O crescimento econômico dos últimos anos poderá ser fator importantíssimo para fazer com que a crise financeira mundial, que começou nos Estados Unidos e alastrou-se pela Europa, atinja o Brasil de forma bem mais amena, dizem alguns economistas. Mas nem todos pensam desta maneira. O chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn, declarou, no fim de outubro, que os países emergentes serão as próximas vítimas. Bem, o momento é mesmo de divergências. Ninguém é capaz de dizer, com clareza, os reflexos da crise daqui a alguns meses em qualquer país do mundo. Mas que tal enxergar uma luzinha no fim do túnel, que não a de um trem vindo em alta velocidade?
Por aqui alguns especialistas dizem que a crise já atingiu seu ápice e que os respingos estão bem mais fracos, embora o momento exija atenção do governo. A situação do país em relação às grandes potências é privilegiada devido ao seu bom desempenho econômico, que deverá sofrer desaceleração no próximo ano. A previsão é de que o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil em 2009 fique em torno de 3%, o que pode ser considerado muito bom, já que outros países desenvolvidos não deverão conseguir este índice. “É um desempenho positivo dada a proporção da crise no exterior”, analisa o professor de Mercado Financeiro da Trevisan Escola de Negócios, Alcides Leite. Ele diz que crescimento menor gera menos pressão inflacionária, que também poderá ser um trunfo para que o Banco Central reduza a taxa básica de juros, a Selic, atualmente em 13,75% ao ano.
Leite acredita, ainda, que além de o Brasil não ser tão prejudicado pela crise, terá ganhos futuros devido a ela, juntamente com China, Índia e Rússia. “Estes países poderão participar do grupo que protagoniza as decisões econômicas, ao lado das maiores economias mundiais, já no próximo ano”, prevê o professor da Trevisan. Com a participação das economias emergentes é provável que seja definida nova ordem na economia mundial.
Economia que, aliás, já viveu várias e fortes crises ao longo dos séculos, todas superadas. “Passamos por tantas turbulências e sabemos que nem sempre as coisas são tão feias quanto parecem”, analisa o diretor de Assuntos Internacionais da Associação Brasileira de Agências de Viagens (Abav), Leonel Rossi. Após o início da instabilidade do dólar houve queda de 25% a 30% nas vendas de pacotes turísticos. A boa notícia é que mais de 50% dos pacotes nacionais e internacionais para os meses de férias do fim de ano já foram vendidos. Rossi considera exagero o pessimismo das notícias divulgadas pela mídia sobre a crise e se diz otimista em sua superação.
Quem também está confiante é o empresário Ricardo Nunes, da Ricardo Eletro, uma das maiores redes de vendas de eletrodomésticos do Brasil. O otimismo é tanto que ele espera aumento de 10% no faturamento neste Natal. A aposta do empresário é na manutenção dos preços dos produtos que foram estocados antes da crise. “Temos reduzido a margem de lucro, evitando transferir aumentos para o consumidor”, justifica Nunes.
A American Airlines, maior empresa de aviação no mundo, também não deixou que a crise aterrissasse seus planos. A companhia iniciou recentemente três vôos semanais do aeroporto Internacional Tancredo Neves, em Confins, para Miami. Esse otimismo da empresa dos Estados Unidos, onde a crise foi iniciada, não é gratuito. De acordo com o economista Paulo Henrique Cotta Pacheco, o Brasil será um dos poucos países do mundo com possibilidades de investimentos claros. “Vamos continuar crescendo em 2009, mesmo que com menos intensidade. Como os investidores querem ganhar dinheiro, apostarão em países com economia em crescimento.” Quem sabe esta luz no fim do túnel não seja mesmo de dias mais iluminados.