Sexta, 24 de Maio de 2013
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Artigo

Malditas alianças

Lula convalidou práticas que queríamos ver banidas da política, como a corrupção e o compadrio. Tudo em nome da governabilidade...

Texto: Paulo Cesar de Oliveira
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Paulo Cesar de Oliveira -

Se você olhar de longe, parece uma bola. Mas se você olhar de perto, com cuidado, verá que, na verdade, é um quadrado. É assim a política brasileira. Quem vê o presidente Lula falastrão, senhor de si, pensa que ele está sem amarras, no pleno exercício de sua liderança política. Esta não é, no entanto, a realidade dos fatos.

Desde que transformou em obsessão, em desafio pessoal, a ideia, até natural, de fazer seu sucessor, Lula tornou-se refém dos partidos de sua base de apoio, muito especialmente do PMDB. Liderança mesmo, só exerce sobre o PT, seu partido de origem. Assim mesmo com mãos de ferro, submetendo sua bancada a toda sorte de concessões.

Tudo isto, inclusive o esmagamento do partido que criou, Lula faz em nome de um projeto de poder, que passa pela chamada governabilidade agora, para desembocar, daqui a um ano, na campanha sucessória. Para governar agora, Lula cede, sem demonstrar que está cedendo, abrindo espaços para bons, mas na maioria maus políticos que, como é de tradição, não se importam de serem xingados, desde que recebam o valor da fatura.

O que preocupa é o fato de que, o que está ruim agora, ficará pior depois. Se até Lula, do alto de seus 80% de aprovação popular tem que ceder, negociar, pagar, para poder governar, o que terá que fazer seu sucessor, seja ele ou ela, quem for?

Para se fazer justiça, a realidade de hoje não está distante do que sempre foi a política brasileira. Não é novidade para nós a submissão de um presidente à sua base. O diferente agora está em Lula. Ele chegou ao poder carregando as esperanças populares de mudanças nas práticas políticas. Sai do governo como devedor, embora possa ser credor na economia e na prática de programas sociais.

A verdade é que Lula não apenas manteve as velhas práticas como, de certa forma, fez com que elas se enraizassem ainda mais. Exacerbou situações que seu sucessor terá dificuldades de superar. Convalidou práticas que todos queríamos ver banidas da política, como a corrupção e o compadrio. Tudo em nome da governabilidade e de alianças eleitorais futuras.

Apesar de todo este esforço, da entrega de sua própria biografia e a de seu partido, o presidente corre sérios riscos. O risco de comprar, pagar e não receber. Ele pode estar comprando um produto que, simplesmente não existe. Os que hoje com ele fazem acertos podem não estar no Congresso em 2011.

Nas últimas eleições a taxa de renovação na Câmara Federal chegou aos 48,7% e se mostrou em expansão, se comparada com as passadas. A bancada paulista, numericamente a maior, foi renovada em 61,4%. A de Alagoas em quase 80%. Minas, a segunda bancada, chegou a 49% de renovação. No Senado, onde tradicionalmente a renovação não é tão alta, estarão em disputa 54 de suas 81 cadeiras, o que pode mudar o quadro atual de forma significativa.

Temos então um quadro em que Lula pode estar acertando com quem não estará na cadeira, em 2011, para entregar o que vendeu. O acerto de agora pode até garantir uma aliança para 2010, que significa mais tempo de televisão, basicamente, mas não assegura à sua candidata, votos, nem a tal da governabilidade, caso ela vença a disputa.

Pela governabilidade, quem vencer terá que construir o que, no Brasil, significa barganhar. Como temos demonstrado uma grande capacidade de escolher mal nossos parlamentares fica a certeza de que aquilo que já está ruim vai piorar.

 
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