Segunda, 21 de Maio de 2012
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AIDS Avança

Confiança na evolução do tratamento e alta sobrevida dos pacientes fazem com que sociedade seja relapsa na prevenção. Casos entre heterossexuais jovens e maiores de 50 anos não param de crescer

Texto: Vanessa de Cobucci | Fotos: Nélio Rodrigues, Pedro Vilela, Keystone e SXC


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Relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que 620 mil brasileiros estejam infectados pelo HIV sem saber. Isso porque os primeiros sintomas da aids podem apa­recer seis a oito anos após o contágio. Ape­sar da aparente boa saúde, é nessa fase que o soropositivo pode contaminar involuntariamente outras pessoas. Mesmo que a terapia anti-retroviral combinada (Tarc) te­nha mudado o prognóstico da aids no mundo, o maior entrave ainda é o diagnóstico tardio, quando o paciente apresenta estado de imunodeficiência avançada, com grandes riscos de óbito. Embora no Brasil tanto o exame anti-HIV quanto a Tarc sejam disponíveis sem custo para o paciente, no geral a postura da população quanto à prevenção ainda é relapsa e independe de classe social.

A tendência atual é de crescimento da epidemia de HIV entre heterossexuais. Há uma feminização e pauperização da doença, que tam­­bém caminha dos grandes centros urbanos para o interior dos estados. “As pessoas recebem informação, mas não assimilam. É na falta da responsabilidade com os próprios atos que mora o perigo do contágio”, diz a psicanalista e técnica da Coordenação Estadual de DST/Aids da Secretaria de Estado de Saúde, Lélia Teixeira. Se­gundo a especialista, fatores que contribuem para a expansão da aids entre jovens são a liberdade sexual, uso de álcool e drogas; e entre os adultos de 20 a 39 anos que vivem uma relação monogâmica prevalece a cultura do constrangimento de não exigir do parceiro o uso de preservativo; já os maiores de 50 anos julgam-se imunes à doença, por achá-la ainda restrita a guetos, algo que não condiz com a realidade atual.

De acordo com critérios da OMS, o Brasil tem uma epidemia concentrada, com taxa de prevalência da infecção pelo HIV de 0,6% na população de 15 a 49 anos. Vale lembrar que HIV é o vírus, e a aids, a síndrome evoluída. “En­tre­tanto, só a metade dos pacientes toma corretamente os remédios, o que compromete o tratamento”, explica a médica infectologista Tânia Maria Mar­cial. Co­or­denadora da residência médica do Hospital Eduardo de Menezes, um dos maiores centros médicos de Minas Gerais especializados no tratamento de aids, hepatite e hanseníase, Tânia comprova o aumento da epidemia entre mulheres casadas, além de pessoas da terceira idade e jovens.

“Não há mais os chamados grupos de risco. Todos são vulneráveis à infecção pelo HIV e a maior forma de contágio ainda se dá via sexual”, diz a infectologista. O crescimento da epidemia entre o público maduro preocupa autoridades. Tanto que a próxima campanha do Ministério da Saúde, que será lançada em 1º de dezembro, Dia Mundial de Combate à Aids, é focada nos maiores de 50 anos, com Sexo não tem idade. Proteção também não. O último Boletim Epidemiológico DST/Aids divulgado pela Secretaria de Saúde apon­ta que entre os homens soropositivos diagnosticados em 2006, os da faixa etária de 50 a 54 anos representam 9,2%, contra 3,2% registrados na primeira década da epidemia, de 1982 a 1993. Questionada se o aumento da infecção por HIV entre pessoas com faixa etária mais avançada tem relação direta com o uso de estimulantes sexuais, febre na última década, Tânia explica que ainda não há pesquisas ou estudos que comprovem tal associação.

Na outra ponta, médicos e especialistas lutam para aumentar a adesão ao tratamento. O abandono da medicação ocorre por várias causas: depressão, falsa sensação de que se está bem de saúde, quando a pessoa esconde a doença entre seu núcleo familiar, ou passa por fases críticas, como morte de parentes, perda de emprego etc. Um soropositivo pode tomar de três até mais de 20 comprimidos por dia dependendo do estágio da infecção. À medida que o paciente apresenta resistência é preciso intervir com várias drogas combinadas. “Há fortes efeitos colaterais e o tratamento fica mais caro”, avalia Tânia. Em média, o tratamento custa cerca de 3 mil reais por mês. O coquetel é fornecido gratuitamente pelo governo federal na rede pública. Há medicamentos que chegam a custar 17 mil dólares por ano.

