Há um tambor num canto da sala. Tira sons cadenciados, harmoniosos pouco depois de abrir as portas de sua casa no amanhecer do primeiro sábado como vencedor das eleições em Belo Horizonte. “Quase todos os dias, na hora do café, eu toco. Remete às origens”, diz o reservado ex-empresário e prefeito eleito da capital mineira, Marcio Lacerda. Busca ali e também na meditação, na ioga, alinhar energia para ficar ligado às coisas terrenas. Mal tinha terminado a campanha, estava às voltas com duas reuniões em Brasília. Cinco dias depois, foi numa tarde ao Rio de Janeiro, voltou à noite e, no outro dia, visitou quatro bairros não percorridos na campanha. “Gosto de trabalhar e estou motivado.” Há o que fazer, preparar para atingir metas.
Está no lugar onde sempre quis: na vida pública. Toca novamente o tambor. Em sua casa, no Retiro das Pedras, há salas com vista para montanha, academia de ginástica, onde faz musculação e 260 abdominais, responsáveis pelo seu porte atlético. E ainda piscina aquecida, biblioteca, vara de pescar, remo de decoração. Num móvel, o plano de governo com imagens de Santa Terezinha de Lisieux e Nossa Senhora de Fátima, tudo devoção da 8 Regina, que não queria ter marido prefeito e acatou a escolha. É católico? “Fui criado na religião, mas não sou praticante. Acredito na ética cristã, de respeitar as pessoas, de enxergar suas necessidades.”
Crê numa sabedoria superior. “Ela ilumina a vida da gente, porque as sombras estão sempre presentes. O mal é algo intrínseco em qualquer ser humano.” Filosofa, faz ioga para se ligar à terra. Está no café da manhã, com o motorista José Carlos Santana ao lado, à espera, sempre sorridente. “Marcio é mais que patrão”, diz ele, que começou trabalhando nas empresas como motorista de caminhão há 28 anos, foi padrinho de casamento de Juliana e de Tiago, filhos de Lacerda, e herdou a casa da família em Três Marias, onde iam pescar. Os filhos do patrão passaram a ser seus hóspedes. Não tem do que reclamar.
Nem o patrão. Foi graças a carreira de empresário bem-sucedido que Lacerda conquistou uma vida confortável. Com patrimônio para velejar mundo afora, mergulhar em mar seguro, pescar sem se preocupar em fisgar peixe. Mas tudo aconteceu porque houve uma cela, uma prisão em sua trajetória. Assim, se desviou da política e fez riqueza como empresário. A história começa em Leopoldina, onde nasceu, passa por Inhapim, na Zona da Mata, e estica em BH. “Desde pequeno tinha sensibilidade em relação ao sofrimento das pessoas”, lembra. Das que passavam em pau-de-arara, na Rio-Bahia, em sua Inhapim, inclusive o menino Luiz Inácio Lula da Silva. “Estava conversando com o presidente e perguntei: o senhor foi para São Paulo pela Rio-Bahia? Li em sua biografia que era em 1952. Ele disse que sim. Quem sabe se não o vi passando lá”, relata. Nesta época os dois tinham sete anos. “Sou um mês mais novo.”
Caso se cruzaram nesta estrada só é uma hipótese desvanecida no século passado. Sabe-se que Lacerda ganhou a eleição para o grêmio estudantil, em Inhapim, aos 14 anos, e sobressaía entre os alunos do ginásio estadual. “Ele lia muito, bem mais que a gente”, relembra o agricultor Targino Lucca de Souza. Depois veio para a capital mineira estudar no Cefet, onde foi diretor cultural, se filiou ao Partido Comunista e na resistência à ditadura acabou preso. Foram três anos e 10 meses, dos 23 aos 27 anos, em cadeias de Belo Horizonte e Juiz de Fora. Houve período que ficava 30 dias sem sair do cubículo, não podia conversar, ver o sol, a luz ligada 24 horas por dia. “Me tornei mais próximo dele nesta época, quando compartilhamos, digamos assim, a mesma prisão política”, diz o prefeito Fernando Pimentel, a quem será sucedido por Lacerda. Suas celas ficavam de frente uma para outra, na prisão de Linhares, em Juiz de Fora.
