Sábado, 18 de Maio de 2013
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Entrevista

Partidos opostos

Depois da aliança informal entre PT e PSDB que elegeu Marcio Lacerda prefeito de Belo Horizonte, o presidente nacional do PT, Ricardo Berzoini, afirma que tudo continua como dantes: os tucanos não freqüentam a praia petista; e os petistas não se aproximam da lancha tucana

Texto: Iracema Barreto | Fotos: Rossana Lana / Ilustração: Paulo Werner


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Mesmo com a formalização da aliança tucano-petista em nada menos do que 1.130 cidades brasileiras, e da parceria entre os dois partidos – constantemente defendida pelo governador Aécio Neves (PSDB) e o prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel (PT) –, o presidente nacional do PT, Ricardo Berzoini, faz questão de frisar as diferenças de caráter político, ideológico e programático que  inviabilizam a união de PSDB e PT no plano nacional. Berzoini descarta qualquer tese de aliança para 2010 entre as duas legendas. Nessa entrevista à Viver Brasil, ele diz que as composições nos municípios foram feitas para atender às “correlações de forças locais” e afirma que o partido em Minas não está destruído, apesar da dissidência aberta durante as eleições. Para Berzoini, o debate sobre o veto da executiva nacional do PT à aliança com o PSDB na capital mineira foi superado, já que o apoio à candidatura do prefeito eleito Marcio Lacerda (PSB) foi informal. Mas admitiu a necessidade de aparar as arestas. “É hora de retomar o diálogo.”

 

Nas eleições municipais de 2004, a aliança PT/PSDB ajudou a eleger 149 prefeitos. Em 51 municípios, um dos partidos tinha o prefeito e o outro o vice. Desta vez, o TSE confirmou aliança formal em nada menos do que 1.130 cidades pelo país afora. Rejeitar essa união é andar na contramão?
Nas questões fundamentais para o desenvolvimento do Brasil como país mais justo, democrático e soberano, PT e PSDB há muito tempo andam na contramão um do outro, o que pode ser facilmente constatado na confrontação entre os dois projetos nacionais levados adiante pelos governos FHC e Lula. O PT defende o fortalecimento do Estado como forma de promover a efetiva distribuição de renda, de levar oportunidades para todos, de reduzir as desigualdades sociais e regionais e de induzir o crescimento econômico. Já o PSDB prega o Estado mínimo, a privatização e a desregulamentação – práticas que produziram cenários de intensa pobreza, desemprego e desigualdade nos chamados países periféricos (como o Brasil) e que, agora, arrastaram o mundo todo para a atual crise financeira. Os governos petistas democratizam o exercício do poder dialogando com os movimentos sociais e estimulando a participação popular na definição de políticas públicas; os tucanos costumam tratar estes mesmos setores com desprezo, arrogância e cassetetes. O PT defende a inserção soberana do Brasil na geopolítica internacional, com ênfase para a integração da América Latina; enquanto o PSDB advoga – e praticou quando esteve no poder central – uma relação submissa e subserviente com os países ricos, sobretudo os Estados Unidos. São estas principais diferenças, de caráter político, ideológico e programático, que inviabilizam a "união" de PSDB e PT no plano nacional. No plano municipal, os fatores determinantes para a construção de alianças normalmente são outros: têm mais a ver com o dia-a-dia das cidades e com a correlação de forças locais.

Apesar de terem dado certo em várias cidades, fato é que PT e PSDB são os maiores rivais na corrida pelo poder político nacional e têm priorizado as disputas pela sucessão presidencial desde 1994. Quais as regras básicas que as duas legendas terão de aceitar para que não haja retrocesso nas conversas?
Não há conversa com o PSDB para aliança nacional. Como disse, são projetos diferentes, que disputam os rumos do país.

Passada a eleição, como é possível, agora, reconstruir o PT em Minas, considerando que os dissidentes já até mesmo lançaram a candidatura do ministro Patrus Ananias com apoio de outras legendas?
Primeiro, o PT de Minas Gerais não foi destruído. Ao contrário: elegeu 109 prefeitos (evolução de 25% em relação a 2004) e conquistou ou manteve-se na prefeitura de algumas das cidades mais importantes do estado, como Contagem, Ipatinga e Betim, além de ter o vice-prefeito na chapa vencedora de Belo Horizonte. As tensões ocorridas em BH inserem-se num quadro de exacerbação comum a processos eleitorais em que há posições antagônicas claramente definidas. Passadas as eleições, os companheiros do PT de Belo Horizonte terão agora mais tranqüilidade para analisar todo o processo e buscar o melhor caminho para a unidade e o fortalecimento do programa partidário.

Essa briga interna pode trazer problemas para o partido em 2010?
As eleições de 2010 ainda estão muito longe. De concreto, posso afirmar que, quanto mais unido estiver o partido, mais chances terá de fazer o sucessor do presidente Lula.

O prefeito Fernando Pimentel acabou fazendo prevalecer o seu projeto político com a vitória de Marcio Lacerda. Ele sofrerá algum tipo de sanção interna pela insistência em relação à aliança? O senhor chegou a declarar que o assunto seria retomado logo após a eleição.
O Diretório Nacional do PT vetou a aliança com o PSDB em Belo Horizonte e o veto foi respeitado, pois o PSDB não participou da chapa que elegeu Marcio Lacerda. Do ponto de vista formal, portanto, este é um debate superado. Por outro lado, houve o "apoio informal", que acabou acirrando os ânimos entre as correntes locais pró e contra a aliança. Agora é hora de retomar o diálogo político e, repito, buscar o melhor caminho para o PT de BH.


O fato de o presidente Lula ter dado aval a essa união, de público, ameniza a situação de Fernando Pimentel?
Não houve manifestação pública do presidente Lula a favor ou contra a proposta de aliança entre PT/PSDB. Como presidente da República, Lula agiu com diplomacia toda vez que perguntado sobre o assunto, respeitando as divergências e encaminhando o debate para o partido. A interpretação que alguns fizeram deste comportamento democrático do presidente já é outra história.

As urnas mostraram que o PT foi o segundo partido em crescimento, enquanto o PSDB não registrou grande avanço. Que leitura o senhor faz? Acha que o PT sai mais fortalecido para as próximas eleições?
O PT foi o partido que mais cresceu em termos absolutos (148 novas prefeituras). Em termos percentuais ficou em terceiro (36% sobre 2004), atrás do PCdoB e do PSB. A partir de 2009, o PT vai governar para 20 milhões de pessoas (aumento de 17% sobre 2004), sem contar as cidades importantes onde tem o vice, como Belo Horizonte. No total, os partidos que compõem a base do governo Lula vão governar para 72% dos brasileiros, incluindo 20 das 26 capitais. Já o pior resultado eleitoral foi do PPS, que reduziu em 58% o número de prefeituras sob comando da sigla. Na seqüência vêm DEM (-37%) e PSDB (-10%). Os números mostram, portanto, que estas eleições fortaleceram o PT, os partidos da base aliada e o governo Lula, enquanto a
oposição foi reduzida.


 
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