Segunda, 21 de Maio de 2012
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Cidades da Copa 2014

Passando a bola

Para sediar os jogos da Copa 2014, a Arena da Baixada, em Curitiba, necessita de investimentos de 130 milhões de reais. “Só temos 30 milhões”, afirma um diretor do Atlético do Paraná. “O problema é deles”, rebate um secretário do Comitê do Mundial

Texto: Eliana Fonseca | Fotos: Pedro Vilela


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Marco Malucelli, do Atlético Paranaense: incerteza com recursos

Nada parece estar fora do lugar em Curitiba. Escolhida uma das cidades-sede da Copa 2014, ela quase atinge a perfeição aos olhos de qualquer visitante por causa da conjunção do seu projeto urbanístico e arquitetônico. Ruas largas, bem sinalizadas, dividem espaço com uma paisagem urbana única. São 51 m2 de área verde para cada morador da cidade, construções em estilo europeu, coleta de lixo reciclável que já rendeu o prêmio máximo mundial na área de meio ambiente, mais de uma dezena de pontos turísticos estonteantes, um estádio, a Arena da Baixada, que ao contrário da maioria dos outros locais brasileiros já está 70% pronto aos olhos da exigente Fifa. É inevitável a pergunta: ainda falta algo a Curitiba para o maior campeonato de futebol do mundo daqui a cinco anos?

Sim, e não é pouca coisa. Talvez, no momento, o maior problema seja justamente um assunto que julga solucionado. Numa tarde de terça-feira, um atarefado presidente do Conselho Admi­nistrativo do Atlético Paranaense, Marco Augusto Malucelli, clube dono da Arena da Baixada, recebe a reportagem e não faz festa quando fala em Copa 2014. “Não faremos investimentos a mais e nem vamos onerar os sócios do clube por causa da Copa”, avi­sa. Dá de ombros quando perguntado o que acontecerá entre o que o clube previu de gasto para algumas reformas planejadas anteriormente para a Arena – cerca de 30 milhões de reais – aos cerca de 130 milhões para se adequar às exigências da Fifa. A capacidade passaria dos atuais 25 mil para 41 mil torcedores.


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O vice-governador do Paraná, Orlando Pessuti, e Wilson Portes integram Comitê da Copa do Estado
O vice-governador do Paraná, Orlando Pessuti, e Wilson Portes integram Comitê da Copa do Estado

“É um estádio ótimo para jogos do Campeonato Estadual, do Campeonato Brasileiro, mas não para Copa do Mundo”, reflete o presidente do Conselho Administrativo. Aponta as pilastras do estádio que geram nada menos que 300 pontos cegos. Elas terão de ir abaixo. As lâmpadas têm 800 watts. A exigência é que tenham 2.000 watts de potência. A sala de impren­sa com 120 m² terá de ser ampliada e chegar a 300 m². E por aí vai.

A pressão para saber de onde sairá o dinheiro para a Arena – os estádios privados têm de arcar com suas obras – parece não ter atingi­do os outros órgãos envolvidos na preparação de Curitiba para a Copa 2014. O secretário-executivo do Co­­mitê Executivo Copa 2014, Wil­son Portes, órgão ligado à vice-governadoria do estado explica que es­se é um problema que a diretoria do Atlético Paranaense terá de equacionar. “É responsabilidade de­les. É um assunto que não cabe a nós resolver”, finaliza.

As técnicas do Ippuc Susana Lins e Zelinda Rosário foram à África do Sul para colher experiências para a Copa 2014
As técnicas do Ippuc Susana Lins e Zelinda Rosário foram à África do Sul para colher experiências para a Copa 2014

Prova de que esse problema po­de (e deve) ser solucionado bem an­tes do que se pensa é que ninguém parou seus planejamentos. A pre­fei­tura da cidade enviou, em junho, técnicos do Instituto de Pesquisa e Pla­nejamento Urbano de Curitiba (Ippuc) à África do Sul para a Copa das Confederações, uma espécie de prévia da Copa do Mundo. “Com ba­se nessa visita, faremos um ajuste fino para concretizar melhor nossos projetos”, diz a assessora técnica de Assuntos da Copa do Mun­do do Ippuc, Susana Lins Affon­so da Costa. E não serão poucas as intervenções na cidade. Ainda há titubeio para apontar a porcentagem que caberá aos poderes municipal, estadual e federal no quinhão do Campeonato Mun­dial que deve chegar a 4,5 bilhões de reais de gastos. As maiores obras estão previstas no PAC da Mo­bilidade: 15% do projeto do metrô devem ficar prontos e levar um pouco mais da metade desses recursos; o aeroporto Afonso Pena deve ganhar mais 450 m de pista, além da ampliação do terminal de passageiros.