Embora campanhas estimulem a prevenção e o uso de preservativos, na prática a camisinha ainda não é consenso. Para o professor universitário e presidente do Grupo de Apoio e Pre­venção à Aids de Minas Gerais (Gapa-MG), Luiz Morando, embora as pessoas tenham acesso à informação e conheçam as formas de contágio, há certa indisposição de se precaver no momento da relação sexual. “O adolescente se julga inatingível, quem é casado se sente blindado, quem namora há mais tempo acha que é possível confiar totalmente no parceiro. Im­pera a idéia de que isso não vai acontecer comigo”, avalia Moran­do. Segundo ele, a evo­lução das pesquisas e novos medicamentos dão uma falsa idéia de que a cura da doença está próxima, o que contribui para o descuido generalizado. “Já ouvi de mui­tas pessoas saudáveis a horrível desculpa: Se eu for contaminado, tomo o coquetel an­tiaids, como se tomassem um anal­gésico! Estou no Gapa des­de 1992 e naquela época especulava-se a cura em até 15 anos, al­go que não ocorreu e nem sabemos se haverá.”


Sinal amarelo

A designer gráfico C.G.P, 21 anos, faz questão de se anunciar “jovem, lésbica, mulher e soropositiva”. Ela encara como um dever o trabalho de conscientizar crianças, adolescentes e jovens sobre os riscos do contágio pelo HIV. Ex-usuária de drogas, ela se contaminou ao compartilhar seringas. Aos 17 anos, descobriu-se soropositiva. “Tanto no colégio quanto no grupo social eu tive amplo acesso à informação. O que me questiono é: até que ponto nós, jovens, estamos absorvendo essas informações a contento? Sempre há a postura de que tanto a aids quanto a gravidez vão ocorrer com nossos amigos, vizinhos, mas jamais conosco. A petulância típica da juventude me fez, inclusive, desrespeitar o médico que me passou o diagnóstico. Voltei para a casa com o telefone de um soropositivo que convivia com a doença havia 16 anos. Eu ia fazer pré-vestibular, estava cheia de sonhos quando tudo caiu por terra”, lembra. Hoje, ela reforça que seu trabalho é combater o preconceito que atinge o portador de HIV/aids e ampliar as informações. “A juventude baixou a guarda com a prevenção. Tem muita jovem que se descobre grávida e HIV positivo.” Integrante do Movimento Nacional de Cidadãs Posithivas, da Rede Nacional de Jovens Vivendo com HIV/Aids, e da equipe de jovens do Grupo Vhiver, C. denuncia que há uma distorção da realidade. “Soube por um amigo, de São Paulo, que em uma festa rave era fartamente distribuído um kit contendo comprimido de êxtase, de estimulante sexual e de anti-retroviral. Isso é uma loucura, não é assim que se evita o contágio! Parem de se achar intocáveis. Quem é capaz de assumir a responsabilidade de que é vulnerável ao HIV consegue praticar a prevenção.”

Vida nova

O belo-horizontino aposentado S.F.O., 39 anos, era casado quando se descobriu portador do HIV. “Nessa hora, a gente faz um balanço da vida, fica sem chão. Passei por uma única experiência extraconjugal, com uma amiga, de quem eu desconhecia o paradeiro, e estava há muito tempo casado. Perdi o contato com ambas. Não sei quem pode ter me infectado”, confessa. Da falta de perspectiva e desconsolo, S. vive hoje um momento de felicidade. “Estou noivo, encontrei uma nova companheira com a qual pretendo me casar. Procurei entidades que me ajudaram muito. Hoje essas pessoas representam uma grande família. Desde que iniciei o tratamento, nunca tive queda na imunidade. Não é só o soropositivo que precisa de disciplina com a saúde. O ideal seria que todos se cuidassem”, diz.

