Segunda, 21 de Maio de 2012
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Resposta no ar

Comunidade científica e médicos ainda não conseguiram explicar por que o vírus da gripe A causa tantas mortes entre pessoas jovens e sem nenhum fator de risco

Texto: Silvânia Arriel / Colaboraram: Eliana Fonseca e Luciana Avelino | Fotos: Artes: Paulo Werner


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Vanderlei Vial, 29 anos
Severino Galdino, 31 anos
Jorge André Dutra Tliter, 31 anos
Dirlei Pereira, 35 anos

Deixam parentes, história de vida pela metade, sonhos por realizar. Estão na lista, generalizada dos números, dos que morreram vítimas da infecção do vírus H1N1, a gripe suína, e onde não deveriam ser só mais um. São jovens, adultos saudáveis que, pelas previsões iniciais, não iam constar do grupo de risco, formado por idosos, crianças, gestantes. Mas engrossam as estatísticas destoantes mundo afora e no Brasil, onde 35 dos 72 mortos, até 31 de julho, eram jovens e adultos, sem nenhum fator de risco: cardiopatias, diabetes, problemas respiratórios. São quase 50%, neste levantamento feito junto às secretarias estaduais de saúde. “A mortalidade de jovens é elevada se comparada com a gripe sazonal”, diz a médica infectologista Nancy Bellei, pesquisadora do grupo influenza da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). A causa é desconhecida dos especialistas, até porque não há estudos científicos a respeito desta pandemia, que começou em março deste ano pela América do Norte e se espalhou por mais de 160 países.

Há suposições: vão das constantes andanças dos jovens, então mais susceptíveis a esse vírus altamente transmissível, e por isso o número de mortes acompanharia a probabilidade, até idosos terem anticorpos contra o H1N1. “Provavelmente, o vírus está circulando de forma mais intensa na população saudável do que na debilitada e doente”, afirma o médico Stefan Cunha Ujvari, do Hospital Oswaldo Cruz, de São Paulo, e autor do livro A História e suas Epidemias. Se os jovens estão mais expostos, contraem o vírus e, consequentemente, um percentual maior cai nas estatísticas de mortalidade. Com o agravante de que essa faixa etária reage com maior capacidade imunológica à agressão viral.


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“Esta resposta mais intensa à presença do vírus no pulmão acaba por causar lesões estruturais neste e em outros órgãos, levando a quadros clínicos graves”, explica Carlos Starling, pre­sidente da Sociedade Mineira de Infectologia. É tão forte que ma­ta. “É como se a polícia, ao tentar retirar invasores, detona o  prédio”, compara o virologista Ale­xandre Vieira Machado, pesquisador da Fiocruz. Estudos feitos em animais mostram que o vírus da gripe suína é mais agressivo e com maior capacidade de causar lesões pulmonares do que o influenza sazonal, o da comum, que acomete mais os idosos. “Tal fato, aliado a maior frequência de jovens sendo infectados pode ser uma das justificativas para o fenômeno da mortalidade nesta faixa etária”, diz Starling.

Soma-se a este diagnóstico a hipótese de que a terceira idade estaria imu­ne ao vírus. Nos anos 1950 havia H1N1 que circulava na população mundial, semelhante ao da nova influenza A. Em 1957, houve a gripe asiática e de Hong Kong, que extinguiram o H1N1 do mundo. “Só que ele continuou no porco e se misturou ao vírus que fez aparecer a gripe suína. A desconfiança é que estes idosos que pegaram a infecção antes de 1957 tenham memória imunológica”, esclarece o infectologista Stefan Cunha Ujvari. É só uma teoria, levada em consideração pelos médicos, nestes tempos em que a nova gripe se espalhou como um espirro e fugiu da previsão inicial de atingir a parcela vulnerável da população e não adultos jovens saudáveis.

Pessoas com máscaras no aeroporto de São Paulo: prevenção / Foto: Cesar Greco/Foto Arena/AE
Pessoas com máscaras no aeroporto de São Paulo: prevenção / Foto: Cesar Greco/Foto Arena/AE

Mas os especialistas acreditam que, com a evolução da pandemia, o grupo de risco vai passar a ser o mais atingido, como registrado em outras epidemias de influenza anteriores. “Os primeiros casos ocorrem em pessoas com maior mobilidade social e as ondas subsequentes acometem as pessoas mais susceptíveis, o que costuma ocasionar maior mortalida­de”, afirma o presidente da So­cie­da­de Mineira de Infectologia.  O que não se sabe também é por que as pessoas reagem diferentemente à doença: há as que provavelmente ficaram gripadas recentemente, tiveram a doença nem se deram conta da contaminação. “A maioria dos casos evolui de forma leve e não dei­xa sequelas. Em algumas pessoas a doença pode se apresentar sob for­ma de pneumonia e ser mais grave”, diz a médica Tânia Marcial, do Hos­pital Eduardo de Menezes, de Belo Horizonte. Outra preocupação é quan­do ocorre a infecção bacteriana junto com a viral, o que contribui para a gravidade do quadro.

