A um passo da redenção. Depois de parar no banco dos réus do Superior Tribunal Federal, no Brasil, e serem absolvidas há quase dez meses, as células-tronco embrionárias, aquelas que podem se transformar em um dos 216 tipos de células do corpo, voltam ao centro das atenções, a gerar esperança de cura. Desta vez nos Estados Unidos, onde começam a ser testadas pela primeira vez em humanos, em pacientes com lesão grave e recente na medula espinhal. A expectativa dos pesquisadores é que elas, retiradas de embriões microscópios descartados das fertilizações in vitro, se diferenciem em células nervosas, regenerem as danificadas. É um processo longo, no mínimo um ano, mas que será balizador para próximos experimentos com doenças tão distintas, como diabetes, esclerose múltipla, Parkinson, cardíacas ou devolver movimentos a pessoas paraplégicas e tetraplégicas.
“Será um divisor de águas nesta área se os resultados forem positivos, se houver melhoras, porque vai confirmar o potencial terapêutico das células-tronco embrionárias”, diz Stevens Rehen, diretor de pesquisa do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Essa capacidade de regenerar órgãos e tecidos foi provada em animais e agora vão observar se reproduzirão nos pacientes, com segurança, sem formar tumores ou se diferenciar em células que não as específicas. É que elas se multiplicam indistintamente e o desafio é dominar o processo pelo qual elas dão origem a cada tipo de tecido.
Há risco nesta primeira experiência com humanos? O pesquisador Stevens Rehen diz que há, mas acredita que a FDA (agência estadunidense de controle de remédios e alimentos) não autorizaria pesquisa desta natureza sem se ater aos requisitos de segurança. “Qualquer estratégia terapêutica tem de eliminar a possibilidade de originar outro tecido.” Elas serão cultivadas, neste caso, para se diferenciar em células nervosas.
“Hoje sabemos como transformá-las em cardíacas, neurônios, entre outras, que quando transplantadas em animais doentes são capazes de aliviar os sintomas de diversas doenças”, explica Lygia da Veiga Pereira, chefe do Laboratório de Genética Molecular do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP). Ela coordenou pesquisa que produziu a primeira linhagem de células-tronco embrionárias do Brasil, em setembro do ano passado. Antes, os pesquisadores usavam material importado e agora têm autonomia na obtenção dessas células mais potentes do que as retiradas do cordão umbilical e as adultas.
Estas últimas, extraídas de doadores ou do próprio paciente, só podem se transformar em tecidos simples como ossos, músculos, cartilagem e gordura. Elas se somam às embrionárias na busca de cura das doenças, impulsionadas pela recém-criada Rede Nacional de Terapia Celular, que prevê a implantação de laboratórios nacionais, depois da legalização das células-tronco embrionárias. É esperar os resultados dos experimentos nos Estados Unidos e o desenrolar das pesquisas a médio ou longo prazo. “A primeira célula-tronco embrionária derivada foi criada em 1998. Só agora, depois de 10 anos, há os testes clínicos. Se forem positivos, surgem outros, até tornar rotina nos hospitais. Isto demora”, diz Stevens Rehen. Aí, sim, vamos ver se elas serão a promessa de cura do século XXI, a gerar células que substituirão as degradadas por tantas doenças.