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ReportagemEles são cegos, mas enxergam longeEles transitam com agilidade neste mundo contemporâneo absurdamente visual e, ao contrário do filme Ensaio sobre a Cegueira, poderiam se perder se viessem a enxergar
Texto: Silvânia Arriel | Fotos: Pedro Vilela, André Fossati, Nélio Rodrigues
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Duas situações: uma, metafórica, de quem viu e deixou de enxergar por alguns dias, quase infinitos frente ao caos. A outra, verídica, dos que nunca puderam usar o globo ocular, a primeira se tem noção, a cegueira condensada em imagens está aí no filme, na literatura. Mas a segunda, a cegueira sem imagem, neste mundo contemporâneo mais afeito ao que se vê, do que às palavras, é inimaginável, inaceitável, improvável pela maioria dos mortais. Não ter idéia das cores, cidades, do rosto das pessoas, do céu, mar, pode parecer uma vida caótica, impossível, sem sentido. Como perceber o mundo sem vê-lo? O que poderia, à primeira vista, levar à degradação, como no livro, se dilui quando se convive com essa parcela da população. “A cegueira não tem o efeito devastador que a ela comumente se atribui. A gente vê porque as palavras existem, porque somos capazes de pensar”, diz a escritora Elizete Lisboa, formada em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Usam o que têm à disposição: tato, audição, leitura, tecnologia, o olho do outro para delinear seu mundo sem imagem, e surpreendem os de vista aguçada. “Aqui tem lanchonete, lá padaria”, diz a estudante Tássia Martins Fonseca, no centro de Belo Horizonte. Aprendeu a perceber o movimento, os ruídos de copos, xícaras, diálogos, pormenores que passam despercebidos à maioria das outras pessoas. Cada detalhe é identificado nas palavras. Age com desenvoltura, sem atropelos, anda por toda a cidade, conhece as pessoas de sua convivência pelo cheiro. “Sei quando alguém está mal-humorado”, conta a estudante. Mas este estado de espírito é raro para ela. Está sempre bem. Encontrou seu foco neste mundo sem imagem, mas harmonioso. Eles enfrentam preconceitos, mas tiram de letra, são dependentes para atravessar ruas, identificar dinheiro, formar conceitos sobre roupas e cores, ler correspondência fora do braile. Aprenderam a se virar neste labirinto existencial, de idéias preestabelecidas. |
“Desculpe-me a bagunça do quarto”, diz Maria Ana Simões Silva, auxiliar de radiologia, 20 anos. Mas o quarto está arrumado, em perfeita ordem: o computador e o telefone celular que falam, graças à tecnologia avançada, os bichos de pelúcia, as mais de 50 poesias em braile, que começou a escrever há oito anos. Prefere vestidos, porque são mais femininos e modelam o corpo. É apaixonada por vermelho, cor com que pinta as unhas. “Minha mãe não gosta,mas eu acho lindo.” Mesmo sem saber a razão, nem fazer idéia de que seja a cor. Traduz paixão, fogo. “Enxergar passa pelo viés da emoção”, explica a psicóloga Jackeline Figueiredo Barbosa Gomes, que trabalha com deficientes visuais há cinco anos. De outras vias, do olhar do outro, porque mesmo não formando imagem, se submetem ao crivo implacável da sociedade 100% visual e não há como fugir, se isolar nesta aldeia. “Daí vem a aprovação ou desaprovação”, afirma a psicóloga. Eles sabem que precisam ser aprovados, até mais, para não serem estigmatizados, discriminados e, aí sim, tornarem-se infelizes. “Se operam com base em sua auto-estima, parecem se perceber e perceber a sociedade de modo melhor”, analisa a também psicóloga Jaqueline Cristina Rossi, que fez estudo sobre a relação dos deficientes visuais com o mundo. |
Tássia, Maria Ana, Elizete percorrem com destreza o caminho entre a cegueira e a sociedade em que estão inseridas. “Lido bem com a cegueira. Sou feliz”, diz a escritora. “Minha filha sempre gostou de ter mãe cega.” Conta a travessura de Lisi, hoje estudante de psicologia, que quando criança dava o boletim para ela assinar no lado errado, só para a professora questionar. Afina o bom humor, com as palavras e a necessidade do olhar do outro para perceber o que deve vestir e o que é bonito. “Por exemplo, sei que os quadros de Portinari são lindos, que Ouro Preto é uma cidade com muita beleza. Mas eu sei isso, porque me contaram”, afirma Elizete Lisboa. Não se frustra por ter de terceirizar as impressões. “Ver ou saber que algo é belo traz uma energia boa para a vida da gente.” Sentem falta de pouca coisa, de mais livros escritos em braile. Acham-se numa quase completude, capazes de empalidecer as pessoas com a visão perfeita, com suas necessidades infinitas. Rafael Breno dos Santos Pereira, estudante na Pontifícia Universidade Católica (PUC Minas), só se queixa da falta de dirigir. “É meu único problema”, diz ele, vice-presidente do Diretório Central dos Estudantes (DCE), que não pára, assoberbado ora com campanhas políticas, ora com a liderança dos universitários. Se dirigisse poderia ser mais ágil no seu vai-e-vem, além de ser apaixonado por carros. Já fez curso de mecânica e, quando sobra tempo, é navegador de rali. “Sempre sonho que estou dirigindo.” |
Não, ele não tem só este problema. O outro foi fazer as pessoas crerem que estava com o traje certo, quando entrou no ônibus para ir a uma festa brega. “Me diziam: você está com a perna da calça dobrada, a outra não. De tênis e calça social”, relembra. Estava com a roupa correta, mas quem poderia imaginar que não seria um engano de quem não enxerga? Esta é uma das preocupações destas pessoas com deficiência visual, extremamente vaidosas, com receio de não estarem dentro das convenções sociais. “A maior gafe é vestir calça xadrez e blusa estampada”, afirma a professora Luzia Mendes Camargos, 53 anos. Isto aprendeu desde cedo, com a mãe. Suas roupas já ficam separadas, com as devidas combinações de cores, que garantem seu visual impecável. Transita com facilidade pela vida, casou com deficiente visual, cuida da casa, onde eletrodomésticos têm instruções em braile, varre descalça para sentir onde há sujeira. Só se perde quando tem visita e não sabe se está na hora de acender a luz. Está tão adaptada, se sente tão normal, que não pensa a vida de outra forma. “Acho que enlouqueceria se viesse a enxergar”, diz Luzia.Tem razão. Há casos descritos na literatura psicológica, de que pessoas cegas congênitas, com mais de 50 anos, que quando operadas e recuperada a visão, morreram em menos de cinco anos. “As explicações apontam a depressão, talvez pela falta de adaptação com o sentido visual precário, porque noções de profundidade, tamanho e distância precisam de experiência para se desenvolver, e também por refletirem em tudo que perderam até então”, diz a psicóloga Jaqueline Rossi. Teriam os mesmos problemas das pessoas ditas normais no livro Ensaio sobre a Cegueira: se perderiam neste outro mundo, o visual. O sinal ia abrir e não conseguiriam seguir com tanta claridade, cores, formas, edifícios, céu, gente. |