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CapaResposta no arComunidade científica e médicos ainda não conseguiram explicar por que o vírus da gripe A causa tantas mortes entre pessoas jovens e sem nenhum fator de risco
Texto: Silvânia Arriel / Colaboraram: Eliana Fonseca e Luciana Avelino | Fotos: Artes: Paulo Werner
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“Esta resposta mais intensa à presença do vírus no pulmão acaba por causar lesões estruturais neste e em outros órgãos, levando a quadros clínicos graves”, explica Carlos Starling, presidente da Sociedade Mineira de Infectologia. É tão forte que mata. “É como se a polícia, ao tentar retirar invasores, detona o prédio”, compara o virologista Alexandre Vieira Machado, pesquisador da Fiocruz. Estudos feitos em animais mostram que o vírus da gripe suína é mais agressivo e com maior capacidade de causar lesões pulmonares do que o influenza sazonal, o da comum, que acomete mais os idosos. “Tal fato, aliado a maior frequência de jovens sendo infectados pode ser uma das justificativas para o fenômeno da mortalidade nesta faixa etária”, diz Starling. Soma-se a este diagnóstico a hipótese de que a terceira idade estaria imune ao vírus. Nos anos 1950 havia H1N1 que circulava na população mundial, semelhante ao da nova influenza A. Em 1957, houve a gripe asiática e de Hong Kong, que extinguiram o H1N1 do mundo. “Só que ele continuou no porco e se misturou ao vírus que fez aparecer a gripe suína. A desconfiança é que estes idosos que pegaram a infecção antes de 1957 tenham memória imunológica”, esclarece o infectologista Stefan Cunha Ujvari. É só uma teoria, levada em consideração pelos médicos, nestes tempos em que a nova gripe se espalhou como um espirro e fugiu da previsão inicial de atingir a parcela vulnerável da população e não adultos jovens saudáveis. |
Mas os especialistas acreditam que, com a evolução da pandemia, o grupo de risco vai passar a ser o mais atingido, como registrado em outras epidemias de influenza anteriores. “Os primeiros casos ocorrem em pessoas com maior mobilidade social e as ondas subsequentes acometem as pessoas mais susceptíveis, o que costuma ocasionar maior mortalidade”, afirma o presidente da Sociedade Mineira de Infectologia. O que não se sabe também é por que as pessoas reagem diferentemente à doença: há as que provavelmente ficaram gripadas recentemente, tiveram a doença nem se deram conta da contaminação. “A maioria dos casos evolui de forma leve e não deixa sequelas. Em algumas pessoas a doença pode se apresentar sob forma de pneumonia e ser mais grave”, diz a médica Tânia Marcial, do Hospital Eduardo de Menezes, de Belo Horizonte. Outra preocupação é quando ocorre a infecção bacteriana junto com a viral, o que contribui para a gravidade do quadro. Toda essa pandemia, suas consequências e mortes acendem o alerta e, ironia das ironias, traz o lado positivo, não se sabe até quando. “As pessoas voltarão a dar prioridade para certas etiquetas de higiene que foram negligenciadas nos últimos anos. Lavar as mãos, se proteger contra os vírus respiratórios, não só vai ajudar na luta contra o H1N1, mas também prevenir outras doenças”, lembra o médico do Hospital Oswaldo Cruz. |
Também há, do lado bom desta história, o desafio de mudar a percepção de que gripe é coisa séria, não simples resfriado que cura com vitamina C e cama. “Até então, convencer a população com mais de 65 anos a se vacinar exigia grande esforço. Hoje fica evidente a importância de se ter uma vacina contra a dispersão do vírus”, completa Starling. Não falta empenho na busca por imunização. Em Minas, o Centro de Pesquisas René Rachou, da Fiocruz, desenvolve técnica de biologia molecular, conhecida como genética reversa, que poderá ser usada no desenvolvimento de vacina contra o influenza. “Mas ainda vai gastar, no mínimo, três anos”, informa o virologista Alexandre Vieira Machado, pesquisador responsável pela introdução da técnica no país. Até lá serão outros vírus a serem imunizados, pela constante mudança do influenza. É, a cada cepa surge uma doença para a qual o sistema imunológico não sabe a resposta. “O vírus H1N1 pode desaparecer ou se adaptar”, diz Machado. O da tão devastadora gripe espanhola, que teria matado mais de 50 milhões de pessoas em 1918, hoje convive com a humanidade, sem riscos. Está aí, mas novos vírus transmissíveis e não tão letais, ou ao contrário, ou ainda com grande capacidade de contaminação e 100% mortal, o grande receio dos pesquisadores, podem aparecer. “As epidemias dos tempos atuais viajam a jato e podem bater na nossa porta no dia seguinte. Temos de adquirir, de forma definitiva, a cultura da prevenção e da elaboração dos planos de contingência para catástrofes”, prevê Carlos Starling. Assim não haverá ondas de pânico, temores, estatísticas de mortos sem nomes e rostos. Tanto estar com 10, 30, 50, 70 anos, com ou sem explicação, morrer de gripe no século XXI não combina com tanto avanço tecnológico. |
