça as histórias de quatro garotos que têm o sexo como fonte de renda

Texto: Nayara Menezes | Fotos: Nélio Rodrigues


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Rafael Moura conta os euros ganhados pelo cliente especial que pagou pela exclusividade

Como produtos em prateleiras, eles se expõem. Na rede mundial de computadores propagandeiam seus dotes como troféus. Em catálogos de hotéis estrelados se revelam em fotos, medidas e garantem discrição. Nos anúncios da seção de classificados de jornais, proprometem o prazer sem fim. Nas ruas das grandes cidades, marcam presença em pontos estratégicos, promovem um sutil zigue-zague, como a esperar por amigos ou namorada. Mas aguardam clientes. Clientes ávidos por satisfazer as mais íntimas fantasias. A Viver Brasil foi às ruas de São Paulo com a missão de contar as histórias de alguns amantes profissionais. Saber dessa vida nada fácil, da proximidade com o mundo de violência e drogas. Quatro garotos de programa aceitaram falar e abriram o jogo. Bastidores da profissão, como começaram, perfil predominante de clientes e do que ganharam e perderam ao entrar para essa vida.

Dois garotos toparam atender a reportagem em suas casas no final de semana. Justamente na sexta e no sábado quando eles faturam mais. Resultado: dois bolos seguidos. Os garotos arranjaram programa mais lucrativo. Fomos salvos por Pedro*, taxista que nos levava de volta ao hotel. Ele, que trabalha na noite há 10 anos, contou que conhecia alguns rapazes com o perfil que procurávamos. Prontificou-se a ajudar a conseguir alguns personagens. No dia seguinte, seguimos com o taxista rumo ao primeiro entrevistado – Bruno Stygmata* .

Com 27 anos, moreno, alto, bonito, e com um belo par de olhos verdes, ele nos recebeu em seu pequeno apartamento na zona sul paulista. Está na vida há 7 anos. Apesar disso, ainda não conseguiu acumular bens. “O dinheiro que vem fácil, vai fácil.” O gasto com roupas e baladas é alto. O preço do programa segue a média: 150 reais a hora. Reclama da baixa procura. Atribui ao excesso de meninos na rua. “Tem muita carne nova no pedaço. A gente que tá na área há mais tempo perdeu espaço.”

Para driblar a crise, Bruno investe em outro nicho – os filmes pornôs. Recentemente ganhou o troféu de melhor ator pornô ativo. “Paga-se melhor, 300 reais por cena.” Sem contar que os filmes têm roteiro definido, diferentemente dos programas. “Todos os dias que saio, rezo. Graças a Deus nunca me aconteceu nada. Mas sei que não estou livre.” Medo? “Um pouco, mas toda profissão tem seus riscos”, argumenta. Nos programas, ele conta, rola de tudo. Tem cliente que quer só sexo. Outros desejam realizar fantasias secretas. “Há homens que querem ver a gente transando com as esposas. Outros gostam que elas os vejam com outro. E há até os que pagam só pra conversar,” conta.

Bruno é o retrato da maioria dos garotos de programa. De origem humilde, veio do interior de São Paulo para tentar ganhar a vida na cidade grande. Não estudou. Acabou seduzido pela oportunidade de vender o próprio corpo. A história de David D´Luca*, 21, é bem parecida. E a motivação para vender o corpo também. “O dinheiro é um vício”, resume. Pernambucano, ele parou de estudar na quinta série do ensino fundamental. Os pais são analfabetos e moram em uma pequena cidade do interior nordestino. Saiu de casa aos 15 anos sonhando em traçar um destino diferente. “Queria ser jogador de futebol. Ganhar muito dinheiro.” Não deu. Para se virar, fez de tudo um pouco. Trabalhou como ajudante de marceneiro, vendedor, copeiro, empacotador. O salário mais alto  foi de 814 reais. Quando trabalhava como garçom conheceu um amigo que fazia programa. “Ele sempre me oferecia trabalho, mas eu ficava meio cismado.” Um dia, David resolveu aceitar. Não parou mais.

Os bastidores dessa matéria você encontra no Blog da Redação.


Bruno Stygmata: programas agendados por telefone e a exigência de preservativo
Bruno Stygmata: programas agendados por telefone e a exigência de preservativo

O primeiro, assim como a maioria dos programas, foi com outro homem. “Se fizer só com mulher, morre de fome. Mas só sou ativo”, avisa, fazendo questão de afirmar a masculinidade. “Faço pelo dinheiro. Gosto mesmo é de mulher. Tenho namorada”, repete. Para ter ereção com os clientes, recorre aos comprimidos azuis. “Sem eles, não tem jeito.” Pela pouca idade, o garoto é bastante procurado. Faz em média três programas por dia. Todos à base de estimulantes. “Já passei mal uma vez, mas tenho que usar, senão não consigo trabalhar.” Se ele pensa em mudar de atividade? “Onde vou ganhar esse mesmo dinheiro, sem estudo?”, diz após contar que já faturou 1,6 mil reais num único dia.

