Segunda, 21 de Maio de 2012
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Vida Moderna

Ansiedade que dói

Ser excessivamente ansioso pode causar dores pelo corpo. Transtorno é de difícil diagnóstico, mas tem tratamento

Texto: Elisângela Orlando | Fotos: Daniel de Cerqueira


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Tudo começou com uma forte dor no ombro. Pouco tempo depois, o que parecia ser um simples mau jeito se transformou em um problema sério. Durante quase dois anos, a jornalista Luciana Rocha, 33, recorreu a vários especialistas em busca de um tratamento que pudesse pôr fim àquele sofrimento. Foram vários diagnósticos, inúmeros exames, incontáveis seções de fisioterapia, mas pouca melhora. “Alguns médicos me disseram que eu teria de conviver com esse problema para o resto da vida.”

Estavam enganados. O que não sabiam era que Luciana tinha Transtorno de Ansiedade Ge­ne­ralizada (TAG). A doença, de origem psiquiátrica, é caracterizada por uma ansiedade exagerada, patológica. Ela se manifesta por meio de vários sintomas, entre eles a tensão muscular, que pode causar fortes dores no corpo. Durante seis meses, Luciana fez uso de medicamentos antidepressivos e ansiolíticos e decidiu mudar de hábitos. “Antes, eu me preocupava com tudo, até mesmo com coisas que não podia controlar. Hoje, sou uma nova pessoa”, conta a jornalista, ao ressaltar que a fé também foi uma aliada importante no combate ao transtorno.

Mas como uma doença de origem psíquica pode desencadear dores tão fortes? “Se o indivíduo não encontra uma forma mais elaborada para expressar sua ansiedade por meio da verbalização de seus sentimentos e temores, o caminho mais curto é dar vazão pela via corporal”, explica a psicanalista e psicóloga Vanessa Torres de Oliveira. E como diferenciar esse transtorno psiquiátrico da ansiedade comum? Esta última é considerada uma função de adaptação e de sobrevivência às necessidades e dificuldades que enfrentamos ao longo da vida desde o nascimento. “Já o TAG é caracterizado por uma ansiedade desproporcional, cujos sintomas devem persistir por pelo menos seis meses ou mais”, explica Luiz Vicente Fig­ueira de Mello, psiquiatra supervisor do Am­bulatório de Ansiedade (Amban) do Hospital das Clínicas da USP.

Outro ponto importante é se a ansiedade traz algum desarranjo no funcionamento social e ocupacional do sujeito. Foi o que aconteceu com Marí­lia Joviano Proença, 47. O trans­­torno trouxe vários problemas para a vida da professora que, entre outros sintomas, passou a ter medo de sair de casa e de ficar muito tem­­po em lugares fechados. A tristeza tornou-se companheira constante. Ela passou a sentir uma espécie de inquietação contínua, além de taquicardia e fadiga excessiva. A res­posta para o proble­ma, porém, só veio quatro me­ses mais tarde, após consulta com o psi­quiatra. Hoje, além da medicação, Marília faz terapia e procura se controlar. “Passei a ouvir mais música e a fazer caminhadas diárias, o que tem me ajudado a superar a ansiedade.”

A psicoterapia, por sinal, é considerada uma das armas mais importantes no tratamento do TAG. Se­gun­do Vanessa Torres de Oliveira, em ação conjunta e bem articulada, o psiquiatra e o psicólogo podem ajudar o paciente a compreender e gerenciar suas dificuldades.
 O Transtorno de An­siedade Ge­neralizada é mais uma doen­ça dos tempos modernos. O crescimento populacional mundial, os acú­mulos nos centros urbanos, a violência ge­neralizada, o surgimen­to de no­vas patologias, o prenúncio de catástrofes globais e a circulação ampliada das comunicações em tem­po real, tornam os agentes desencadeadores de ansiedade e medo mais visíveis e po­dem alcançar pessoas de todas as idades e em todos os lugares. O TAG já afeta de 2 a 4% da população mundial. “Estudos científicos apontam para uma pré-disposição biológica, maior incidência nos familiares de primeiro grau, ainda que não haja dados conclusivos sobre a origem da patologia”, diz o supervisor do Am­bu­latório de Ansiedade do Hospital das Clínicas da USP, Luiz Vicente Figueira de Mello.

Jovens submetidos a grande número de compromissos costumam ser as principais vítimas, bem como as mulheres. A explicação que se tem hoje na psiquiatria é que isso ocorre devido a questões relacionadas à constituição do sistema nervoso feminino. “Em tese, a mulher teria predisposição neurobiológica maior a ter esse quadro”, esclarece o psiquiatra Ismael de Oliveira Sobrinho.

A cura do TAG ainda é um tema controverso. Os especialistas concordam que, juntamente com o tratamento medicamentoso e a psicoterapia, o paciente deve tentar mudar os hábitos de vida. O primeiro passo, talvez, seja seguir os conselhos milenares deixados pelo próprio Jesus Cristo: “Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal” (Mateus 6:34).


Marília Proença: música e caminhadas para amenizar a ansiedade
Marília Proença: música e caminhadas para amenizar a ansiedade

Transtorno de ansiedade generalizada (TAG)

É um transtorno psiquiátrico que acomete em torno de 2 e 4% da população mundial. Caracteriza-se por uma resposta de ansiedade desproporcional ao estímulo causador da mesma. É classificado no manual  diagnóstico e estatístico de doenças mentais (Dsmiv) como ansiedade patológica, juntamente com mais nove transtornos como a Síndrome do Pânico e o Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC)

Sintomas
  1  |  Dificuldade para relaxar ou a sensação de que está a ponto de estourar, ou no limite do nervosismo
  2  |  Cansar com facilidade
  3  |  Dificuldade de concentração e freqüentes esquecimentos
  4  |  Irritabilidade
  5  |  Tensão muscular
  6  |  Dificuldade para adormecer ou sono insatisfatório
  7  |  Boca seca
  8  |  Mãos ou pés úmidos
  9  |  Enjôos ou diarréia
10  |  Aumento da freqüência urinária
11  |  Sudorese excessiva
12  |  Dificuldade de engolir ou sensação de um bolo na garganta
13  |  Assustar-se com facilidade e de forma mais intensa
14  |  Sintomas depressivos são comuns desde que não sejam mais marcantes que os de ansiedade, pois isso mudaria o diagnóstico.

Diagnóstico
Para que se faça o diagnóstico é preciso descartar a ocorrência de outros transtornos mentais e eliminar a possibilidade de o estado estar sendo causado por alguma substância ou doença física. É necessário ainda que essa ansiedade excessiva dure por mais de seis meses, sendo diferenciada da ansiedade normal.

Utilizam-se os critérios clínicos listados no manual diagnóstico Dsmiv. Não há exames laboratoriais que comprovam o TAG. A história de vida, evolução desde a infância e ou adolescência são importantes.

Tratamento
É feito com psicoterapia (comportamental-cognitiva) e, em alguns casos, com uso de remédios sob orientação psiquiátrica.

Fontes: Dr. Luiz Vicente Figueira de Mello, dr. Ismael de Oliveira Sobrinho e dra. Vanessa Torres de Oliveira.


 
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