Esteio na família

Aos 18 anos, a dona-de-casa M.T.S. estava grávida quando recebeu o diagnóstico HIV positivo. “Foi um choque. Naquela época, eu não sabia nada sobre a doença, que adquiri do meu parceiro. Busquei apoio nos amigos. Fiz tratamento, a gravidez foi tranqüila”, lembra. Hoje, aos 30 anos, ela se orgulha em saber que os cuidados seguidos à risca evitaram que seu filho, hoje com 12 anos, tivesse o vírus. Antes do contágio, M. teve outro bebê, agora com 15 anos. “São 13 anos convivendo com a doença, me adaptei bem com a medicação, não sinto nada. Meus filhos sabem que sou soropositiva. Aliás, eles são meu esteio para lutar pela vida”, diz. Segundo a dona-de-casa, sua vida mudou radicalmente depois que passou a integrar o Grupo Vhiver. “Saí da fase da revolta, da incompreensão, com o apoio psicológico mais o convívio com outros portadores, e com o suporte que tenho aqui sei que vale a pena viver.”

Preconceito

Para o professor e filósofo Valdecir Fernandes Buzon, presidente do Grupo Vhiver, o maior obstáculo aos portadores de HIV/aids ainda é o preconceito. “Com exceção dos infectologistas, a própria comunidade médica é preconceituosa, não insere a questão do HIV como uma calamidade pública. Ginecologistas não pedem o exame de HIV às futuras mães, na bateria de exames pré-operatórios, nenhum cirurgião pede esse teste a seus pacientes”, denuncia. Buzon viveu essa experiência ao procurar um conceituado cirurgião plástico. “A lipodistrofia (acúmulo excessivo de gordura no abdômen) é um efeito colateral comum da medicação anti-retroviral. Fiz todos os exames solicitados pelo médico, que não pediu nem o teste de HIV nem de hepatite C, que levei por conta própria. Apresentei esses resultados por último. Para minha surpresa, ao saber que sou HIV positivo ele se recusou a fazer a lipoaspiração. Depois, mudou de idéia, mas pediu o dobro do preço. Fui honesto ao expor minha condição e fui penalizado.” Buzon esclarece que a sociedade ainda não está evoluída nem preparada para compreender e lidar corretamente com o soropositivo. “Não se pode e nem se deve falar abertamente sua condição. Quem tem problema de coração não é obrigado a se expor publicamente. Por que o soropositivo é? Se falar a respeito na relação social e no trabalho, será destruído. Deve-se apenas contar a verdade na relação médica e na íntima. Vejo que a aids pauperizou, mas o preconceito é elitista. Ainda se tem a idéia de que é uma doença de guetos, o indivíduo abastado costuma comprar o coquetel para não ter de mostrar a cara na rede pública. O que se vê é que a epidemia freou entre os homossexuais, porque eles ficaram mais precavidos, enquanto galga entre os heterossexuais.”

QUASE 30 ANOS DE AIDS NO BRASIL

  • O primeiro caso de aids no país ocorreu em 1980, em São Paulo, sendo comprovado dois anos depois
  • De 1980 a junho de 2007 foram notificados 474.273 casos
  • Em 1985, havia 15 casos da doença em homens para um só registro em mulher. Hoje, a relação está de 15 para 10
  • Já na faixa etária de 13 a 19 anos ocorre uma inversão na razão de sexo, a partir de 1998, sendo 6 homens infectados para cada 10 mulheres
  • Também há crescimento da epidemia entre os heterossexuais, concentrada na faixa etária de 25 a 49 anos
  • Em ambos os sexos, há aumento na contaminação entre os maiores de 50 anos
  • De 2000 até junho de 2007, 36.300 grávidas foram diagnosticadas com a doença
  • O mais idoso soropositivo em tratamento no Brasil tem 83 anos, com cinco anos de diagnóstico

Uso de camisinha

  • Normalmente, as pessoas abandonam o uso do preservativo nas relações duradouras 
  • 38% da população sexualmente ativa usaram preservativo em sua última relação
  • Esse número sobe para 57% quando se consideram os jovens de 15 a 24 anos 
  • Mesmo no chamado sexo casual, apenas 58,4% usaram preservativo 
  • Quem abusa do álcool tem cinco vezes mais chances de fazer sexo sem proteção

Fonte: Boletim Epidemiológico 2007 do Ministério da Saúde

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