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PsiqueA inveja mata?Quando ela é patológica e o ódio e sentimento destrutivo se agregam, tudo de pior pode acontecer
Texto: Daniele Hostalácio | Fotos: SXC / Paulo Werner
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Nossa cultura, talvez, seja uma grande cultivadora da inveja, já que desde muito cedo somos constantemente comparados. Com o irmão que é mais bonzinho ou com o primo que tira boas notas... Isso acontece na escola, na família, na sociedade. Aí começam as humilhações e as críticas, que fazem alguns se sentirem cada vez mais incapazes de ser e obter o que o outro tem. “Há uma tendência a supervalorizar o outro com tudo que ele tem e desvalorizar o que temos”, afirma Rosimeire. Olho gordo e mau-olhado são nomes que a cultura popular cunhou para inveja. Esse sentimento destrutivo é chamado de inveja patológica. “Acontece sempre que, ao invés de a pessoa perceber sua inveja como estímulo para seu crescimento, utiliza-a para atacar a pessoa que possui o objeto invejado ou então a reprime, transformando-se em alguém amargurado e infeliz”, explica o médico-psiquiatra Carlos Byington. Segundo ele, esse tipo de sentimento pode encobrir nossa dificuldade em lutar pelo que queremos e em afirmar o que sentimos, pensamos ou desejamos. Pode ainda encobrir o medo da disputa e da derrota, e dar lugar a toda sorte de defesas, inclusive a negação da inveja. Um caso clássico de inveja patológica está retratado na obra do escritor russo Aleksandr Púshkin, autor do poema Mozart e Salieri, que serviu de inspiração para o filme Amadeus, de Milos Forman. A hipótese que Púshkin lança em seu poema é a de que o compositor Mozart teria sido envenenado, por inveja, pelo maestro italiano Antonio Salieri. “Os dois eram músicos talentosos. Só que Mozart não foi apenas talentoso – foi genial. Salieri logo percebeu o quanto ele lhe era superior. Porém, ao lado de sua genialidade, Mozart era também muito imaturo. No primeiro encontro que tiveram, Salieri recebe Mozart tocando para ele uma música de sua autoria. Mozart agradece reproduzindo o tema da melodia, mas com muito mais riqueza e virtuosismo, humilhando Salieri diante da corte. Isso fere Salieri de tal maneira que ele passa a odiar Mozart. Sua inveja, inicialmente normal, passa a ser destrutiva”, resume Byington. Autor do livro Inveja Criativa - Uma Força Transformadora da Civilização, Byington explica que a inveja é uma função natural da vida que contribui para a estruturação da consciência. “Como todas as funções estruturantes, como o medo, respiração, prazer, marcha, amor, ciúme etc., a inveja pode ser normal ou patológica. O simples fato de desejar o que é do outro não é patológico, indica apenas que a pessoa reconhece no outro algo que lhe é significativo. Assim, a inveja indica caminhos, como o da vocação, o desejo de progredir, de aprender, de usufruir a vida, auto-afirmação.” Um bom exemplo é quando um homem tem inveja do relacionamento amoroso que um amigo possui com a esposa. “Sendo esta inveja criativa, ele buscará uma companheira com quem possa viver aquilo que inveja no casamento do amigo: harmonia, felicidade, ou o que quer que seja”, diz Byngton. A inveja deixaria de ser normal quando ela visa a atacar o objeto invejado, ao invés de se esforçar para adquiri-lo. A estudante Paula (nome fictício) foi vítima de um desses casos doentios. A família dela recebeu, dentro da própria casa, uma jovem prima, vinda do interior em busca de oportunidades de trabalho. A mocinha começou a sentir inveja da estudante, muito querida por todos. Um dia, Paula resolveu fazer uma escova progressiva no cabelo e o resultado agradou. Só que as madeixas dela não podiam nem chegar perto de produto químico. Poucos dias depois, ela foi lavar o cabelo e, ao colocar o xampu, sentiu forte cheiro de amônia. A prima, num rompante de inveja, havia misturado amônia ao xampu. O cabelo de Paula ficou todo avermelhado e, por sorte, não caiu. Casos como esse são de uma inveja destrutiva, que se resvala para ódio. É justamente por impedir nosso crescimento pessoal, e por aparecer sempre de modo destrutivo, que a inveja patológica acaba sendo mais prejudicial ao invejoso. “Mas, veja bem: o problema não é a inveja, mas o modo como ela se manifesta”, acredita Byngton. E quem estaria mais propenso a sucumbir à inveja patológica? Segundo o psiquiatra, a pessoa que tem dificuldade de ir em busca de si mesma e de afirmar o que quer. “A inveja nasce da auto-rejeição que fazemos conosco, por não acreditarmos em nossos potenciais e por procurarmos fora de nós as explicações de como devemos pensar, sentir, falar, fazer e agir, dando importância desmedida aos outros, supervalorizando-os”, acrescenta a psicóloga Rosemeire. No esforço para sair das garras desse sentimento, é importante aceitar-se como é, respeitando as diferenças e reconhecendo seus próprios valores. |
Recado aos invejosos“A inveja é uma tácita declaração de inferioridade” “Se você se comparar com os outros, você se tornará presunçoso e magoado, pois haverá sempre alguém inferior e alguém superior a você” “Para o ser pensante nada é realmente digno de inveja” “Somos obrigados a acreditar na sorte. Afinal, sem ela, como explicar “Nosso alvo na vida deveria ser não o de ultrapassar os outros, mas o de ultrapassar a nós mesmos” “Nunca um invejoso perdoa o mérito” É melhor ser invejado do que lastimado” “A inveja é mais irreconciliável do que o ódio” |