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Reportagem
Cinzas de quem se foi
Seja no alto de uma montanha, no mar ou num jardim, ritual de espalhar as cinzas de entes queridos é um momento mágico para as famílias
Texto: Daniele Hostalácio | Fotos: Arquivo Pessoal, Marconi Cartodo, Pedro Vilela, Xando Pereira
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 Parte das cinzas foi lançada ao vento pelas pessoas mais próximas; outra parte subiu aos céus, misturada a sementes de flores, voando numa cesta, leva
"Aqui, neste recanto de jardim quero repousar em paz quando chegar a hora, eis meu testamento". Assim o escritor Jorge Amado deixou registrado no livro Navegação de Cabotagem o que já havia dito à família: o desejo de ficar para sempre na Casa do Rio Vermelho, sob uma mangueira, quando morresse. A casa, em Salvador, não era apenas o lar do escritor, mas o espaço emblemático onde ele viveu e trabalhou por cerca de quatro décadas, ao lado de sua companheira inseparável, a também escritora Zélia Gattai. A forma que a família encontrou para atender ao desejo de Jorge Amado foi a cremação: a urna com as cinzas dele foi enterrada embaixo da árvore e, quando Zélia morreu, o pedido dela de ficar ao lado do marido foi acatado, e ali, também, ela repousa.
“Foram momentos cheios de emoção. Quem carregou a urna de minha avó foram meu pai e minha filha, que depois me abraçou e pediu que eu parasse de chorar, pois a bisa tinha ido para o céu, encontrar com vovô Jorge, o namorado dela”, lembra a neta do casal de escritores, Maria João Amado. “Quando fomos colocar a urna de minha avó embaixo da mangueira, a primeira urna já havia se desfeito e as cinzas se misturado à terra”, conta.
Relatos emocionados do destino dado às cinzas de quem se foi não são raros. Para além da saudade dos que ficaram, criar um ritual para dar um destino às cinzas costuma ser um momento de poesia, mais leve que os enterros tradicionais. Muitas vezes, é do desejo da pessoa, ainda em vida, que nasce a decisão sobre a disposição final das cinzas resultantes da cremação. Em alguns casos, elas são colocadas em jazigos, emplacadas em mural ou depositadas em um columbário, próprio para armazenar as urnas. Mas, para muitos, espalhá-las em jardins, lançá-las às montanhas ou ao mar – sempre em locais muito especiais para quem partiu – dão outra dimensão à cremação, retirando todo um peso que existiu em torno da prática, durante séculos.
Ao mar foram lançadas, por exemplo, as cinzas de John F. Kennedy Jr., filho do ex-presidente dos EUA, John F. Kennedy. O local escolhido foi cerca de 7 km da ilha de Martha's Vineyard (litoral de Massachusetts), onde ele costumava passar férias e receber amigos. Também as águas beberam parte das cinzas do líder pacifista Mahatma Gandhi, que se misturou ao Rio Ganges, na Índia, país ao qual ele devotou a vida. No caso do músico Renato Russo, vocalista do Legião Urbana, canteiros de bromélias e pândanus do jardim do sítio do paisagista Burle Marx, no Rio de Janeiro, foram os depositários das cinzas, espalhadas ali pelo pai do cantor. Águas e jardins costumam ser os destinos mais comuns, pois para muitos eles remetem à idéia de liberdade, beleza, retorno à natureza.
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“Ele adorava a paisagem de Cabo Frio. O Canal de Itajuru, que liga o mar à Lagoa de Araruama, o impressionava” |
Mas nem sempre foi assim. A cremação era prática proibida pela Igreja Católica até o ano de 1963 – foi liberada apenas a partir do Concílio Vaticano II. Até então, era considerada atitude anticristã, pois ia contra o costume do sepultamento, cujo sentido é pensar a morte como uma espécie de sono que precede a ressurreição – por isso o nome cemitério, que significa dormitório. Hoje, o Código de Direito Canônico diz, a respeito da cremação, o seguinte. “A Igreja recomenda vivamente que se conserve o piedoso costume de sepultar os corpos dos defuntos; mas não proíbe a cremação, a não ser que tenha sido preferida por razões contrárias à doutrina cristã.”
Bastou a proibição à prática ser revogada e o sistema começou a crescer no Ocidente – no Oriente, a prática, estimulada pelo budismo, sempre teve muitos adeptos. Hoje, estima-se que 98% dos mortos sejam cremados no Japão. Na Suíça, o índice está em torno de 75%, e em São Paulo, onde há o maior número de crematórios no país, em torno de 7%, uma porcentagem que tende a aumentar. Para se ter uma idéia, o primeiro crematório com fins funerais foi inaugurado no Brasil em 1974 – o Vila Alpina, em São Paulo, único do país por mais de 20 anos. Atualmente, praticamente todos os estados brasileiros dispõem de um espaço desses – são cerca de 25. Duas grandes religiões, no entanto, ainda condenam a prática: o judaísmo e o islamismo.
