Tudo começou com uma forte dor no ombro. Pouco tempo depois, o que parecia ser um simples mau jeito se transformou em um problema sério. Durante quase dois anos, a jornalista Luciana Rocha, 33, recorreu a vários especialistas em busca de um tratamento que pudesse pôr fim àquele sofrimento. Foram vários diagnósticos, inúmeros exames, incontáveis seções de fisioterapia, mas pouca melhora. “Alguns médicos me disseram que eu teria de conviver com esse problema para o resto da vida.”
Estavam enganados. O que não sabiam era que Luciana tinha Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG). A doença, de origem psiquiátrica, é caracterizada por uma ansiedade exagerada, patológica. Ela se manifesta por meio de vários sintomas, entre eles a tensão muscular, que pode causar fortes dores no corpo. Durante seis meses, Luciana fez uso de medicamentos antidepressivos e ansiolíticos e decidiu mudar de hábitos. “Antes, eu me preocupava com tudo, até mesmo com coisas que não podia controlar. Hoje, sou uma nova pessoa”, conta a jornalista, ao ressaltar que a fé também foi uma aliada importante no combate ao transtorno.
Mas como uma doença de origem psíquica pode desencadear dores tão fortes? “Se o indivíduo não encontra uma forma mais elaborada para expressar sua ansiedade por meio da verbalização de seus sentimentos e temores, o caminho mais curto é dar vazão pela via corporal”, explica a psicanalista e psicóloga Vanessa Torres de Oliveira. E como diferenciar esse transtorno psiquiátrico da ansiedade comum? Esta última é considerada uma função de adaptação e de sobrevivência às necessidades e dificuldades que enfrentamos ao longo da vida desde o nascimento. “Já o TAG é caracterizado por uma ansiedade desproporcional, cujos sintomas devem persistir por pelo menos seis meses ou mais”, explica Luiz Vicente Figueira de Mello, psiquiatra supervisor do Ambulatório de Ansiedade (Amban) do Hospital das Clínicas da USP.
Outro ponto importante é se a ansiedade traz algum desarranjo no funcionamento social e ocupacional do sujeito. Foi o que aconteceu com Marília Joviano Proença, 47. O transtorno trouxe vários problemas para a vida da professora que, entre outros sintomas, passou a ter medo de sair de casa e de ficar muito tempo em lugares fechados. A tristeza tornou-se companheira constante. Ela passou a sentir uma espécie de inquietação contínua, além de taquicardia e fadiga excessiva. A resposta para o problema, porém, só veio quatro meses mais tarde, após consulta com o psiquiatra. Hoje, além da medicação, Marília faz terapia e procura se controlar. “Passei a ouvir mais música e a fazer caminhadas diárias, o que tem me ajudado a superar a ansiedade.”
A psicoterapia, por sinal, é considerada uma das armas mais importantes no tratamento do TAG. Segundo Vanessa Torres de Oliveira, em ação conjunta e bem articulada, o psiquiatra e o psicólogo podem ajudar o paciente a compreender e gerenciar suas dificuldades.
O Transtorno de Ansiedade Generalizada é mais uma doença dos tempos modernos. O crescimento populacional mundial, os acúmulos nos centros urbanos, a violência generalizada, o surgimento de novas patologias, o prenúncio de catástrofes globais e a circulação ampliada das comunicações em tempo real, tornam os agentes desencadeadores de ansiedade e medo mais visíveis e podem alcançar pessoas de todas as idades e em todos os lugares. O TAG já afeta de 2 a 4% da população mundial. “Estudos científicos apontam para uma pré-disposição biológica, maior incidência nos familiares de primeiro grau, ainda que não haja dados conclusivos sobre a origem da patologia”, diz o supervisor do Ambulatório de Ansiedade do Hospital das Clínicas da USP, Luiz Vicente Figueira de Mello.
Jovens submetidos a grande número de compromissos costumam ser as principais vítimas, bem como as mulheres. A explicação que se tem hoje na psiquiatria é que isso ocorre devido a questões relacionadas à constituição do sistema nervoso feminino. “Em tese, a mulher teria predisposição neurobiológica maior a ter esse quadro”, esclarece o psiquiatra Ismael de Oliveira Sobrinho.
A cura do TAG ainda é um tema controverso. Os especialistas concordam que, juntamente com o tratamento medicamentoso e a psicoterapia, o paciente deve tentar mudar os hábitos de vida. O primeiro passo, talvez, seja seguir os conselhos milenares deixados pelo próprio Jesus Cristo: “Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal” (Mateus 6:34).