Segunda, 21 de Maio de 2012
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Família

Estupro emocional

Desprezo, dominação e intimidação de um lado; medo, baixa autoestima e sensação de impotência do outro. E o pior: as duas pontas fazem parte do mesmo núcleo familiar

Texto: Luciana Rocha | Fotos: Pedro Vilela e SXC


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A professora Carmen: vítima de estupro emocional há 23 anos

Palavras, olhares, gestos, modulação da voz. O comportamento de uma pessoa pode interferir na vida, na autoestima, no cotidiano de outra. Mani­pulação, imposição ou jeito de ser? Seja qual for a resposta, esses fatores podem levar ao estupro emocional. O termo é novo e explica histórias de pessoas que sofrem um tipo de violação não consentida da identidade, da liberdade, da integridade física e emocional por meio da manipulação e dominação. Esta relação é capaz de deixar inúmeras sequelas psicológicas.  É o que afirma a psicóloga clínica Fabiana de Araújo Silva. 

Ela explica que isso acontece quando há um que domina e outro que é dominado. “É uma invasão naquilo que o outro é. No princípio, o dominador exibe comportamento sedutor e manipulador e depois se torna possessivo e agressivo, com a necessidade de afirmação e de controle.” A professora Carmen*, 45, é vítima de estupro emocional há 23 anos. Ela conta que, durante o namoro de 11 meses, o marido era uma pessoa amável e sedutora. Depois, a relação tomou outros rumos. “Preparava o jantar, usava uma roupa nova, me arrumava, mas nem assim ele me olhava. Eu sofria, mas queria consertar o casamento. O desprezo era terrível”, afirma. Carmen diz que as palavras dele a faziam se sentir inútil. “A frase você não sabe de nada está gravada em mim”, desabafa. A professora se sentia incapaz de viver sem o companheiro e fazia tudo que ele pedia na esperança de que, um dia, a situação pudesse melhorar.  Foram três filhos do casamento,  sendo o último fruto de um estupro. Segundo Carmen, ela foi obrigada a manter relação sexual. “Fui agredida fisicamente e verbalmente. Pedi o divórcio seis ve­zes, mas ele nunca aceitou. Era dependente dele emocionalmen­te.” A professora fez algumas sessões de terapia e acredita que sua força de vontade tem feito a diferença. “Hoje, vi que não preciso viver dessa forma. Quero e busco o divórcio. Sei que sou capaz de ter um relacionamento saudável, sem traumas.”

A psicóloga Fabiana de Araújo Silva assinala que quem é dominado se submete à situação por motivos diversos, como atender às necessidades infantis de proteção, cuidado, carinho e amor, que a pessoa supõe encontrar no parceiro e tem medo de perder.

Outro fator pode ser a condição real em que o sujeito dominado se encontra: sem profissão, sem filhos, sem autonomia. A socióloga e especialista em educação, Flávia Amanda Ramalho de Oliveira, acredita que esse tipo de sentimento sempre existiu, seja numa relação marido e mulher ou entre pais e filhos. “Porém o conhecimento tem sido facilitado e muitos nomes surgiram, como o próprio estupro emocional. O prazer proporcionado pelo dominador é maior que qualquer ética, moralidade ou afeição. Há algum motivo pessoal nesse comportamento”, diz. Flávia afirma que as mulheres são os alvos desse tipo de sentimento. Histori­ca­men­te, são elas as maiores vítimas de violência e humilhação. “Mas o assunto incomo­da. Até porque as mulheres conquistam, cada vez mais, o seu espaço e hoje já conseguem falar, gritar, reivindicar o que querem”, comenta.

Autor do livro Estupro Emocional, o psicanalista, professor e teólogo Luiz Carlos Sobrinho afirma que situações desse tipo po­dem começar bem antes da fase adulta. “Co­meça no ventre”, diz. A concepção, o nascimento e os primeiros sete anos são os alicerces da vida emocional de cada um de nós, que po­dem conter elementos nocivos. “O estupro emocional ocorre, principalmente, nas fases de formação. As marcas e sequelas desse comportamento po­dem anular e destruir a vida emocional da pessoa. Por sua vez, ela tende a praticar o mesmo com o próximo”, explica Sobrinho.
 

As consequências são várias. Podem ser desencadeadas doenças físicas ou psicossomáticas. Para sair dessa situação, o primeiro passo é tomar consciência do que está acontecendo. A ajuda de um profissional psicoterapeuta pode auxiliar no processo de autoconhecimento e construção da identidade, principalmente quando a própria família é autora do estupro emocional.

É o que acontece com a jornalista Laura*, 27. “Fazemos coisas para agradar, mas, na maioria das vezes, não somos valorizados. O que acabamos ouvindo são palavras que nos colocam para baixo, nos agridem.” Laura diz que o tormento começou quando o pai morreu em julho de 2004. “Ser destratado por pessoas que não são da nossa família é uma coisa, conseguimos relevar, mas ser agredido por alguém da nossa convivência é duro”, lamenta.


Desabafo de uma vítima

“Naquela noite resolvi dar fim aos meus sofrimentos. Não aguentava mais ser humilhado pelos meus pais, amigos e parentes. Aquele apelido de galo cego... os xingamentos e palavrões que eram dirigidos contra a minha pessoa diariamente, eu já estava de saco cheio da vida que levava. Realmente concluí que a vida era uma droga. Ninguém se importava comigo. Cada um da minha casa só pensava em si. Não havia razão por que existir. Saía e entrava em casa, mas ninguém me notava. Dor, ira, angústia e ódio era o que sentia pelos meus familiares. Naquela noite saí para me lançar na frente de algum carro, mas no caminho encontrei a Camila, que ao perceber meu desespero, teve paciência para me ouvir. Naquela noite ela foi um anjo de Deus na minha vida; evitou que eu cometesse a maior das burrices: dar fim na minha vida. Hoje faço terapia, estou me descobrindo e resolvendo minhas neuroses.”

 
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