Que vírus é esteConfira o que são e como surgiu o influenza A, H1N1 - É infinidade, trilhões, de vírus na natureza. 30 mil foram identificados pelos pesquisadores, sendo que 800 causam doenças em seres humanos - O vírus é um milésimo do tamanho da célula. É formado por poucos genes dentro de uma cápsula de proteínas - Os mais transmissíveis são pouco letais e os mortais, pouco contagiosos - O influenza (que significa influência), por ser de RNA (ácido ribonucleico) está sujeito ao maior índice de mutações. Infectam aves, mamíferos e humanos. São três tipos: A, B e C O vírus influenza A sofre dois tipos de modificações - Mutações pontuais: pequenas alterações na combinação das proteínas que envolvem o vírus. São responsáveis pela gripe comum - Re-arranjos genéticos: quando dois ou mais vírus se misturam e originam nova cepa. São os mais perigosos - O vírus da gripe suína, o H1N1, surgiu do rearranjo do material genético de porcos, aves e humanos. Como o sistema imunológico do homem não possui defesa contra esse componente suíno, tornou a cepa mais agressiva - O primeiro caso conhecido foi do garoto mexicano Edgar Hernández, no vilarejo La Gloria. Depois se espalhou com facilidade por todos os continentes. Hoje está em mais de 160 países - A contaminação ocorre por meio de tosse ou espirro e do contato com secreções respiratórias de pessoas infectadas - Os sintomas são falta de ar, febre persistente, vômitos frequentes, desidratação, dores musculares e nas articulações Fonte: Ministério da Saúde, infectologista Marise Oliveira Fonseca, virologista Alexandre Vieira Machado |
Mudança de hábitoAs escolas particulares e da rede pública de Minas adiaram por uma semana a volta às aulas. Mais outros quatro estados brasileiros (São Paulo, Distrito Federal, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul) também prorrogaram as férias A arquidiocese de Belo Horizonte aconselhou os padres a distribuir as hóstias, na comunhão, diretamente na mão dos fiéis, eliminar o aperto de mãos e reduzir o horário das missas. Em São Paulo, a recomendação foi extinguir a parte da celebração em que os católicos rezam de mãos dadas Na Argentina, a Igreja Católica pediu aos padres que façam a comunhão sem colocar a hóstia na boca dos fiéis. A saudação de paz também foi suspensa No Reino Unido, a Igreja Anglicana recomendou evitar água benta O Ministério da Saúde da Arábia Saudita sugeriu que crianças, idosos e pessoas com doenças crônicas evitem o hajj, a tradicional peregrinação religiosa a Meca e Medina, que reúne público de cerca de 3 milhões de pessoas em dezembro |
CURIOSIDADES SOBRE A GRIPE SUÍNA- No Reino Unido, algumas pessoas estão convencidas que é melhor contagiar-se agora com a gripe influenza A H1N1, quando ainda é verão, do que no inverno. A suposição é que nesta época o vírus estará mais forte. Para essa contaminação antecipada, alguns grupos estão anunciando, em blogs e sítios, festas com pessoas que estão com gripe suína para contrair a enfermidade - Famosos diagnosticados com gripe suína: a jornalista Sandra Annenberg, o apresentador André Matos, o ator Rupert Grint (o Rony, do filme Harry Potter) - A Organização Mundial de Saúde (OMS) iniciou conversas com o governo da África do Sul para conter, em ações conjuntas, possíveis casos de gripe suína no país na época da Copa do Mundo 2010, que ocorrerá no inverno - Dados divulgados durante a 9ª Conferência Global Sobre Viagens e Turismo mostram que a indústria mundial do turismo deve registrar perdas de US$ 2,2 bilhões entre este ano e 2010 por causa da nova gripe - A gripe influenza A H1N1 poderá afetar duramente a economia global. Segundo projeções do Banco Mundial, o custo econômico para combater e tratar os pacientes contaminados pode variar de 0,7% a 4,8% do PIB global. O governo brasileiro desembolsou, até 13/7, cerca de R$ 8 milhões no combate à nova gripe. Esse valor representa 7% do previsto - A gripe suína pode derrubar a economia britânica em 5%, de acordo com estimativas da Oxford Economics, caso o número de licenças médicas fique tão alto quanto se espera nos próximos meses. As previsões são de que, a qualquer momento, um em cada oito trabalhadores vai estar em casa por causa do vírus. |
Epidemias de gripeEspanhola - 1918 Asiática - 1957 Hong Kong - 1968 Sars - 2003 Aviária - 2003 |
Linha do TempoMarço deste anoO distrito de La Gloria, no México, vira centro de atenção ao ser identificado como o local que originou o vírus H1N1. O paciente zero foi um menino de 4 anos, Edgar Hernandez 22 de abril Autoridades sanitárias confirmam a etiologia do vírus influenza A, que se formou graças a uma mutação dentro do organismo suíno 23 de abril Os Estados Unidos confirmam os primeiros casos da nova gripe em crianças, no Texas 24 de abril A Organização Mundial de Saúde declara Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional por influenza A (H1N1) 7 maio Depois de viagem a Cancun, um jovem de 21 anos tem diagnóstico confirmado e se torna o primeiro caso de gripe H1N1 no Brasil 11 de junho A OMS sobe para 6 (considerado máximo) o nível de alerta para o vírus influenza A H1N1 e é decretada a pandemia no mundo 28 de junho Morre o caminhoneiro Vanderlei Vial, de 29 anos, primeira vítima fatal em decorrência da gripe suína no Brasil. Vanderlei esteve na Argentina a trabalho 3 de julho O Departamento de Saúde de Hong Kong anuncia a descoberta de uma cepa do vírus da gripe suína A resistente ao antiviral Tamiflu 16 de julho O ministro José Temporão confirma o primeiro caso de transmissão sustentada, com morte, por vírus influenza A H1N1, contraída dentro do Brasil 24 de julho O diretor de Vigilância Epidemiológica do Ministério da Saúde, Eduardo Hage, afirma que é possível que o novo vírus esteja substituindo o da gripe comum 29 de julho O Ministério da Saúde confirma 56 mortes por gripe H1N1 no Brasil |