| |
Personagens
Olhai por eles
A revista Viver Brasil passou um dia numa casa de repouso em Lagoa Santa, região metropolitana de Belo Horizonte. Lá conheceu Dona Vera, Vó Preta, seu Adelino e outros internos, cada um com suas angústias, lembranças e sonhos
Texto: Raquel Ayres | Fotos: Daniel de Cerqueira
Envie seu comentário
“Me comparo a uma cadela que dorme quando escurece e acorda quando clareia. Não participo do coral porque quem canta na gaiola é passarinho. Me dá nojo ver quem está adaptado. A maioria daqui é desequilibrada.” Assim se sente a ex-jornalista Vera Lúcia Benedetti Campos, 62 anos e visivelmente insatisfeita. Mãe de um casal, ela vive há um ano em uma casa de longa permanência para idosos localizada em Lagoa Santa. Com a fala arrastada e raciocínio ágil, Vera diz que não sabe o que está fazendo lá. Segundo ela, foi levada pelo ex-marido e imaginava que iria para uma pensão da qual pudesse entrar e sair. Diz que sente falta da interação com gente que tenha as mesmas afinidades, reclama que os companheiros de morada desligam a TV na hora do noticiário. “Mas aqui não preciso de informação sobre nada mesmo. Passo o dia assentada, fumando. Prefiro ficar doente.”
|
|
Vó Preta: a bonequinha no quarto é seu grande xodó |
Na mesma instituição, mas em condições diversas, mora Efigênia Izabel, carinhosamente chamada de Vó Preta, idade estimada entre 80 e 102 anos. Há três sofreu acidente vascular cerebral (AVC), o que a obrigou a largar a atividade de empregada doméstica. Está na ala filantrópica e ocupa quarto modesto no qual uma bonequinha é seu xodó. O único parente, um irmão, mora em Itabirito (90 km de Lagoa Santa) e, segundo conta, foi visitá-la só uma vez. Vó Preta está na cadeira de rodas, mas o fato parece não incomodá-la; consegue se locomover e está sempre conversando com um e outro. Fala mansa, unhas pintadas de vermelho, diz que não tem do que se queixar. Reflete sobre a vida. “Achava que quando ficasse velha não ia ser muito diferente. Jovem, não pensava em doença. Eu pegava fogo! Mas sei que com o tempo vou ficar encostada, sem força pra fazer as coisas. Tenho medo só de me cansar.”
A situação de ambas não é incomum. Vera e Efigênia fazem parte dos 8,6% da população de idosos do Brasil. São 14,5 milhões de pessoas, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Estima-se que até 2020 a população nesta faixa etária – a partir de 60 anos – deve chegar a 30 milhões. Enquanto o idoso mantém autonomia, seu lugar está assegurado na estrutura familiar. Cuida de netos e sua aposentaria compõe a renda. Ao perder a independência, muitas famílias não têm como mantê-los, seja por questões financeiras ou desestruturação da rotina. As instituições surgem como alternativa, mas têm conotação de exílio, segregação, “como se fossem cemitério de elefantes”, aponta o geriatra e gerontólogo Antônio Roberto Pereira Casarões, que por 28 anos dirigiu um lar de idosos. Ele acrescenta que tais lugares reúnem grande número de doentes demenciais, o que gera sensação de finitude, tal qual a de Vera. Na opinião do geriatra, para que a pessoa se sinta confortável nestas questões ela deve participar do processo de escolha da nova casa, entender a situação como benefício e ter a certeza do não abandono. “Até a sociedade pré-industrial, ser velho não trazia marginalização.”
