Segunda, 21 de Maio de 2012
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Família

Disputa sadia

Desde o nascimento, os pais devem ensinar aos filhos a máxima de que o importante é competir, mas sem exageros

Texto: Raquel Ayres | Fotos: Daniel de Cerqueira e Arquivo Pessoal


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Dividir brinquedos: minimizar a competividade exacerbada
Um lugar ao sol. Seja pela vaga no vestibular, a atenção quando se fala em público, ou o trabalho pretendido por muitos candidatos, estamos sempre competindo. Afinal, foi também assim que o homem chegou onde está: o sucesso na disputa pelo alimento, o melhor território, pelo macho ou fêmea reprodutores resultaram na sobrevivência dos seres mais bem adaptados, já propôs o naturalista Charles Darwin, no século XIX.  Tal corrida não é prerrogativa dos adultos e a largada é dada quando ainda nem conhecemos o bê-a-bá. “Com poucos meses a criança vê o adulto dar comida a ou­tra e chora. Os bebês querem ser tudo para a mãe. A criança, inicialmente, quer ser amada. Depois, deixa de querer ser para ter”, explica a psicanalista e mestra em saúde da cri­ança e do adolescente Silvia Myssior. 
Renata Campos Teixeira: de olho nos trófeus que quer ganhar
Renata Campos Teixeira: de olho nos trófeus que quer ganhar

Vale lembrar que de acordo com o IBGE, o tamanho das famílias tem diminuído em todas regiões, com 1,5 filho  por núcleo. As crianças têm me­nos irmãos com quem dividir a­ten­ção. Ao mesmo tem­po, a industrialização trouxe oferta maior de objetos e atividades de entretenimento. A família deve es­tar atenta aos apelos que a indústria lança em direção à fantasia dos infantes. As novidades estão a um pas­so, basta comprar. Já não é suficiente comemorar o aniversário com família e alguns amiguinhos. São centenas de convidados. E precisa ter palhaço, fliperama, parede de escalada, má­gico, animador, piscina de bolinha e tudo. E muito mais. Tem que ter, ter, ter.

“Estes excessos geram competitividade exacerbada. Ao invés de trabalharem os desejos infantis relacionam-se ao narcisismo, ao egoísmo”, alerta Silvia. É a criança introduzida no universo das coisas megas desde sempre, em que não há conten­tamento com o que é limitado. Em compensação, o descontentamento destas crianças poderá ser enorme e seus relacionamentos conflitantes: com a babá,  colegui­nhas, professores. “Re­tornarão para a criança de modo insuportável”, avalia a psicanalista. O futuro po­de ter como triste resultado pessoas que não se alegram com a vitória de ninguém, desrespeitosos, não abertos ao outro, desejosos de levarem vantagem em tudo e para quem os fins justificam os meios.

Enquanto uma brinca a outra tem de esperar a boneca
Enquanto uma brinca a outra tem de esperar a boneca

O exagero dá seus sinais na escola quando há dificuldade em obedecer combinados básicos. “Aquele que não se incomoda em ganhar o jogo burlando a re­gra”, comenta a pedagoga Marize Nancy de Alencar, que trabalha com pequenos en­tre 2 e 7 anos. Por isso, aprender a dividir brinquedos é essencial. Ela também aponta o desejo de competir só para ganhar, detectado em quem, ao perder, custa a digerir, “emburra e o fato ganha dimensão descabida.” Neste contexto, torna-se difícil para os pequenos passarem pelas emoções. “Cabe ao adulto mostrar que a competição extremada pode resultar em infelicida­de”, diz. Até porque lança quem deveria estar desfrutando a infância num modelo de vida a­dul­­to.

Joaquim Lavarini, psicanalista que trabalha com crianças há 22 anos, assinala que os muito competitivos escondem insegurança e baixa auto-es­tima. “No fundo, sentem-se derrotados e têm que ganhar o tempo to­do.” Podem ser os brigões ou engra­çadinhos que querem chamar aten­ção. Não constroem laços de confiança e estão sempre rivalizando. “Com­pe­tem para ser notados, temidos.”

O extremo oposto é igualmente danoso. O pouco competitivo também receia perder. Prefere nem entrar no jogo – da própria vida. É a criança que apanha na escola sem reagir, que não tem garra. “Chegam com presença de sofrimento”, afir­ma La­va­rini. Para ele, uma das possíveis causas para tal comportamento pode ter origem nos pais. Se dão tudo nas mãos dos meninos e meninas, por que irão lutar pela sobrevivência? Afinal, em algum mo­mento terão que se deparar com desafios do primeiro passo em algo. A exemplo de Ga­bri­ela Pereira Martini, 5 anos, que pe­diu aos pais para fazer capoeira. “Assim ela aprende a se defender”, as­sinala a mãe, Maíreslane Fer­nandes Pereira. Pa­ra ela, também é importante que a menina conviva com crianças de outras idades.

Gabriela, com o pai Gus­tavo: aprende a se defender
Gabriela, com o pai Gus­tavo: aprende a se defender

Quando há medalhas e classificações à vista, crianças podem estar diante de faca de dois gumes. A educadora física Izabel Miranda Rohlfs (atua na assessoria técnico-científica de gran­de clube e coordena 66 técnicos) acredita que é essencial ensinar aos pequenos atletas quando é apropriado competir e quando devem colaborar. “Na maioria dos esportes coletivos, ambos an­dam juntos.” A e­xem­plo do desejo que move Camila Campos Teixeira, 11 anos. Ela é nadadora e treina diariamente. A mãe, Paola Campos Teixeira, conta que de um ano para cá a filha tem de­monstrado maior competitividade. “Agora, ela tem vontade de ganhar para a equipe do clube.”

A irmã de Camila, Renata Cam­pos Teixeira, 9 anos, é mais competitiva: antes das provas de equitação olha os troféus que quer ganhar e es­tá sempre acompanhando sua pontuação. Nada que coloque em risco o equilíbrio da menina, uma vez que não sofre cobranças. Ao contrário, a mãe acredita que ambas ganharam independência – uma vez que viajam sem a família para disputar provas –e determinação. “Vão atrás do que querem, mas estão aprendendo também a perder”, avalia Paola.

Claro que, seja nos jogos ou no cotidiano, ninguém quer a derrota. Mas o importante, a exemplo do dito popular, é estar disposto ao jogo. De novo a sabedoria popular ganha força e mostra que o dito o importante é competir é não só verdadeiro como sua assimilação essencial. Afinal, não se pode ganhar todas, certo?


 
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