“Não saí de lá traumatizado, sem um pedaço. Acho que numa situação limite você conhece as suas 8 forças e fraquezas”, afirma Lacerda. Apurou as forças: retomou o curso de Administração na UFMG, arranjou emprego na empresa de engenharia Tele-América (foi impedido de voltar a sua vaga na antiga Telemig por estar em liberdade condicional) e casou com a psicóloga Regina Lacerda. “Conheci o Marcio num bar da Savassi. Estava com uma amiga, ele pediu para sentar”, conta. Sete meses depois tinham se casado. Lacerda tirou da falência a empresa onde trabalhava e assumiu o comando. Deu o primeiro emprego, com carteira assinada, a Fernando Pimentel.
Mas ainda estava em liberdade condicional, teve de se afastar e voltou aos poucos à empresa, que estava no nome da mulher. “Fui a Brasília pedir compaixão aos militares”, diz Regina. Época em que estava grávida e perdeu a criança. Logo vieram os outros filhos, o primogênito Gabriel, depois Juliana, Tiago e a ascensão empresarial, já com a Construtel. “Quando houve a anistia nem dava para mexer com política”, afirma o prefeito eleito. Já havia a Batik, outra empresa de telecomunicações, a expansão para o exterior, as normas de gestão para serem seguidas, os filhos criados no trabalho. “Eles aprenderam cedo outra visão de mundo, não têm nada a ver com grifes, badalações”, relata a psicóloga, que era responsável pelo recursos humanos das empresas.
Seguiam normas: o que não adiantava nem pedir, o que era negociável e o liberado. Que se repetiam nas empresas, como no Manual de Conduta Ética, um dos primeiros no país, que proibia o recebimento de brindes indevidos, só permitia a demissão de funcionários com o aval de dois diretores e recomendava não chegar atrasado. Que Marcio Lacerda segue: “Não gosto de deixar ninguém esperando. Até hoje nas reuniões dou 10 minutos de tolerância.” Se não chegou a tempo fica para trás. Estava antenado com a crise advinda com a privatização das telecomunicações, vendeu a Batik para a multinacional Lucent, repartiu 1,5 milhão de dólares entre os funcionários. “Distribuímos 20% da venda dentro de critérios. Separamos em envelopes”, diz Regina.
O engenheiro Edson Celeste Lima de Oliveira recebeu a sua parte, investiu na troca de carro, e teve o emprego garantido, uma das cláusulas para a venda à Lucent. “Quando a gente nem lembrava mais de Marcio Lacerda, lá veio ele distribuindo o que havia ficado retido na conta para o caso de questões trabalhistas e dívida com fornecedores”, afirma. Deixou o nome lá, vendeu a Construtel, construiu patrimônio de 55,5 milhões de reais e foi procurar o que queria: a vida pública. Ofereceu ajuda na campanha do deputado federal Ciro Gomes à presidência da República em 1998, 2002 e acabou assumindo a função de secretário-executivo do Ministério da Integração, no primeiro governo de Lula.
Quando deixou o cargo foi velejar, gosto afinado com o pai, o topógrafo Reynaldo Lacerda, pelos mares do Mediterrâneo, Caribe. Não era só isso que queria, desviou sua rota de mares e mergulhos para terra firme, como secretário de Desenvolvimento Econômico de Minas. Em janeiro deste ano recebeu o convite para enfrentar as urnas. Não havia mais celas, impedimentos, empresas a administrar. Resolveu avançar neste terreno eletivo.
Amigos e a mulher Regina não se conformavam com a decisão. “O caminho político é doloroso.” Mas estava decidido e ela resolveu apoiá-lo depois das ponderações. “A gente fica o tempo todo criticando, falando mal do governo e quando aparece a oportunidade tinha de colocar minhas idéias em prática, pegar e fazer”, argumenta Marcio Lacerda. Lá foi ele para a campanha, à sombra do prefeito Fernando Pimentel e do governador Aécio Neves, numa aliança de dois partidos adversários, no mito de que poderia ser eleito quem quer que fosse. O primeiro turno mostrou que não. “Confesso que na noite de 5 de outubro (dia da eleição) já estava reagindo. Acabou a coletiva, chamei o Pimentel, mudamos a estrutura de campanha. Passei a impor um pouco mais.” Admite que não ganhou por incompetência, por não ter participado dos debates. Foi à luta e recolheu das urnas 767.332 votos (59,12% dos válidos) para assumir em janeiro a cadeira, onde se assentou Juscelino Kubitschek. Agora, lá vai Lacerda se preparar para colocar em prática seu plano de governo. “Temos de atender melhor e mais rápido o cidadão”, diz. Agora tem 2,4 milhões de pessoas de olho nele. É tocar o tambor e puxar o fio da energia.