Segunda, 21 de Maio de 2012
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Nas areias de Caburé

Mês de agosto, num ponto escondido do litoral maranhense: 30 famílias de pescadores recolhem seus poucos pertences e se mudam para a cidade após verem suas moradas engolidas por dunas formadas pelos ventos

Texto: Nayara Menezes | Fotos: Daniel de Cerqueira


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Marise, (a esq.), o marido e a irmã Gracieuza com os filhos e sobrinhos: família numerosa como a maioria pelas bandas de lá

Quando chega o ano novo é hora de fazer as malas. Eles trancam as residências, juntam algumas mudas de roupa, panelas, mantimentos, redes, esposa e filhos e rumam à praia de Caburé. Ali fixam suas cabanas, sustentadas por gravetos de madeira e tapadas por palha. O fo­gão é improvisado, feito de barro.  As redes servem de cama. Não há água encanada, muito me­nos energia elétrica. É nesse cenário, um vilarejo chamado Caburé, no interior do Maranhão, onde vivem 30 famílias de pescadores, durante cinco ou seis me­ses do ano. O tempo de permanência é determinado por dois fatores: a pesca e o vento. Enquanto a maré está para peixe, eles ficam ou, pelo menos, tentam. Chega uma hora em que a natureza os expulsa. As taperas são invadidas ou simplesmente tragadas pela areia. E aí é hora de voltar para a casa. Uma vida pautada pela mudança, o que exige alto grau de desapego. A cada semestre a rotina é alterada: emprego, casa, cidade. Deixam tu­do para trás, sem saber o que os espera na volta. Para entender a vida desse povo meio nômade, meio índio, a reportagem da Viver Bra­sil foi até lá.


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Dona Maria e seu Manoel não trocam Caburé por cidade nenhuma
Dona Maria e seu Manoel não trocam Caburé por cidade nenhuma

Caburé é um pequeno vilarejo, uma faixa de areia entre o rio Pre­guiça e o mar. Não consta nos registros do IBGE. Por isso, não é possível estimar o número de habitantes. Não há escola, hospital ou pos­to de saúde. Na verdade, as únicas coisas que existem ali são a vila dos pescadores e três modestas pousadas. “E isso é coisa recente”, avisa seu André. Ele é filho do primeiro habitante do povoado e garante que quando seu pai chegou ali só havia areia, mar e o rio. “Foi ele quem deu nome ao lugar. Tinha mui­to passarinho Caburé”, conta. A ave cultiva o hábito de esconder a cabe­ça na areia. O nome não poderia ser mais apropriado. Afinal, em Caburé, a areia costuma tomar o lugar das pessoas. André e a esposa Lindalva são os únicos que permanecem no local durante todo o ano. Por ser o primeiro morador, a cabana foi construída em local mais seguro, um pou­co afastado da vila. Segundo ele, a sua casa é uma das poucas que resistem à ventania e à invasão da areia.  

Ir para a cidade grande parece ameaçador. Lindalva cita o ocorrido com a filha Jocélia. Diferente dos ou­tros 13 irmãos, ela resolveu ganhar o mun­do. Foi parar na Espanha, on­de se casou e teve um filho. Tempos depois, veio a notícia de que tinha sido assassinada. O corpo nunca che­­gou para a família, assim como as explicações sobre a morte. Lin­dal­va guarda os recortes de jornais espanhóis que falam do caso não desvendado pela polícia. “Até hoje não sei o que fizeram com minha filha”, desabafa. 

Dona Lindalva dá banho de bacia na neta Mirelle
Dona Lindalva dá banho de bacia na neta Mirelle

Histórias como essa e tantas outras que eles assistem na televisão, quando estão nos municípios, faz com que a vontade de sair dali seja rara entre os moradores. Nelci Almeida Souza, 39, é um deles.  Ele já esteve em São Luiz e conhece outras cidades pela telinha. “Pelo que a gente vê nos jornais, na cidade é tudo muito perigoso. Aqui é mais tranquilo.” Quando acaba o período da pescaria, volta para Laranjeiras, onde fabrica tijolos. Há 20 anos, Nelci vai para Caburé com a família para viver da pesca. Esse ano resolveu mudar de atividade, abriu uma pequena mercearia no vilarejo. Lá vende de tudo um pouco: arroz, farinha, açúcar, banana e bebidas. O que sai mais? “A cachaça”, responde sem titubear.

A pescaria, assim como a rotina de Caburé, é definida pela maré. É ela quem dita o horário que os homens vão para o mar e as crianças para a escola. É só com barco que elas conseguem chegar a Barreirinhas, onde estudam. A maioria passa a semana no município, com algum parente. No fim da semana o barco as traz de volta. Já a rotina das mulheres não varia muito. Enquanto os maridos buscam o peixe, elas lavam roupas, bordam, cuidam dos filhos menores, arrumam a casa e adiantam o almoço. Tomam banho de mar ou de balde. Há uma bomba de onde puxam água dos lençóis freáticos. O sustento do mar chega com os maridos. Parte da pesca é vendida para as pousadas de lá, a outra segue de barco para Barreirinhas. O preço? Tem o peixe de primeira, que é 5 reais o quilo, o de segunda, a 4 e o de terceira, a 2 reais. Dá para tirar quanto por mês? “Sei dizer não. Mas dá pro sustento”, responde o João da Tereza.

A água é retirada dos lençóis freáticos por uma bomba
A água é retirada dos lençóis freáticos por uma bomba

O nome da mulher virou sobrenome. Dona Tereza faz questão de contar que tiveram sete filhos, mas que perdeu duas meninas quando eram bebês. A causa da morte? “Adoeceram”, é só o que ela sabe. “Só essa aí que de vez em quando fica aqui com a gente”, diz João apontando para  a filha Laurilene, que cozinhava no fogão de barro sob a luz de uma vela dentro da cabana. E quando chega a doença? “Vamos para o posto ou hospital em Mandacaru ou Barreirinhas”. O mais próximo fica a 15 minutos de barco. “Pra ganhar menino tem que ir pra São Luiz”, completa Marise. Aos 26 anos, ela já tem cinco filhos. Isso porque perdeu três. Pergunto se conhece algum método anticoncepcional. Surpre­enden­temente, ela mostra uma cartela de pílula. “Depois do último, o doutor me mandou tomar”. Se continuasse no ritmo, era capaz de chegar aos 30 com uma dúzia de filhos. 

Dona Maria, 60, é matriarca de uma das maiores famílias do povoado. Teve 12 filhos. Na casa dela e de seu Manoel são 15 redes, mas eles avisam: “Tá faltando muita gente. Já chegamos a colocar 38.” Como fazem para namorar ali? “Pra tudo nessa vida a gente dá um jeito, dona”, responde o simpático seu  Manoel. “Minha maior felicidade é ver a casa cheia e todo mundo comendo o peixe que eu busquei”, afirma ele. O prazer da esposa não é muito diferente. “Meu sonho é reunir os filhos e netos e fazer um grande almoço para todos”, conta dona Maria. Histórias de gente que não perde o sorriso do rosto e que precisa de muito pouco para ser feliz. Mesmo sabendo que, mais dia menos dia, sua morada será engolida pelas areias de Caburé.

Os bastidores desta matéria, você encontra no Blog da Redação.


 
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