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BrasilCerco à corrupçãoNunca foi tão grande o número de pessoas e instituições criadas para fiscalizar e combater esse mal que assola e traz enormes prejuízos ao país
Texto: Iracema Barreto | Fotos: Artes: Paulo Werner / Marcello Casal JR./ABr / Nélio Rodrigues e Daniel de Cerqueira
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Também disposta a fazer a diferença, a relações-públicas Daniela Gerhard há cinco anos abriu mão de um emprego confortável – leia-se bem remunerado – para se dedicar ao que considera uma missão: elaborar e implantar projetos sociais levando em conta práticas e conceitos permeados pela ética. Para isso, abriu uma empresa, a Valor Social Consultoria Socioambiental e Cultural. No início, certa dificuldade para passar o recado ao empresariado. Afinal, ser socialmente responsável inclui cumprir a legislação em vigor, adotar política de valorização dos funcionários, preocupação com os impactos causados pela empresa na comunidade, e por aí vai. Hoje, o discurso ainda assusta muita gente, mas na lista de clientes já figuram empresas como Petrobras, Serasa, Banco Bonsucesso, Federação do Comércio, Correios, Diageo Brasil, Senac, ThyssenKrupp e várias ONGs. “Ainda é uma participação mínima. De qualquer forma, sempre é algo positivo”, complementa Daniela, acrescentando que, quando o dono da empresa engaja-se no projeto, a mudança fica mais fácil. “Aí, os processos internos são modificados com mais rapidez para abolir compra e venda sem nota fiscal ou que funcionários recebam qualquer tipo de estímulo ilícito para definir fornecedores, por exemplo.” Daniela não esconde o desalento ao lembrar que, em mais de uma ocasião, lhe cobraram participação – a conhecida propina, em bom português – em troca da assinatura de um contrato. “Isso é inaceitável e mostra que a luta contra a corrupção no país é quase inglória, uma vez que a prática do toma-lá-dá-cá não é vista como prejudicial para o coletivo. No Brasil, existe a idéia de que é preciso ser esperto e levar vantagem em tudo para se dar bem. Mas hoje encontro algumas pessoas do Terceiro Setor que foram para essa área porque queriam modificar esse ciclo negativo. É um trabalho de formiguinha e ele não pode parar”. |
O aumento da preocupação com o conceito socialmente responsável foi confirmado por pesquisa feita pela auditoria BDO Trevisan. Realizado com 800 empresas em todo o Brasil, o estudo ainda não foi publicado, mas revela que aumentou em 200% – na comparação com 2007 – o número de empresas que elaboram relatório de responsabilidade social corporativa e sustentabilidade. “Isso demonstra preocupação do empresário em construir maiores vínculos com a sociedade, além de enfatizar a preocupação com a transparência e a ética”, analisa o sócio-diretor da BDO, Eduardo Cipullo. Pelo menos 44% das empresas ouvidas destinam orçamento específico para investimentos em projetos sociais. Outras 22% disseram que já planejam seguir o mesmo caminho. A pesquisa indica ainda que 50% delas estão preocupadas em ter uma boa estrutura de governança corporativa (sistema pelo qual os acionistas governam a empresa e que não abre mão de auditoria externa e conselho fiscal como forma de evitar abusos de poder), o que as torna muito mais visíveis e fortes perante os investidores. “Em síntese, isso se traduz em menos espaço para a corrupção”, diz Cipullo. O pulo do gato foi as empresas terem percebido que perdem dinheiro e credibilidade se não agirem dessa forma. “Seja qual for a motivação, estamos no caminho certo”, acredita o executivo. Diante do aumento das queixas registradas pelos consumidores contra os profissionais da área, a Federação Nacional dos Corretores de Seguros (Fenacor) também resolveu agir. Criou um código de ética para a categoria e colocou nas ruas campanha para estimular a adesão dos profissionais a um conjunto de normas estabelecidas para melhorar o nível de confiança dos clientes. A partir de agora, em caso de reclamação, o processo será analisado – e julgado – pelo comitê de ética da Fenacor e não mais pela Superintendência de Seguros Privados (Susep). É garantia de mais agilidade. “Há muitos problemas no mercado, como corretores que pegam os cheques dos clientes e não repassam”, admite Paulo Thomaz, presidente do conselho de ética da Fenacor e coordenador da campanha. “Queremos mostrar para a sociedade que podemos regular a profissão e garantir segurança na hora de utilizar o serviço de um corretor”, emenda. Exemplo de uma campanha de combate à corrupção que já rendeu frutos é a que foi orquestrada pela Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) para combater práticas ilícitas no pleito deste ano. Mesmo não conseguindo aprovar, junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a proposta de negar o registro de candidatura para quem responde a processos na Justiça, a AMB assumiu a bandeira da divulgação da chamada lista suja de candidatos. Agora, comemora o resultado das urnas. Dos 125 candidatos relacionados, apenas um terço foi eleito. “É muito expressivo, mostra a conscientização do eleitor”, diz o presidente da AMB, o juiz Mozart Valadares. |
Prejuízo grandiosoA corrupção assola o Brasil desde o Império. Na época, tornou-se popular uma quadrinha que dizia: “Quem furta pouco é ladrão, quem furta muito é barão, quem mais furta e mais esconde vai de barão a visconde.” US$ 20 e US$ 40 bilhões são perdidos nos países em desenvolvimento em ações de corrupção, o que pode chegar a 40% dos gastos oficiais com assistência social No mundo inteiro, práticas como a sonegação de impostos, pagamento de propina a servidores públicos, superfaturamento e o desvio de dinheiro público podem custar até US$ 1,6 trilhão a cada ano Fonte: Banco Mundial |
Toma-lá-dá-cáOs principais escândalos dos últimos anos MENSALÃO SANGUESSUGA PASSÁRGADA DE VOLTA PARA PASSÁRGADA JOÃO-DE-BARRO |
Receita da propinaIngredientes básicos para a corrupção no Brasil Fonte: Cláudio Abramo, diretor da Transparência Brasil |
Quem leva vantagemRanking que mede o índice de percepção da população diante do problema da corrupção: 1º lugar Empatados: Dinamarca, Finlândia e Nova Zelândia Na frente do Brasil constam na lista como menos corruptos países africanos como Gana e Senegal, além de Colômbia e El Salvador 72º Brasil (uma piora em relação ao ano anterior) ao lado de países como China, Índia, Marrocos e Peru Entre os piores estão Afeganistão, Iraque e Mianmar (antiga Birmânia) Fonte: Transparência Internacional |