Toda essa pandemia, suas consequências e mortes acendem o alerta e, ironia das ironias, traz o lado positivo, não se sabe até quando. “As pessoas voltarão a dar prioridade pa­ra certas etiquetas de higiene que foram negligenciadas nos últimos anos. Lavar as mãos, se proteger con­tra os vírus respiratórios, não só vai ajudar na luta contra o H1N1, mas também prevenir outras doenças”, lembra o médico do Hospital Os­wal­do Cruz.

O virologista Alexandre Machado: pesquisa em busca da vacina / Foto: Pedro Vilela
O virologista Alexandre Machado: pesquisa em busca da vacina / Foto: Pedro Vilela

Também há, do lado bom desta história, o desafio de mudar a percepção de que gripe é coisa séria, não simples resfriado que cura com vitamina C e cama. “Até en­tão, convencer a população com mais de 65 anos a se vacinar exigia grande esforço. Hoje fica evidente a importância de se ter uma vacina contra a dispersão do vírus”, completa Starling. Não falta empenho na busca por imunização. Em Minas, o Centro de Pesquisas René Rachou, da Fiocruz, desenvolve técnica de biologia molecular, conhecida como genética reversa, que pode­rá ser usada no desenvolvimento de vacina contra o influenza. “Mas ainda vai gastar, no mínimo, três anos”, informa o virologista Alexandre Vieira Machado, pesquisador responsável pela introdução da técnica no país. 

Até lá serão outros vírus a serem imunizados, pela constante mudança do influenza. É, a cada cepa surge uma doença para a qual o sistema imunológico não sabe a resposta. “O vírus H1N1 pode desaparecer ou se adaptar”, diz Machado. O da tão devastadora gripe espanhola, que teria matado mais de 50 milhões de pessoas em 1918, hoje convive com a humanidade, sem riscos. Está aí, mas novos vírus transmissíveis e não tão letais, ou ao contrário, ou ainda com grande capacidade de contaminação e 100% mortal, o grande receio dos pesquisadores, podem aparecer.

“As epidemias dos tempos atuais viajam a jato e podem bater na nossa porta no dia seguinte. Temos de adquirir, de forma definitiva, a cultura da prevenção e da elaboração dos planos de contingência para catástrofes”, prevê Carlos Starling. Assim não haverá ondas de pânico, temores, estatísticas de mortos sem nomes e rostos. Tanto estar com 10, 30, 50, 70 anos, com ou sem explicação, morrer de  gripe no século XXI não combina com tanto avanço tecnológico.

Que vírus é este

Confira o que são e como surgiu o influenza A, H1N1

- É infinidade, trilhões, de vírus na natureza. 30 mil foram identificados pelos pesquisadores, sendo que 800 causam doenças em seres humanos

- O vírus é um milésimo do tamanho da célula. É formado por poucos genes dentro de uma cápsula de proteínas

- Os mais transmissíveis são pouco letais e os mortais, pouco contagiosos

- O influenza (que significa influência), por ser de RNA (ácido ribonucleico) está sujeito ao maior índice de mutações. Infectam aves, mamíferos e humanos. São três tipos: A, B e C

O vírus influenza A sofre dois tipos de modificações

- Mutações pontuais: pequenas alterações na combinação das proteínas que envolvem o vírus. São responsáveis pela gripe comum

- Re-arranjos genéticos: quando dois ou mais vírus se misturam e originam nova cepa. São os mais perigosos

- O vírus da gripe suína, o H1N1, surgiu do rearranjo do material genético de porcos, aves e humanos. Como o sistema imunológico do homem não possui defesa contra esse componente suíno, tornou a cepa mais agressiva

- O primeiro caso conhecido foi do garoto mexicano Edgar Hernández, no vilarejo La Gloria. Depois se espalhou com facilidade por todos os continentes. Hoje está em mais de 160 países

- A contaminação ocorre por meio de tosse ou espirro e do contato com secreções respiratórias de pessoas infectadas

- Os sintomas são falta de ar, febre persistente, vômitos frequentes, desidratação, dores musculares e nas articulações

Fonte: Ministério da Saúde, infectologista Marise Oliveira Fonseca, virologista Alexandre Vieira Machado

Mudança de hábito

As escolas particulares e da rede pública de Minas adiaram por uma semana a volta às aulas. Mais outros quatro estados brasileiros (São Paulo, Distrito Federal, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul) também prorrogaram as férias

A arquidiocese de Belo Horizonte aconselhou os padres a distribuir as hóstias, na comunhão, diretamente na mão dos fiéis, eliminar o aperto de mãos e reduzir o horário das missas. Em São Paulo, a recomendação foi extinguir a parte da celebração em que os católicos rezam de mãos dadas

Na Argentina, a Igreja Católica pediu aos padres que façam a comunhão sem colocar a hóstia na boca dos fiéis. A saudação de paz também foi suspensa