Para além das restrições religiosas resta a forma como cada um processa o seu luto e presta a sua homenagem a quem se foi. O pintor gaúcho Carlos Scliar, por exemplo, teve seu corpo cremado e suas cinzas foram lançadas no Canal do Itajuru, que liga o mar à Lagoa de Araruama, em Cabo Frio, em frente à casa onde ele morou e manteve um ateliê por cerca de 40 anos. “Ele adorava a paisagem de Cabo Frio”, conta a nora do pintor, Eunice Medeiros Scliar. O dia em que as cinzas foram lançadas no canal que tanto impressionava o artista, pelos detalhes de cor e luz, foi marcado por uma grande homenagem ao pintor. Vários amigos e familiares, entre eles muitos artistas e intelectuais, participaram da cerimônia. “O compositor Ângelo Budega compôs uma música em homenagem a ele e a tocou, no cavaquinho, enquanto as cinzas eram lançadas. Foi um momento muito bonito, especialmente porque esse era o desejo dele”, conta.
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“Eu me lembrei do lugar onde havia passado o último Natal com ela. Escolhi o dia do meu aniversário, viajei para a cidade e joguei as cinzas ali, à be |
A mãe da advogada Alessandra Drummond, ao contrário, não chegou a indicar onde gostaria que suas cinzas fossem depositadas. “Já havíamos participado de cerimônias de cremação que minha mãe tinha achado muito bonitas e dignas. Mas, como ela nunca havia falado sobre as cinzas, fiquei em um dilema”, conta a advogada. O irmão mais velho decidiu espalhar pequena parte das cinzas no quintal da casa dele, e Alessandra acabou decidindo jogar a maior parte na ponta de uma praia. “Eu me lembrei do lugar onde havia passado o último Natal com ela, em momentos bastante felizes. Escolhi o dia do meu aniversário, viajei para a cidade, fui ao mesmo local onde ela tinha adorado passar o fim de ano e joguei as cinzas ali, à beira-mar, num cantinho lindo, com pedras e um visual maravilhoso”, conta.
As cinzas se desfazem com o tempo e se incorporam, invisíveis, à paisagem. Mas sempre acabam, de alguma forma, impregnando ainda mais o local com a presença de quem se foi. “No dia em que lancei as cinzas ao mar, estávamos eu e grandes amigas queridas e foi superemocionante. Fomos celebrar a vida dela, que era uma pessoa muito presente, muito alegre, linda! Volto lá sempre e todas as vezes não deixo de ir a esse lugar especial e de me lembrar dela”, conta Alessandra. Mas, é claro, as cinzas são apenas um detalhe em toda a história. Uma das pessoas que melhor expressaram isso foi a escritora e educadora Maria Magdalena Lana Gastelois, que faleceu em janeiro deste ano. Conhecida por sua grande alegria e amor à vida, ela se viu diante de uma grave doença e em fase terminal. Resolveu, então, traçar os detalhes do que gostaria de ser feito quando morresse: queria ser cremada e ter suas cinzas lançadas pelas montanhas, num balão, que subiria ao infinito, semeando flores pela terra. E assim foi feito. Os filhos se organizaram para atender ao desejo da mãe. O evento foi batizado, pela própria Magdalena, de Na Boca do Balão, nome do penúltimo livro dela, lançado em vida. A família chegou a fazer um convite para os amigos, onde se lia: “Na ‘Boca do Balão’ é uma homenagem à Madá. Vamos cantar, dançar, lembrar, rir, nos emocionar. E ao final um colorido balão subirá ao céu, semeando aos quatro ventos o espírito libertário de Magdalena.”
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“Quando fomos colocar a urna da minha avó debaixo da mangueira, a primeira urna, do meu avô Jorge Amado, já havia se desfeito e as cinzas se misturado |
“Fizemos a cerimônia na semana do aniversário dela”, conta uma das filhas, Ana Lana Gastelois. Um cortejo de amigos e familiares partiu da igreja de Lavras Novas, nas proximidades da cidade histórica de Mariana, onde ela morava, em direção ao local escolhido. Balões a gás coloridos, com mensagens escritas para a educadora, e acompanhados da Banda de Mariana e de um coral infantil, entre outros convidados especiais, fizeram parte da cerimônia. Parte das cinzas foram lançadas ao vento pelas pessoas mais próximas; outra parte subiu literalmente aos céus, misturadas a sementes das mais variadas flores, voando numa cesta, levada por um balão. A banda de música, um ritual africano para encomenda da alma, realizado por mulheres da comunidade de Lavras Novas, e por fim, um sarau literário foram algumas das atividades que marcaram a homenagem à educadora, que antes de morrer registrou: “O que pude fazer fiz. Daqui pra frente, caminhem filhos, netos, outros, gên (er) os flutuantes, companheiros de trabalho, os que vierem, os que ficaram. Acho que dei o melhor de mim. Agora, já não me pertencem. Cada um vai construindo seu caminho. Que se alimentem de muita compaixão e sejam solidários. A vida vai rolando. Surge a idéia do balão jogando pelos ares a cinza misturada com sementes. Nada se leva, mas muito se pode deixar.”
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