Na cidade arborizada há também problema relacionado ao meio ambiente. Entrecortada por rios urbanos, Curitiba tem parte deles canalizados e outros pontos a céu aber­to. Seria preciso fazer tratamentos e revitalizações num projeto tão polêmico que já rendeu algumas passeatas pelas ruas da cidade. O ambientalista Paulo Piza ex­plica que essa recuperação é tecnicamente e financeiramente difícil. “Como tratar e revitalizar mar­gens de rios que ficam próximas a prédios? Há também problemas com esgotos clandestinos”, diz, antecipando intervenções que poderiam gerar muita dor de cabeça para os curitibanos.

O ambientalista Paulo Piza: é preciso resolver questões ambientais antigas
O ambientalista Paulo Piza: é preciso resolver questões ambientais antigas

Para o secretário de relações públicas e instituições da prefeitura de Curitiba, Luiz Carvalho, a Copa 2014 será a chance de a cidade concretizar alguns projetos antigos e necessários à infraestrutura. Car­valho reconhece que será difícil para a população entender tantos investimentos para um evento considerado 100% business como a Copa 2014. Por isso é tão importante concretizar esse ganho efetivo, através das obras de infraestrutura, para a população. Ele cita o exemplo das obras do metrô, que terão 22 km de extensão e significarão uma mobilidade maior para os moradores. “Nosso desejo é garantir, com a Copa, um legado de interesse local, sem ociosidade futura. Por isso, vários dos projetos que serão executados já estavam previstos”, diz.

Há ainda outros problemas que dizem respeito aos costumes do curitiba­no. Com um inverno que pode trazer temperaturas negativas, é comum uma noite esvaziada, com poucos bares abertos. É exatamente na época do frio que a cidade receberá pelo menos 40% a mais de turistas ávidos por não só ver os jogos, mas também curtir a noite. O secretário Luiz Carvalho minimiza o problema e diz que a cidade já tem casas especializadas para o clima frio, que estarão abertas para os turistas. “Será preciso uma mudança de hábitos”, conclui.

Os bastidores desta matéria, você encontra no Blog da Redação.

Um dos inúmeros canteiros que embelezam as ruas da capital paranaense
Um dos inúmeros canteiros que embelezam as ruas da capital paranaense

Copa em curitiba (*). Confira os pontos positivos e negativos da capital paranaense

De goleada

- Bem planejada, a cidade possui um traçado que facilita em muito a vida do visitante. É quase impossível se perder por suas ruas 
- São 30 parques e bosques e cerca de 300 mil árvores plantadas pelas ruas de Curitiba
- A cidade é limpa, não se encontra lixo por suas ruas
- Curitiba possui o único estádio do Brasil que já é considerado 70% adequado aos padrões da Fifa
- São inúmeras as atrações turísticas: há desde o Museu Niemeyer até os Parques da Cidade, o Teatro Guairá, o Memorial Árabe, a rua das Flores, o Jardim Botânico, o sítio histórico. Todos com infraestrutura adequada para atender turistas
- A cidade possui tecnologia para abrigar o Centro de Mídia da Copa 2014 e está no páreo da disputa

Na retranca

- Mesmo estando com 70% adequado, ainda faltam R$ 130 milhões para as obras do Estádio Arena da Baixada, do Atlético Paranaense. O Clube diz que não deve arcar com esses recursos
- Há problemas com os rios urbanos que precisam ser, em alguns trechos, canalizados ou revitalizados
- A cidade, segundo dados da União Geral de Bairros de Curitiba e Região Metropolitana, tem 80 mil famílias, mais de 200 mil pessoas, moradoras de ocupações irregulares ou vivendo em condições precárias de vida

Jardim Botânico de Curitiba: ponto turístico para a Copa 2014
Jardim Botânico de Curitiba: ponto turístico para a Copa 2014

A mobilidade urbana é problema em Curitiba, que deverá realizar as seguintes obras:

Primeira linha do metrô de Curitiba – sob a canaleta dos eixos Norte e Sul, ao longo de 22km, será construída a Linha Azul. Nestes eixos, a canaleta dará lugar a um boulevard, transformando-se em espaço de convivência, com calçadas, ciclovias e paisagismo
Revitalização da praça Afonso Botelho – entre as obras, está a  implantação de estrutura permanente que, depois dos jogos, será utilizada para atividades esportivas, culturais, de inclusão social
Obras de Integração Metropolitana – criação de um corredor metropolitano ligando municípios da Região Metropolitana; reforma, melhoria e construção de vias de acesso a Curitiba com o objetivo de desafogar o trânsito, melhorando os deslocamentos dentro da cidade.
- Intervenções na área próxima ao estádio com recuperação de vias, passeios, acessos para portadores de deficiências, iluminação
Implantação do Sistema Integrado de Mobilidade – implantação de uma central de controle, modernização do CTA, instalação de câmeras e painéis de mensagens variáveis
- Adequações viárias no entorno do Terminal Rodoviário de Curitiba
Melhorias nas vias de acesso entre o aeroporto e Curitiba – estão previstas obras nas avenidas Comendador Franco e Marechal Floriano Peixoto
Obras de transporte e mobilidade, habitação e desenvolvimento social – Pró-Cidades – Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID)

Fontes: Ippuc, Prefeitura de Curitiba, Governo do Estado do Paraná


 
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