Palavras, olhares, gestos, modulação da voz. O comportamento de uma pessoa pode interferir na vida, na autoestima, no cotidiano de outra. Manipulação, imposição ou jeito de ser? Seja qual for a resposta, esses fatores podem levar ao estupro emocional. O termo é novo e explica histórias de pessoas que sofrem um tipo de violação não consentida da identidade, da liberdade, da integridade física e emocional por meio da manipulação e dominação. Esta relação é capaz de deixar inúmeras sequelas psicológicas. É o que afirma a psicóloga clínica Fabiana de Araújo Silva.
Ela explica que isso acontece quando há um que domina e outro que é dominado. “É uma invasão naquilo que o outro é. No princípio, o dominador exibe comportamento sedutor e manipulador e depois se torna possessivo e agressivo, com a necessidade de afirmação e de controle.” A professora Carmen*, 45, é vítima de estupro emocional há 23 anos. Ela conta que, durante o namoro de 11 meses, o marido era uma pessoa amável e sedutora. Depois, a relação tomou outros rumos. “Preparava o jantar, usava uma roupa nova, me arrumava, mas nem assim ele me olhava. Eu sofria, mas queria consertar o casamento. O desprezo era terrível”, afirma. Carmen diz que as palavras dele a faziam se sentir inútil. “A frase você não sabe de nada está gravada em mim”, desabafa. A professora se sentia incapaz de viver sem o companheiro e fazia tudo que ele pedia na esperança de que, um dia, a situação pudesse melhorar. Foram três filhos do casamento, sendo o último fruto de um estupro. Segundo Carmen, ela foi obrigada a manter relação sexual. “Fui agredida fisicamente e verbalmente. Pedi o divórcio seis vezes, mas ele nunca aceitou. Era dependente dele emocionalmente.” A professora fez algumas sessões de terapia e acredita que sua força de vontade tem feito a diferença. “Hoje, vi que não preciso viver dessa forma. Quero e busco o divórcio. Sei que sou capaz de ter um relacionamento saudável, sem traumas.”
A psicóloga Fabiana de Araújo Silva assinala que quem é dominado se submete à situação por motivos diversos, como atender às necessidades infantis de proteção, cuidado, carinho e amor, que a pessoa supõe encontrar no parceiro e tem medo de perder.
Outro fator pode ser a condição real em que o sujeito dominado se encontra: sem profissão, sem filhos, sem autonomia. A socióloga e especialista em educação, Flávia Amanda Ramalho de Oliveira, acredita que esse tipo de sentimento sempre existiu, seja numa relação marido e mulher ou entre pais e filhos. “Porém o conhecimento tem sido facilitado e muitos nomes surgiram, como o próprio estupro emocional. O prazer proporcionado pelo dominador é maior que qualquer ética, moralidade ou afeição. Há algum motivo pessoal nesse comportamento”, diz. Flávia afirma que as mulheres são os alvos desse tipo de sentimento. Historicamente, são elas as maiores vítimas de violência e humilhação. “Mas o assunto incomoda. Até porque as mulheres conquistam, cada vez mais, o seu espaço e hoje já conseguem falar, gritar, reivindicar o que querem”, comenta.
Autor do livro Estupro Emocional, o psicanalista, professor e teólogo Luiz Carlos Sobrinho afirma que situações desse tipo podem começar bem antes da fase adulta. “Começa no ventre”, diz. A concepção, o nascimento e os primeiros sete anos são os alicerces da vida emocional de cada um de nós, que podem conter elementos nocivos. “O estupro emocional ocorre, principalmente, nas fases de formação. As marcas e sequelas desse comportamento podem anular e destruir a vida emocional da pessoa. Por sua vez, ela tende a praticar o mesmo com o próximo”, explica Sobrinho.
As consequências são várias. Podem ser desencadeadas doenças físicas ou psicossomáticas. Para sair dessa situação, o primeiro passo é tomar consciência do que está acontecendo. A ajuda de um profissional psicoterapeuta pode auxiliar no processo de autoconhecimento e construção da identidade, principalmente quando a própria família é autora do estupro emocional.
É o que acontece com a jornalista Laura*, 27. “Fazemos coisas para agradar, mas, na maioria das vezes, não somos valorizados. O que acabamos ouvindo são palavras que nos colocam para baixo, nos agridem.” Laura diz que o tormento começou quando o pai morreu em julho de 2004. “Ser destratado por pessoas que não são da nossa família é uma coisa, conseguimos relevar, mas ser agredido por alguém da nossa convivência é duro”, lamenta.