Segunda, 21 de Maio de 2012
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Especial

Terceiro setor em alerta

Organizações não governamentais já começam a sentir reflexos da crise e milhões de pessoas pobres e doentes no mundo podem deixar de ser atendidas

Texto: Eliana Fonseca | Fotos: Alexandre Brum, Pedro Kirilos


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Pedro Werneck, do Instituto da Criança: crise tem assombrado o terceiro setor

O sinal de perigo soou em janeiro deste ano quando a tradicional ONG Doutores da Alegria anunciou uma interrupção nos projetos do Rio de Janeiro por causa de uma quebra em sua arrecadação. Antes da desaceleração da economia, a entidade previa arrecadar 6,6 milhões de reais em 2009. A perspectiva mudou para 5,2 milhões e cinco hospitais do Rio ficaram sem o programa de apoio da entidade. Talvez esta seja a ponta de uma avalanche que pode desmoronar trabalhos de anos como aqueles relacionados ao combate ao HIV/aids, de apoio à educação e à pesquisa, de combate à fome e à pobreza. A crise chegou ao terceiro setor.

Enquanto algumas dessas entidades já começam a sentir o impacto da crise, outras observam, apreensivas, qual será o desenrolar dos sintomas já expressos na economia mundial: retração, desemprego, desaceleração. O diretor de iniciativas globais do Programa das Nações Unidas para HIV/Aids (Unaids), Luiz Loures, demonstra sua preocupação com a possibilidade da diminuição, por parte de alguns países, dos investimentos voltados para o combate à aids e ao HIV. Atualmente, há um gasto global com esses projetos de 14 bilhões de dólares e um déficit de outros 5 bilhões, sem falar em 3 milhões de pessoas que estão infectadas, mas não têm qualquer tipo de tratamento. “Já há alguma evidência, localizada em alguns países, de começo de restrição de investimentos”, observa Loures, que falou à reportagem de Genebra (Suíça), onde trabalha.

A grande preocupação não é o que vai acontecer neste ano, que já tem grande parte dos recursos garantidos, mas, sim, nos próximos dois anos, quando governos e empresas anunciarão seus orçamentos e cortes para a área social e saúde. É quando, segundo ele, a situação de locais como a África Subsaariana, poderá atingir níveis catastróficos. Atualmente, a infecção em alguns países como Zimbábue e Botsuana chega a 30% da população. “A ajuda internacional é essencial”, diz. Para Loures, a melhor estratégia, neste momento, é o da sensibilização. “Temos que levar em conta que cortes nos investimentos de combate à epidemia podem agravar, ainda mais, a crise. É impossível visualizar um ajuste que exclua 3 milhões de pessoas.”


Ana Toni, da Fundação Ford no Brasil: reflexos da crise são inevitáveis
Ana Toni, da Fundação Ford no Brasil: reflexos da crise são inevitáveis

Diretora da Funda­ção Ford no Brasil, Ana Toni afirma que os reflexos da crise são inevitáveis e devem atingir as ONGs e fundações em maior e menor proporção. Essa medida dependerá do tipo de organização: se o orçamento for vinculado ao lucro de empresas, ela terá menos recursos. As organizações menores, que dependem de doações de pessoas físicas e de empresas, devem sentir mais8 fortemente esses reflexos. “Para es­sas, há uma séria probabilidade da diminuição de sua sustentação. Isso é muito ruim. É um retrocesso”, observa.

A própria Fundação Ford, que tem um fundo de reserva de 14 bilhões de dólares de onde saem os recursos para projetos em todo o mundo, viu esse dinheiro diminuir para 9 bilhões por estarem aplicados no mercado financeiro. A consequência será a redução da ajuda dos atuais 230 para 120 projetos, somente no Brasil.

Já o diretor nacional adjunto da Visão Mun­dial, Eduardo Nunes, observa que atualmente a indefinição para o setor tem sido a principal consequência da crise. “Não há grandes impactos, ainda, mas as perspectivas não são boas.” Ele salienta que qualquer decisão quanto a cortes de investimentos a projetos deve levar em consideração principalmente o que isso significará para a população pobre. “No último Fórum Econômico Mundial de Davos (Suíça) nossa tentativa foi de mostrar que os pobres não entraram em crise porque simplesmente nunca saíram dela”, ressalta. Para Nunes, o atual momento para as ONGs é o de analisar e monitorar esse impacto da crise junto a essa população pobre. E também reduzir gastos. Geralmente, uma ONG já trabalha no limite, mas este é um momento para adiar, pelo menos por alguns meses, qualquer gasto.

Há ainda outra perspectiva, segundo Ana Toni: a de ONGs pensarem em projetos afins e fazer parcerias para a manutenção de suas iniciativas. “O momento é o do trabalho conjunto”, diz. A ONG Doutores da Alegria, por exemplo, diz em nota assinada por seu presidente, Wellington Nogueira, que está “somando esforços para multiplicar resultados” e buscando uma articulação com outras organizações para retomar as ações no Rio de Janeiro. “É necessário um novo modelo de atuação, mais abrangente e sustentável”, completa Nogueira.

Para o presidente do Instituto da Criança, Pedro Werneck, a crise anda mesmo assombrando o terceiro setor. “Minha dúvida é sobre o que vai pesar mais: se a consciência sobre a responsabilidade social ou se a preocupação de como a crise irá se abater sobre a empresa.” Neste aspecto, pelo menos de uma colaboradora do instituto, a resposta foi negativa. “Em uma conversa, a colaboradora foi muito enfática ao dizer que reduziria seus investimentos e que não faria nenhum tipo de ação social neste momento”, diz. Porém, em sua opinião, esse deve ser um fato isolado. Werneck argumenta que atualmente as empresas têm consciência da importância dos projetos do terceiro setor. “Esses recursos representam moradia, educação, alimentos e seria um impacto muito grande se algo drástico acontecesse. Quero acreditar, se tudo ficar realmente crítico, que o próprio governo tomará alguma medida para o setor.”


 
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