Na busca do caminho inverso, há quem se ofereça, gentilmente, para colaborar com o projeto de terceiros na intenção de incentivar autoestima. Nem que para isso seja necessário, no fim de semana, recolher e recolocar no lugar mais de mil pinos da parede para dar espaço a produtos alheios. A designer de bijuterias Mary Arantes que durante 14 anos organizou o Bazarte com finalidade de recolher fundos para instituições carentes, cedeu, em dezembro de 2008, seu show-room para as artesãs da favela do Cafezal. Além do espaço, Mary cedeu o próprio nome – assíduo nas revistas de moda nacionais – para mobilizar colaboradores: gráfica, segurança, convites. Resultado: em local privilegiado, frequentado por suas convidadas de elevado poder aquisitivo, as artesãs venderam, em um dia, 13 mil reais. “Na rotina, somos pouco gentis. Todos precisam de amparo para descobrir do que são capazes”, enfatiza a designer. Nem sempre é preciso falar em cifras: pode-se ser gentil simplesmente emprestando o ouvido a quem precisa. Já pensou nisto?
A chapeleira Lenice Bismarck, autora do livro Oitavo Pecado: tudo sobre falta de educação, acredita que a gentileza é capaz de melhorar o mundo. E não poupa exemplos: o bom humor é uma forma de gentileza, do mesmo modo conversar com o motorista de táxi, ensinar crianças pequenas a se entrosarem com gente de todas as classes sociais, não falar de grifes e muito menos reparar nas pessoas. “Eu incentivo as varredoras aqui da rua a fazerem protesto contra cocô de cachorro nas calçadas.” E lamenta que governos não deem exemplos do bem viver.
Não há dúvida de que amabilidade e delicadeza são parte do processo civilizatório. A própria democracia é exemplo de gentileza política, uma vez que, a princípio, leva em conta a opinião do outro, com espaços para divergência. No entanto, sob este aspecto a psicóloga clínica Eliana Ferreira Rodrigues Silva acredita que pioramos. “Escândalos, metas absurdas impostas ao trabalhador, nossa sobrevivência ameaçada e um cotidiano desumano têm provocado mais hostilidade do que disponibilidade. Já não há tempo para sermos gentis. Temos nos desumanizado.”
Mas nunca é tarde e é sempre possível aprender. Inclusive em sala de aula. A professora Lúcia Maria de Morais Costa Machado, professora da rede municipal que trabalha com alunos de 8 e 9 anos, fez da gentileza matéria. Percebeu intolerância no trato pessoal. Também falta de cuidado com o mobiliário escolar. “A partir daí, trabalhei a figura do profeta Gentileza, questões éticas e de preservação da natureza. Fizemos poemas de cordel sobre o tema. Palavras como paz, intolerância e gratidão foram introduzidas e os pequenos ficaram atentos a atitudes cotidianas. Entenderam que, entre pessoas, precisa-se de delicadeza.”