Rafael Moura*, 26, foi mais um dos que se deixou levar pelo retorno financeiro. Saiu do interior e começou a fazer programas aos 20 anos. Mas, desde o princípio, não se adaptou bem à profissão. “O primeiro programa foi horrível. Era um homem casado mais velho, me lembrava meu pai”, relata o garoto, que se recorda ainda hoje do nome desse cliente. Apesar do trauma inicial, ele continuou na vida. Para se acostumar com o ofício, entrou por um caminho comum entre eles – as drogas. Todo dinheiro que ganhava, cheirava. Chegou a largar a vida por três anos, quando arranjou emprego convencional. “Fui trabalhar como assistente administrativo.” Mas um convite para ir à Europa fez com que voltasse para o ramo. “Cada programa lá custava 100 euros. Ganhei muito. Cheguei a fazer 20 programas num único dia.” Para aguentar o ritmo, muitas pílulas azuis.

Mas o destino foi mais generoso com o rapaz. Rafael tirou a sorte grande, almejada por muitos nesse ramo. Conheceu um cliente que passou a bancá-lo. “É um padre italiano. Precisa de maior discrição. Gostou de mim e pagou pela exclusividade”, relata. O garoto viajou pela Europa com o “amigo”, como o chama. De presente, ganhou um apartamento na zona sul de São Paulo. Ainda hoje, o amigo italiano manda boa quantia por mês para o michê. Há oito meses, Rafael conheceu Erick, também garoto de programa. Em nome do namoro, pararam de fazer programa. Hoje moram e trabalham juntos num banco. Ganham correspondente a 10 dias de programa. Mas Rafael diz que está feliz. O uso contínuo de drogas, bebida e estimulantes causou da­nos à sua saúde. Desenvolveu síndrome do pânico. Se voltaria para a vida? “A gente não sabe o dia de amanhã. Se precisar, volto. Mas não é o que quero. Não valeu a pena. Ganhei dinheiro, mas perdi minha saúde.” E o movimento continua nas ruas, internet, classificados e catálogos. Enquanto houver demanda, haverá oferta. À venda corpos sarados e realização de fantasias e desejos obscuros. Nesse mundo da busca pelo prazer sem limite, tudo tem seu preço.

* Nomes artísticos ou fictícios

Para conferir o vídeo desta matéria, clique aqui.

Leandro faz ponto numa praça em região nobre da capital paulista
Leandro faz ponto numa praça em região nobre da capital paulista

Garotos de Rua

Nas ruas de São Paulo há vários pontos espalhados pela cidade. O taxista Pedro*, que confessou ser agenciador de garotos e garotas, nos levou a alguns deles. O funcionamento é basicamente o mesmo que nos pontos de garotas. Os carros param, abordam, apreçam. Se há interesse, seguem para o programa. Em um dos bairros mais nobres da capital paulista, no Jardins, há uma praça onde descobrimos ser ponto fixo de alguns garotos. Ao chegarmos, avistamos Leandro. Moreno bonito, bem vestido. Se não fosse a indicação do taxista, jamais imaginaria ser um deles. O valor do programa, 150 reais. A clientela também segue a linha geral. “Cerca de 85% são homens”, conta Leandro. Ele é mais um que se diz heterossexual e afirma que só faz programa pelo dinheiro. Fatura cerca de 6 mil reais por mês trabalhando de quarta a domingo. Diferentemente da maioria, ele cursa faculdade. Tem bom papo. Os atributos lhe permitem clientela mais refinada. Leandro afirma que já atendeu muitos famosos. “Artistas, músicos, jogadores de futebol.”

Do outro lado da praça fica Marcelo, 35 anos. Não é tão receptivo quanto Leandro. Nem tão bonito. Entre uma abordagem e outra, ele topa conversar um pouco. Conta que está na vida há 16 anos e só faz programa ali. “No site é muita exposição. Não posso, tenho duas filhas.” É divorciado. A ex-mulher sabe da profissão. “Nos conhecemos aqui. Ela fazia programa com o marido. Ele morreu e nós nos casamos depois.” Quando pedimos para tirar uma foto... “Até faço, mas tem que pagar o valor do programa. Aqui sou uma mercadoria. Pagou, levou.” 

David D’ Luca: “Gosto de mulher. Mas por dinheiro faço com eles também”
David D’ Luca: “Gosto de mulher. Mas por dinheiro faço com eles também”

Clientela

- 85%  homens, na faixa dos 35 a 50 anos. A maioria se diz casada;
- 10% mulheres de idade variada; a maior parte acima dos 40 anos;
- 5% casais que querem apimentar a relação

Fonte: Garotos entrevistados

Bastidores

- “Muitos querem usar droga durante o programa. Eu não uso, mas deixo que eles usem. Alguns nem dão conta de fazer o programa. Outros ficam agressivos, violentos.”
- “Tem muitos clientes que oferecem pagar mais para fazer sem camisinha. Mas não topo. É minha saúde que está em jogo.”
- “Se querem que a gente goze tem que pagar mais, porque atrapalha o desempenho para o próximo programa.”

Fonte: Depoimentos colhidos durante a produção da matéria


 
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