Segunda, 21 de Maio de 2012
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Mercado Imobiliário

A preço de ouro

Encontrar apartamentos de um quarto na zona sul de Belo Horizonte é como achar agulha num palheiro. Resultado: preços pra lá de salgados

Texto: Eliana Fonseca | Fotos:


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Alessandra dos Anjos: “Preferi imóvel que não tinha localização tão boa”

O alarme de algo errado começou a soar no primeiro ano de procura. Foi esse o tempo que a empresária Alessandra dos Anjos levou na tentativa de compra de apartamento de um quarto na zona sul de Belo Horizonte. Quando encontrou um imóvel, a constatação é que pelo preço de um quarto, poderia pagar um pouco mais e comprar apartamento novo de dois quartos, com duas vagas, três banheiros, só que em um bairro mais distante do que o desejado. Desistiu da primeira procura e mudou os planos. “Preferi morar em um imóvel que não tinha localização tão boa”, conta. Alessandra não é a única que encontrou dificuldades para achar apartamento de um quarto na zona sul da capital mineira.

Corretores e construtoras fazem uma analogia do imóvel com essas características com o ouro em pó. Está difícil encontrar apartamento com esse perfil principalmente por causa de alterações na Lei de Parcelamento, Uso e Ocupação do Solo de Belo Horizonte, que limita o número de unidades habitacionais por terreno. Na prática, a previsão para alguns especialistas é que a construção de apartamentos de um quarto se torne inviável em pouco tempo. “No bairro Buritis, num terreno de 500 m², por exemplo, só é permitida a construção de  prédio de oito apartamentos. Então, em vez de construir apartamentos de 75 m², as construtoras optam por melhor rentabilidade, oferecen­do cada imóvel com 102 m2, por exemplo, para usar todo o potencial construtivo do terreno”, explica o arquiteto Oscar Ferreira.

Enquanto isso, a vida dos solteiros, recém-separados ou casados, jovens estudantes que procuram imóveis menores em regiões como Anchieta, Cruzeiro, Luxem­burgo, Serra, São Pedro, Sion, Santo Antônio, está cada vez mais difícil. O diretor de imóveis de terceiros da Gribel Pactual, Fernando Portela, reforça a questão da perda de potencial construtivo pelas construtoras, e consequente perda na rentabilidade do empreendimento, quando a opção é pela cons­tru­ção do apartamento de um quarto. “Temos fila para comprar imóvel de um quarto em Belo Horizonte. A procura é muito maior do que a oferta”, diz. Portela afirma que por causa da liquidez do apartamento de um quarto, a grande maioria da compra – quando surge um imóvel para a venda – é de pessoas interessadas em transformá-lo em investimento. “É uma pena que não estão construindo mais.”


Oscar Ferreira: restrições podem custar caro à cidade
Oscar Ferreira: restrições podem custar caro à cidade

Para o diretor de Incorporação da Líder-Cyrela, Dennyson Porto, não existe nenhuma mística efetiva para a questão da escassez de apartamentos de um quarto. A construtora não trabalha com imóveis nesse perfil. Prefere oferecer empreendimentos de dois e três quartos, com estrutura de lazer, segurança, conforto. “Por que haveria de comprar apartamento de um quarto, se posso optar por um de três? Atualmente, nossas tabelas são muito convidativas, com formatos que se encaixam em qualquer bolso”, afirma o diretor da Líder-Cyrela. No entanto, segundo o arquiteto Oscar Ferreira, as restrições às construções de apartamentos de um quarto nas áreas mais nobres de Belo Horizonte podem custar caro à cidade. Haveria uma mudança de foco das pessoas que procuram apartamentos de um quarto, que teriam de adequar sua busca por outro imóvel fora das áreas chamadas adensadas e com melhor infraestrutura. “Quando se incentiva a ocupação periférica nos bairros distantes do centro há, por consequência, aumento significativo do deslocamento da população, congestionando as vias”, analisa.

Uma das construtoras que ainda está investindo em apartamentos de um quarto é a MIP Edificações, que prevê o lançamento ainda este ano de empreendimento com um, dois e três quartos, entre 67 m² e 90m², na região da Sa­vassi e outro com as mesmas características, para 2010, em Lourdes. “É um investimento para atender à necessidade de clientes específicos, sendo cerca de 40% representados pelos solteiros”, afirma o gerente comercial da MIP, Glender Alvarenga.  Apesar dessas próximas ofertas, ele reconhece que é muito difícil encontrar imóveis de um quarto na cidade. Uma das razões é a opção das construtoras por flats que, em sua opinião, chegaram a ter saturação no mercado há algum tempo e hoje voltam a apresentar boa demanda em relação à oferta. Culpa também a lei de uso e ocupação do solo. “Há alguns casos de projetos cujas unidades têm áreas abaixo da definida pela cota determinada, com coeficiente de aproveitamento menor. Neles, as construtoras têm perda de até 25% de área privativa, que poderia ser comercializada em um empreendimento”, diz.

Dennyson Porto: “Por que de um quarto se posso optar por um de três?”
Dennyson Porto: “Por que de um quarto se posso optar por um de três?”

Para alguns, mesmo com esses problemas, há possibilidade de que o apartamento de um quarto volte a figurar com destaque no mercado. É a opinião do diretor da Cons­trutora VLC, Luís Eduardo Miranda Colares, que analisa os diversos ciclos do mercado imobiliário. “Já houve  demanda por apartamentos de quatro quartos de alto luxo, por outros mais populares. O próximo pode ser para mais imóveis comerciais ou apartamentos de um quarto, já que está cada vez maior o número de solteiros, profissionais liberais, recém-formados, que desejam um imóvel pequeno de fácil cuidado no dia-a-dia”, observa.

Enquanto ainda há indefinição por uma maior oferta, aconteceu em julho a III Conferência Municipal de Política Urbana, em Belo Horizonte. Foi a chance de técnicos, empresários e população debaterem e apresentar propostas para solucionar o problema. Na opinião do arquiteto Oscar Ferreira, a solução mais viável para o maior número de apartamentos de um quarto seria ter a cota de unidades habitacionais por terreno compatível com o coeficiente construtivo. “Na visão do poder público, a cota de terreno é o instrumento principal para diminuir o fluxo de veículos nas ruas. Paralelamente, os incentivos à indústria automotiva e a facilidade de financiamento de veículos contribuem significativamente para o caos no trânsito. O sistema metrô necessita de novas linhas. As ciclovias não existem. Temos que encontrar soluções viáveis para nossa cidade. A cidade que queremos para nós”, opina.


 
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