|
|
|
Casas de repouso podem reunir grande número de doentes demenciais, o que gera sensação de finitude |
Segundo a pesquisa Idosos no Brasil - Vivências, Desafios e Expectativas na 3ª idade - realizada em 2006, muitos acham que se entrarem não sairão mais. Sem falar na impossibilidade de passarem o dia fora e voltarem quando quiserem. O que, muitas vezes realmente é inviável, seja por limitações físicas ou psicológicas. “Vim parar aqui em circunstâncias misteriosas. Inadvertidamente aceitei o convite de um amigo pastor”, brinca o torneiro mecânico José Adelino Gomes Ratton, 72 anos. Pai de Robson, Ronaldo e Rosângela, ele foi recolhido depois de uma temporada de bebedeira e morava debaixo de um viaduto de Belo Horizonte. Ele chama seu quarto de apart-hotel. Da gaveta da cômoda tira os óculos e mostra: “lente bifocal. Leitura e cultura são boa distração.” Entre seus livros preferidos estão Pássaros Feridos e obras de Shakespeare. Também aprecia gibis. “Magali, adoro. Também danço tango.” Assentado na varanda, joga xadrez, ouve radinho e, apesar do português corretíssimo e do vocabulário rico, mistura fantasia com realidade; diz que uma jovem de 18 anos está apaixonada por ele. “Chama-se Rebeca, mesmo nome de um filme. Assim como Rita Haywort era Gilda. Dou conselhos e falo: cuidado com a liberdade. É perigosa, ninguém é de ninguém.” Se diz marido de Eny Aleixo Gomes, segundo ele, filha do ex vice-presidente Pedro Aleixo. “Fui trabalhar e quando voltei encontrei-a com outro. Hoje, está na miséria. Já me procurou, mas não quero nada com ela. Recordar o passado é sofrer duas vezes.”
Maria Beatriz Pierazoli Couto é gerente da casa de repouso. Apesar do lugar arborizado com lago artificial, área de 10 mil m2, viveiros de pássaros, estufa de violetas, capelinha, serviços de saúde, cuidadores, passeios nos fins de semana e um coral, ela reforça a fala do geriatra Roberto Casarões. “Ao perguntar para os idosos se eles querem vir para cá, ninguém quer. Alguns não têm para onde ir, mas falam que querem ir embora.” Assim como Aljean Tavares Cayô, o Janjan, 50 anos declarados, mas 67 de fato. O bonito senhor sonha ir para Ladainha, no sul de Minas. Fala que está perto de sair e encontrar as amizades. Teve uma namorada em Argirita e diz que “chato é ser incomodado pelos outros, quando as pessoas não me entendem.” Ele fuma de hora em hora e o relógio é peça central em sua vida.
|
|
|
José Adelino: “Uma jovem de 18 anos está apaixonada por mim. Chama-se Rebeca, mesmo nome de um filme” |
O tempo do relógio sem dúvida não é o mesmo que está na cabeça destes senhores e senhoras. O presente é conjugado com verbos do passado. Lá estão as lembranças acerca do marido ou da esposa já falecidos, dos filhos, agora casados e envolvidos com suas famílias. Da época em que freqüentavam festas e até a alta sociedade, conforme relembra Zilda Vitorino César de Souza, 88 anos mas “doida para fazer 100.” Viúva há 16 anos, ela diz que foi 8 muito feliz com o marido, com quem teve uma fazenda e freqüentou festas no Pampulha Iate Clube (PIC-BH). Gosta da vida onde está e não se sente idosa. “Sou é dengosa demais.” Nenhum traço de confusão mental há nela. No entanto, aos poucos o tom alegre vai cedendo e não esconde que achou difícil viver com a filha Mônica. Em casa brigava com um, outro, achava que dava trabalho apesar de ajudar financeiramente a família. Diz que não achou estranho o primeiro dia em Nossa Vivenda. Mas à medida que o assunto evolui recorda que quando chegou chorava de decepção; teve rusgas com o genro. Mas agora está feliz: não fazem diferença entre as pessoas e a previdência aumentou.
Não existe um momento na vida em que se deita jovem e acorda velho. Este é o último estágio do processo de evolução natural da vida. Até uma geração atrás, a idade definia como as pessoas deveriam se comportar, vestir, pentear. A balzaquiana nem pensa mais em casar e tais mudanças culturais são positivas. Se por um lado podemos esperar viver mais e melhor, é também verdade que o atual modelo de envelhecimento não agrada, e na sociedade ocidental não existe o papel do velho, avalia Casarões. “Até na literatura a velhice é considerada o sombrio inverno da existência. Cabe a nós reescrever o que é envelhecer. Estabelecer um modelo menos cruel.”
|
|
Busca no Portal
|