Menino ou menina? A resposta é simples, já que o sexo do ser humano pode ser facilmente identificado, antes mesmo de uma pessoa vir ao mundo. Mas, para além da anatomia, existem os desejos, escolhas, experiências de vida, as alquimias genéticas, o ambiente cultural e as relações familiares. Descortina-se um leque de possibilidades. Mas em que momento a orientação se define? Onde situar a origem dessa definição? A questão tem intrigado especialistas de diferentes áreas do conhecimento, e permanece sem resposta.
Embora a pergunta diga respeito à vida íntima de cada um, ela é palco de uma acirrada disputa pública. De um lado, os adeptos de uma visão biológica – aqueles que acreditam que a orientação sexual se dá ainda na vida intra-uterina, como resultado da genética ou da exposição a certos hormônios. De outro, alguns psicólogos e psicanalistas, que defendem a tese de que as experiências de vida e o contexto familiar são decisivos. Mas, num ponto, todos concordam. O termo orientação sexual é considerado o mais correto para indicar o gênero pelo qual uma pessoa se sente atraída fisicamente, e não mais opção sexual. Isso porque, para além das possíveis escolhas, existem fatores que escapam ao sujeito e que podem ser determinantes nas suas preferências.
De acordo com a psicóloga Ana Luíza Ferraz, os mais recentes estudos realizados no campo da sexualidade revelam que ainda na infância, ao redor dos sete anos de idade, a tendência sexual começa a se desenhar. “O que geralmente ocorre é que a criança, nessa idade, tenta reunir-se a outras do sexo com o qual ela irá se identificar psicologicamente”, explica. É que, lembra a psicóloga, no sentido fisiológico as pessoas podem ter sua identidade sexual definida, mas o mesmo não ocorre com o sexo psicológico. “Por isso a sexualidade se apresenta numa escala variante que vai desde um comportamento extremamente feminino numa mulher, passando pelas pouco femininas ou masculinizadas, até homossexuais femininas; da mesma forma, podemos encontrar homens pouco masculinos, feminilizados e homossexuais masculinos”, completa.
Se a tese biológica prevalece, a orientação sexual passa a ser algo determinado quando o sujeito ainda está sendo gestado. É o que argumentam os defensores de que a homossexualidade, heterossexualidade ou bissexualidade têm determinação puramente nos genes e hormônios. Alguns pesquisadores já concluíram que há diferenças biológicas entre pessoas homossexuais e heterossexuais. “Alegam também que alguns fetos do sexo masculino, com predisposição genética para a homossexualidade, são incapazes de absorver corretamente a testosterona no processo de desenvolvimento, de modo que os circuitos neurocerebrais, responsáveis pela atração pelo sexo oposto, ou nunca se desenvolvem ou o fazem de forma deficiente”, explica Ana Luíza.
Os contrários às argumentações apenas biogenéticas são aqueles que situam a origem da orientação sexual como um processo que pode até se iniciar antes do nascimento de uma pessoa, mas certamente se estende pelo menos até o início da fase adulta. “A verdade é que ninguém sabe dizer, ainda, em que idade uma pessoa define sua orientação sexual. Acredito que isso ocorra em algum momento entre o período pré-natal e a adolescência. Mas estudos de hoje indicam que a fase pré-natal talvez seja, mesmo, a mais importante nessa definição”, avalia o sexólogo Gérson Lopes.
Entre os homossexuais masculinos, relatos indicam que, de modo geral, eles localizam na infância o momento em que se deu a definição de sua orientação sexual. “Entre as mulheres, o que escuto é que a definição acontece, quase sempre, na adolescência”, conta a psicanalista Cristina Drummond. Contrária à tese puramente biológica, ela acredita que a orientação sexual acaba envolvendo, sim, uma escolha que terá forte relação com a história de vida de cada um. “Essa definição tem a ver com os modelos amorosos que o indivíduo teve, com suas experiências, com o ambiente em que foi criado”, afirma. Até mesmo um único fato pode ser determinante na orientação sexual de uma pessoa. Muitos homossexuais masculinos relatam que foram abusados sexualmente e que essa experiência traumática foi determinante. “A homossexualidade fica como uma resposta que o sujeito encontra na vida para organizar aquela experiência. Mas é claro que essa experiência fica, também, como algo muito além da escolha sexual”, diz Cristina.
Um fator importante no desenvolvimento da sexualidade, a questão da cultura, lembra o sexólogo Marcos Ribeiro, inicia-se a partir do momento em que a criança nasce. “Além do aparelho genital, há o sexo com o qual somos criados – e aí, desde já, começa a atuar a questão cultural”, explica. Nessa discussão, ressalta Ribeiro, é fundamental separar orientação sexual e identidade sexual. A segunda seria o conjunto de comportamentos associados com masculinidade ou feminilidade, dentro de um grupo ou sistema social. Trata-se de algo variável no tempo e entre as sociedades. “Um menino pode ter trejeitos femininos, assumindo papel feminino, por ter um modelo masculino que seja assim, por exemplo. Isso não significa que a orientação sexual dele seja homossexual”, reitera Gerson.
Algo que costuma despertar a atenção dos pais – os tipos de brincadeiras preferidas pelas crianças – são apenas exercícios de identidade sexual, papéis que são testados ou imitados. “Um menino que gosta de brincar de boneca, ou uma menina que prefere carrinhos, não apontam tendências de orientação sexual”, diz Ribeiro. Autor dos livros Sexo Não É um Bicho-papão, Sexo sem Mistérios e Menino Brinca de Boneca?, entre outros, ele explica que por volta dos dois a três anos de idade ocorre a construção da identidade sexual que é a forma como a criança se percebe. “Mas isso não tem relação com o sexo pelo qual ela se sentirá atraída emocional e fisicamente, na vida adulta. Por isso um homem pode ter um papel e uma identidade masculina, mas ser homossexual, por exemplo”, completa.
Muitos psicólogos e psicanalistas afirmam que não raro os pais os procuram preocupados com a tendência de orientação sexual dos filhos. “Às vezes vejo pais muito incomodados pelo fato de os filhos quererem vestir roupas de mulheres, adotarem comportamento de imitação do feminino, às vezes até muito teatral. Pode até ser que isso se mantenha com o tempo, mas pode ser que não”, lembra Cristina. Qual seria o medo dos pais? O medo de os filhos optarem por uma orientação sexual que foge ao padrão heterossexual vigente. O medo, em última instância, é de os filhos sofrerem preconceito em função de suas escolhas. Assim, crianças que começam a se manifestar com uma tendência não heterossexual costumam sofrer muita repressão dentro de casa. “Isso não adianta nada, só atrapalha, além de dar a falsa sensação de que é possível controlar a sexualidade dos filhos”, ressalta Ribeiro.
Como os pais podem, então, ajudar os filhos a assumirem uma orientação sexual sem sofrimento? “A melhor maneira é criar os filhos para que possam tomar decisões com autonomia. Isso significa dotar o filho de segurança, de auto-estima”, destaca. Quando uma dúvida aparece – “será que meu filho é homossexual?” – os pais devem, na avaliação da psicanalista Cristina, encaminhá-los para um acompanhamento psicológico. “Não para impedir a homossexualidade, mas para tratar uma questão que pode gerar dúvidas e deixar a criança ou o adolescente angustiados. Os pais, às vezes, não percebem que certos comportamentos podem ser apenas a expressão de uma angústia em relação à própria sexualidade.”