|
BrasilNas areias de CaburéMês de agosto, num ponto escondido do litoral maranhense: 30 famílias de pescadores recolhem seus poucos pertences e se mudam para a cidade após verem suas moradas engolidas por dunas formadas pelos ventos
Texto: Nayara Menezes | Fotos: Daniel de Cerqueira
|
Caburé é um pequeno vilarejo, uma faixa de areia entre o rio Preguiça e o mar. Não consta nos registros do IBGE. Por isso, não é possível estimar o número de habitantes. Não há escola, hospital ou posto de saúde. Na verdade, as únicas coisas que existem ali são a vila dos pescadores e três modestas pousadas. “E isso é coisa recente”, avisa seu André. Ele é filho do primeiro habitante do povoado e garante que quando seu pai chegou ali só havia areia, mar e o rio. “Foi ele quem deu nome ao lugar. Tinha muito passarinho Caburé”, conta. A ave cultiva o hábito de esconder a cabeça na areia. O nome não poderia ser mais apropriado. Afinal, em Caburé, a areia costuma tomar o lugar das pessoas. André e a esposa Lindalva são os únicos que permanecem no local durante todo o ano. Por ser o primeiro morador, a cabana foi construída em local mais seguro, um pouco afastado da vila. Segundo ele, a sua casa é uma das poucas que resistem à ventania e à invasão da areia. Ir para a cidade grande parece ameaçador. Lindalva cita o ocorrido com a filha Jocélia. Diferente dos outros 13 irmãos, ela resolveu ganhar o mundo. Foi parar na Espanha, onde se casou e teve um filho. Tempos depois, veio a notícia de que tinha sido assassinada. O corpo nunca chegou para a família, assim como as explicações sobre a morte. Lindalva guarda os recortes de jornais espanhóis que falam do caso não desvendado pela polícia. “Até hoje não sei o que fizeram com minha filha”, desabafa. |
Histórias como essa e tantas outras que eles assistem na televisão, quando estão nos municípios, faz com que a vontade de sair dali seja rara entre os moradores. Nelci Almeida Souza, 39, é um deles. Ele já esteve A pescaria, assim como a rotina de Caburé, é definida pela maré. É ela quem dita o horário que os homens vão para o mar e as crianças para a escola. É só com barco que elas conseguem chegar a Barreirinhas, onde estudam. A maioria passa a semana no município, com algum parente. No fim da semana o barco as traz de volta. Já a rotina das mulheres não varia muito. Enquanto os maridos buscam o peixe, elas lavam roupas, bordam, cuidam dos filhos menores, arrumam a casa e adiantam o almoço. Tomam banho de mar ou de balde. Há uma bomba de onde puxam água dos lençóis freáticos. O sustento do mar chega com os maridos. Parte da pesca é vendida para as pousadas de lá, a outra segue de barco para Barreirinhas. O preço? Tem o peixe de primeira, que é 5 reais o quilo, o de segunda, a 4 e o de terceira, a 2 reais. Dá para tirar quanto por mês? “Sei dizer não. Mas dá pro sustento”, responde o João da Tereza. |
O nome da mulher virou sobrenome. Dona Tereza faz questão de contar que tiveram sete filhos, mas que perdeu duas meninas quando eram bebês. A causa da morte? “Adoeceram”, é só o que ela sabe. “Só essa aí que de vez em quando fica aqui com a gente”, diz João apontando para a filha Laurilene, que cozinhava no fogão de barro sob a luz de uma vela dentro da cabana. E quando chega a doença? “Vamos para o posto ou hospital em Mandacaru ou Barreirinhas”. O mais próximo fica a 15 minutos de barco. “Pra ganhar menino tem que ir pra São Luiz”, completa Marise. Aos 26 anos, ela já tem cinco filhos. Isso porque perdeu três. Pergunto se conhece algum método anticoncepcional. Surpreendentemente, ela mostra uma cartela de pílula. “Depois do último, o doutor me mandou tomar”. Se continuasse no ritmo, era capaz de chegar aos 30 com uma dúzia de filhos. Dona Maria, 60, é matriarca de uma das maiores famílias do povoado. Teve 12 filhos. Na casa dela e de seu Manoel são 15 redes, mas eles avisam: “Tá faltando muita gente. Já chegamos a colocar Os bastidores desta matéria, você encontra no Blog da Redação. |