Segunda, 21 de Maio de 2012
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Alimentação

Gordura invisível

Os magros que se cuidem: doenças associadas à obesidade podem afetar quem não é gordo

Texto: Elisângela Orlando | Fotos: Daniel de Cerqueira


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Renata Almeida: doces fora do cardápio para reduzir o colesterol

Se você vive em paz com a balança, não se preocupa com dieta – afinal, tem o peso adequado – e acha que doenças ligadas à obesidade, como colesterol alto e hipertensão, são fantasmas que nunca vão bater na sua porta, é melhor tomar cuidado. Ser magro não é sinônimo de vida saudável. O consumo de alimentos ricos em gorduras saturadas e o sedentarismo têm feito com que muitas pessoas com peso normal tenham alto nível de gordura no organismo, o que aumenta a chance de desenvolverem problemas que, antes, só preocupavam os gordinhos.

Foi o que aconteceu com a médica veterinária Renata Kelly de Al­meida, 30. Há dois anos, ela descobriu que estava com altas taxas de colesterol e triglicérides. Ela me­de 1,55m e pesa 45kg. “A gente sempre acha que quem é magro não precisa ter nenhum tipo de restrição na alimentação”, diz. Mesmo assim, teve de riscar os doces do cardápio e iniciar atividade física para vencer a doença.

Casos como o de Renata estão se tornando cada vez mais comuns. Isso acontece porque o método mais utilizado para identificar se uma pessoa é ou não obesa é o Índice de Massa Corporal (IMC), uma equação entre peso e altura que, porém, não distingue massa muscular da gordura (ver quadro).

Em razão disso, esse método tem se mostrado cada vez mais ineficaz. Que o diga a psicóloga Mary Ângela Silva Fernandes, 41. Há alguns anos, ela descobriu que seu percentual de gordura estava em 29% e a taxa de colesterol aumentada, mesmo pesando 48 kg e tendo 1,53m de altura, o que representa  IMC de 20,5, considerado normal. “Precisei mudar a alimentação e praticar exercícios. Hoje, peso 51 kg, mas meu percentual de gordura é de 18% e não tenho mais problemas de colesterol.”

Estudos recentes comprovam: doenças associadas à obesidade não são exclusivas de quem está acima do peso. Pesquisadores da Clínica Mayo, nos Estados Unidos, divulgaram estudo realizado com 2.127 pessoas com IMC adequado. O resultado foi surpreendente: mais da metade tinha excesso de gordura corporal. Entre as mulheres, o índice foi superior a 30% e, no caso dos homens, maior do que 20%.


Júnia com o irmão Gabriel: mesmo com peso adequado, ela deu adeus às guloseimas
Júnia com o irmão Gabriel: mesmo com peso adequado, ela deu adeus às guloseimas

Ao avaliar a saúde dos participantes, os cientistas descobriram que, mesmo com um peso apropriado, quem tinha excesso de gordura corporal estava mais vulnerável a doenças normalmente associadas à obesidade. Ainda conforme a pesquisa, 62% das pessoas analisadas foram diagnosticadas com o que eles chamaram de "obesidade do peso normal".

Não há estudos semelhantes no Brasil. Segundo o endocrinologista Márcio Mancini, presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obe­sidade e da Síndrome Metabólica (Abeso), números do IBGE apontam que 13% das mulheres e 9% dos homens no país são obesos e que cerca de 40% dos brasileiros têm excesso de peso. Mas o estudo foi feito levando-se em conta o IMC.

O que fazer então para descobrir qual o percentual de gordura? A nutricionista Melissa Helena da Cruz, especialista em obesidade e emagrecimento, diz que o método mais preciso em pessoas magras é a medição de pregas cutâneas, que pode ser feito por um nutricionista, fisioterapeuta ou educador físico. O ideal é que esse percentual seja inferior a 26%. O sedentarismo e a alimentação rica em gordura saturada e carboidratos refinados são os principais vilões nesses casos. “Esses alimentos se armazenam no organismo em forma de triglicérides, o que contribui diretamente para o aumento do colesterol”, ressalta Melissa.

E não são apenas os adultos magros que estão sujeitos a esses tipos de problemas. Exemplo disso é o que aconteceu com Júnia Gabriela Nunes Viana, hoje com 9 anos. A mãe, Maria Viviane Fátima Nunes Pimenta Viana, conta que, com pouco mais de 1 ano, a menina comia pouco, pois tinha refluxo. Para agradá-la, o avô a enchia de guloseimas. Júnia acabou desenvolvendo hipercolerestemia (colesterol alto) e teve de fazer tratamento e dieta durante um ano para se livrar da doença.

Se antes a balança era o inimigo número um dos gordinhos, agora quem é magro também tem motivos de sobra para perder o apetite. Afinal, todo cuidado é pouco quando o assunto é saúde.

Mary Fernandes: mudança na alimentação para eliminar o excesso de gordura corporal
Mary Fernandes: mudança na alimentação para eliminar o excesso de gordura corporal

Métodos de avaliar a obesidade

1  l  Índice de Massa Corporal (IMC)
Trata-se de uma equação entre o peso e a altura, porém, não faz separação entre massa muscular e gordura. O cálculo é feito dividindo-se o peso pela a altura ao quadrado.

Exemplo:
Uma pessoa com 1,65m e 55 kg: 55 ÷ (1,65 x 1,65) = 20,20
 
Resultado:
Até 18,4: magro
De 18,5 a 24,9: normal
De 25 a 29,9: excesso de peso
De 30 a 34,9: obesidade grau 1
De 35 a 39,9: obesidade grau 2
40 ou maior: obesidade grau 3

2  l  Dobra cutânea
Utiliza-se um aparelho chamado plicômetro ou adipômetro, que mede o índice de gordura subcutânea. É mais indicado para pessoas com peso adequado, pois obesos costumam ter muita gordura visceral.

3  l  Bioimpedância
Muito usado em academias de ginástica, deve ser realizado com cuidado, pois fatores como a prática de exercícios e a ingestão de líquidos logo antes da medição podem afetar o resultado.

4  l  Circunferência abdominal
Utiliza uma fita métrica para identificar a gordura abdominal. É um método prático e barato, mas a medida adequada pode variar de acordo com a etnia. No Brasil, o valor-limite para a circunferência abdominal em mulheres é 80 cm e nos homens 90 cm.


 
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