Por que o PMDB está sendo satanizado?
A colocação é adequada. Realmente há uma tentativa de demonizar o PMDB. E eu vejo isto com muita naturalidade, afinal o PMDB é um partido numericamente muito significativo. Mas é uma demonização indevida. O governo só tem conseguido levar adiante suas tarefas com o apoio do PMDB. Muitas vezes se fala que o PMDB é um partido com divisões. Mas eu pergunto, qual partido não tem divisões internas? Falam que o PMDB não tem bandeira. Não é verdade, temos a bandeira do desenvolvimento, do social, depois de ter sido alcançada a bandeira de redemocratização do país. Agora o que não há, muitas vezes, é uma definição programática de cada um dos partidos. Hoje se você perguntar qual a diferença entre os programas de vários outros partidos, que prefiro não mencionar, verá que existe uma quase identificação entre todos eles. Eu, pessoalmente, sou a favor de que os partidos representem correntes de pensamento. Não há mais do que três ou quatro correntes de pensamento no país.
Nesta definição de correntes de pensamento, quem ficaria com a direita, por exemplo? Aqui ninguém quer ser direita.
O que eu percebo é que o povo quer uma política de resultados. A ideia de direita e esquerda já é superada. E não é de hoje não. Desde a queda do Muro de Berlim e a atomização da União das Repúblicas Soviéticas, as questões de direita e esquerda perderam qualquer significado. No Brasil, por exemplo, há questões de economia que, aparentemente, são de uma corrente partidária, mas, na realidade, são de todas as correntes partidárias. Elas visam a um mesmo objetivo: atender o povo.
O que distinguiria as correntes de pensamento?
Se você tiver um número menor de agremiações partidárias, você terá uma melhor definição de programas. Isso não significa uma separação radical entre estes programas. Significa uma leve modificação. Por exemplo: há os que querem juros maiores, outros juros menores. Uma pequena diferença, tendo em vista a questão inflacionária ou o desenvolvimento a ser levada em conta. Serão, portanto, pequenas alterações que identificarão correntes de pensamento. Não serão situações radicais que definirão os partidos.
O senhor citou, como exemplo de distinção entre partidos políticos, um tema de economia. A economia, hoje, superou a política?
Eu penso que a economia hoje passou a ser um fator de muita significação, precisamente em função da premissa de que o povo quer resultados. Então, no momento em que você não tenha a inflação, que tenha uma moeda forte, o emprego, as condições de consumo, você está falando de economia. Até mesmo os programas assistenciais, como o Bolsa Família, é assunto de economia, à medida que ele dá dinheiro ao cidadão para que ele compre bens, alimentos. Eu não diria que a economia superou a política. Diria que ela se amalgamou com a política. Não há se falar de política, sem falar em economia.
O PMDB foi uma legenda importante no processo de redemocratização, quando na oposição. O PSDB chegou forte ao poder, e se desgastou. O PT vai pelo mesmo caminho. O que acontece com os nossos partidos?
É que o poder desgasta. É possível que haja um desgaste pela atração de pessoas. Isto distingue bem a simples pregação de ideia e a execução. A execução é muito mais complicada. Esse fenômeno é um fenômeno histórico. Aconteceu com o PMDB, aconteceu com o PSDB e está acontecendo com o PT. É o “eu sou você amanhã”. O que é preciso é que haja conscientização, preocupação em modificar esta situação. E você só modifica isto com uma grande reformulação política, que ainda não foi possível fazer. Ela realmente terá que ser para 2014. Uma reformulação assim para a eleição subsequente é muito difícil. E é natural isto, pois as pessoas estão pensando no seu aspecto pessoal. A reforma política encontra embaraço no partido político, no próprio parlamentar. Cada parlamentar tem seus interesses. Ele quer se re-eleger e então coloca dificuldades na reformulação política. Acho que vamos fazer a reforma, mas para 2014.
Há uma frase, atribuída ao ex-governador mineiro Magalhães Pinto, que diz ser a política como as nuvens. Você olha, ela está de um jeito. Logo depois está de outro. É isto mesmo, a política muda tanto?
Eu não discordo inteiramente da frase. Ela constata uma realidade. A sociedade é multifacetada e com interesses dos mais controvertidos num determinado momento e que mudam ao longo do tempo. Quando a nuvem muda significa, muitas vezes, que o pensamento coletivo mudou. Agora, o que não pode acontecer é que ela mude tão radicalmente como vem sendo modificada. Aí eu vou dizer uma obviedade, mas nunca foi tão necessário dizer a obviedade como neste momento: é preciso que tenhamos partidos políticos que representem parcela da opinião da sociedade, que pretende governar, seja no Executivo ou no Legislativo. Muitas vezes nós não temos partidos com esta característica de representação de parcela do pensamento da sociedade. Temos siglas partidárias, que é diferente de partido político. Quando tivermos partidos que representem correntes de pensamento, lamento dizer, teremos no máximo dois ou três.
O quadro de impunidade no país, apontado sempre como responsável por nossas mazelas, pode ser mudado?
Eu penso que a impunidade foi muito mais séria no passado, até 15, 20 anos atrás, quando ela era consequência natural da cultura política. Hoje é preciso distinguir a impunidade de natureza judicial e a impunidade de natureza política. Muitas vezes o sujeito pode ficar impune por não ter condenação judicial, mas ele não fica impune pela imagem que se faz dele. A imagem que se faz dele, muitas vezes, é tão negativa, que ele acabou tendo o repúdio da sociedade. Penso que a impunidade é algo que, pouco a pouco, está desaparecendo do país.
Mas e o caso Edmar Moreira...
Os casos específicos nunca servem para uma grande discussão teórica sobre um tema. Mas no caso dele, o que ficou no imaginário popular foi a ideia do castelo como resultado da roubalheira como deputado. Quem lê a Bíblia sabe que, às vezes, as pessoas se perdem pela palavra. O deputado Edmar perdeu-se pela língua, quando numa entrevista, na maior leveza, disse que na Câmara prevalece a amizade quando se trata de julgar colegas. Aí foi sua desgraça. Mas sua absolvição foi baseada nos fatos.
O senhor é candidato a vice numa chapa com o PT, mais objetivamente, é o nome do PMDB para formar chapa com a ministra Dilma?
Eu sou candidatíssimo a deputado federal. Fala-se no assunto de meu nome, mas não existe candidato a vice. Candidatura autônoma a vice só na Indonésia. Candidato a vice tem que ser alguém que some politicamente para o candidato.
Qual das candidaturas postas aí no PSDB, Serra e Aécio, seria mais difícil de enfrentar. Especula-se a possibilidade do governador Serra tentar a re-eleição e o governador Aécio sair para a Presidência. O que o senhor pensa disto?
Os dois seriam enfrentamentos muito difíceis. Agora, em relação a segunda pergunta, quero dizer que se eles se compuserem desta maneira não seria ruim. Quero dizer ainda que o Aécio tem simpatia política extraordinária e uma grande projeção nacional. Mas esta é uma questão do PSDB, onde eu não posso pôr o dedo.
Caso fosse dado ao senhor o poder de mudar a política, o que mudaria?
Acho que mudaria a consciência popular em relação à atividade política. A atividade política é muito digna, mas lamentavelmente o que se criou foi o pensamento de que a atividade política é uma atividade menor, que deteriora as pessoas, o que não é verdadeiro. O interessante, como já disse, é que o povo escolhe, na maioria das vezes, adequadamente. Mas, depois, a consciência coletiva começa a repudiar os escolhidos, não o escolhido individualmente.