A formação sociocultural do Brasil se deu por um processo de confluência de povos nativos, europeus e africanos. A quase totalidade dos indígenas desapareceu e os africanos foram inicialmente submetidos ao regime de escravidão. Com o império consolidou-se o patrimonialismo como base da organização social.
De tudo isso resultou uma sociedade desigual e injusta. Uma das suas principais características são as disparidades regionais, sociais e econômicas. Contudo, ao invés de rupturas e segregações, tem prevalecido ao longo de décadas um equilíbrio, resultante da síntese de contrários. Um tipo de complacência com o status quo. Uma das dimensões dessa convergência cultural é, por exemplo, o sincretismo religioso do país, pela combinação dos valores da religião católica com os das religiões africanas, cuja marca mais acabada é o filme “O Pagador de Promessas”, laureado com a Palma de Ouro no festival de cinema de Cannes.
Outro exemplo de sincretismo aceito e elemento importante de sucesso é o da música brasileira, desde os esforços de combinação do erudito com o popular de Villa Lobos a Radamés Gnatalli até Tom Jobim. A fusão do samba com o jazz gerou a bossa nova, o gênero internacionalmente mais aplaudido da música brasileira.
O sincretismo é o oposto da ortodoxia. É a aparência da tolerância, da adaptação ou daquilo que se convencionou chamar “o jeitinho brasileiro”.
Seria no mínimo curioso, senão improvável, se ele não se fizesse presente em outras esferas da vida cotidiana do país.
O que temos assistido nos últimos anos, alguns com indignação, outros com descrença e frustração, é o resultado desse sincretismo na vida política do país. Em vez de coerência, a passividade; ao invés da correção, a cooptação. Como os parlamentares refletem as diferenças da sociedade e não seguem necessariamente a formação ideológica de seus respectivos partidos, o presidente da República, em nome da governabilidade, acaba por buscar sua sustentação na composição política que lhe dê maioria, a qualquer custo. O governo Lula levou essa estratégia além do limite do razoável. A coerência foi jogada debaixo do tapete em nome da sustentação do poder. Mesmo parcela da população não identificada com o PT, mas que creditava a ele dose de confiança em certo comportamento ético, vê-se desiludida com o exagero nas composições e nas práticas políticas do governo Lula. A ideologia, substituída pelo pragmatismo; o fim, por fim, justificando incondicionalmente os meios. Tudo vale se o objetivo é o poder.
Esse sincretismo exagerado não afeta a popularidade do governo, e nem tampouco suas possibilidades eleitorais, posto que revela a leniência inconsciente da maioria da população, mas infelizmente impede mudanças profundas que poderiam levar a mais transparência, correção e eficiência na gestão pública, consequentemente a avanços importantes da democracia no Brasil. Enquanto o sincretismo cultural implica transformações, o político expressa o atraso.