No Reino Unido, a Igreja Anglicana recomendou evitar água benta

O Ministério da Saúde da Arábia Saudita sugeriu que crianças, idosos e pessoas com doenças crônicas evitem o hajj, a tradicional peregrinação religiosa a Meca e Medina, que reúne público de cerca de 3 milhões de pessoas em dezembro 

CURIOSIDADES SOBRE A GRIPE SUÍNA

- No Reino Unido, algumas pessoas estão convencidas que é melhor contagiar-se agora com a gripe influenza A H1N1, quando ainda é verão, do que no inverno. A suposição é que nesta época o vírus estará mais forte. Para essa contaminação antecipada, alguns grupos estão anunciando, em blogs e sítios, festas com pessoas que estão com gripe suína para contrair a enfermidade

- Famosos diagnosticados com gripe suína: a jornalista Sandra Annenberg, o apresentador André Matos, o ator Rupert Grint (o Rony, do filme Harry Potter)

- A Organização Mundial de Saúde (OMS) iniciou conversas com o governo da África do Sul para conter, em ações conjuntas, possíveis casos de gripe suína no país na época da Copa do Mundo 2010, que ocorrerá no inverno

- Dados divulgados durante a 9ª Conferência Global Sobre Viagens e Turismo mostram que a indústria mundial do turismo deve registrar perdas de US$ 2,2 bilhões entre este ano e 2010 por causa da nova gripe

- A gripe influenza A H1N1 poderá afetar duramente a economia global. Segundo projeções do Banco Mundial, o custo econômico para combater e tratar os pacientes contaminados pode variar de 0,7% a 4,8% do PIB global. O governo brasileiro desembolsou, até 13/7, cerca de R$ 8 milhões no combate à nova gripe. Esse valor representa 7% do previsto

- A gripe suína pode derrubar a economia britânica em 5%, de acordo com estimativas da Oxford Economics, caso o número de licenças médicas fique tão alto quanto se espera nos próximos meses. As previsões são de que, a qualquer momento, um em cada oito trabalhadores vai estar em casa por causa do vírus.

Epidemias de gripe

Espanhola - 1918
Essa pandemia, causada por mutação do influenza,  matou 50 milhões de pessoas em todo o mundo, seis vezes mais que a Primeira Guerra Mundial. O número representa 2,5% dos infectados. Hoje é um dos vírus mais fracos em circulação

Asiática - 1957
Mais de um milhão morreram afetados por vírus humano influenza que passou por mutação em contato com patos selvagens. Metade da população foi atingida

Hong Kong - 1968
O vírus diagnosticado em Hong Kong se espalhou em pouco tempo para o resto do mundo e matou mais de um milhão de pessoas. Dois meses depois do surto, começou a ser fabricada vacina

Sars - 2003
Surgiu na Ásia e matou 774 pessoas. Mais de 8 mil foram infectados por esta síndrome respiratória aguda grave que, embora não fosse causada pelo influenza, tinha sintomas semelhantes ao da gripe

Aviária - 2003
Com taxa de letalidade de 50%, o vírus circulou por seis anos somente entre as aves, na Ásia, sofreu mutação e passou a infectar humanos. Quase 300 mortes.

Linha do Tempo

Março deste ano
O distrito de La Gloria, no México, vira centro de atenção ao ser identificado como o local que originou o vírus H1N1. O paciente zero foi um menino de 4 anos, Edgar Hernandez
22 de abril
Autoridades sanitárias confirmam a etiologia do vírus influenza A, que se formou graças a uma mutação dentro do organismo suíno
23 de abril
Os Estados Unidos confirmam os primeiros casos da nova gripe em crianças, no Texas
24 de abril
A Organização Mundial de Saúde declara Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional por influenza A (H1N1)
7 maio
Depois de viagem a Cancun, um jovem de 21 anos tem diagnóstico confirmado e se torna o primeiro caso de gripe H1N1 no Brasil
11 de junho
A OMS sobe para 6 (considerado máximo) o nível de alerta para o vírus influenza A H1N1 e é decretada a pandemia no mundo
28 de junho
Morre o caminhoneiro Vanderlei Vial, de 29 anos, primeira vítima fatal em decorrência da gripe suína no Brasil. Vanderlei esteve na Argentina a trabalho
3 de julho
O Departamento de Saúde de Hong Kong anuncia a descoberta de uma cepa do vírus da gripe suína A resistente ao antiviral Tamiflu
16 de julho
O ministro José Temporão confirma o primeiro caso de transmissão sustentada, com morte, por vírus influenza A H1N1, contraída dentro do Brasil
24 de julho
O diretor de Vigilância Epidemiológica do Ministério da Saúde, Eduardo Hage, afirma que é possível que o novo vírus esteja substituindo o da gripe comum
29 de julho
O Ministério da Saúde confirma 56 mortes por gripe H1N1 no Brasil

 
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