Segunda, 21 de Maio de 2012
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Comportamento

Ser gentil é ...

A gentileza é muito mais que simplesmente dar lugar no assento do ônibus para pessoas idosas: ela é parte intrínseca do nosso dia-a-dia e, no entanto, está esquecida nas atitudes da maioria

Texto: Raquel Ayres | Fotos: Daniel de Cerqueira e Selmy Yassuda/AE


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Mary Arantes: espaço disponibilizado para exposição de trabalhos das artesãs da favela do Cafezal

Não há quem não admita: a gentileza está escassa. Do trânsito que, de acordo com dados divulgados em 2007 pelo Ministério da Saúde, matou mais de 35 mil pessoas, às brigas entre vizinhos; conviver num planeta habitado por 6 bilhões de pessoas tem se revelado, seguramente, uma arte. Pela dificuldade em suplantar diferenças pessoais em prol da qualidade de vida co­mum exigida pelo cotidiano, “a gentileza está em segundo plano e observamos isto nas metrópoles, que são espaços caóticos, onde existe ambiente para dois eus e nenhum para o outro”, lamenta o professor de filosofia e doutorando em psicanálise René Armand Dentez.

Nesta relação, a corrupção e a violência encontram terreno fértil para florescer. Se ninguém carregar um pacote para você ou não segurar a porta para que entre no elevador, tudo bem. Não se morre por tal. Mas quando não se considera os demais merecedores de delicadeza e parâmetro para nossa existência, é grave. Porque assim a criança de rua não é mais criança, passa a ser delinquente. Motoboy é assassino do asfalto.  Trata-se da desqualificação que retira das pessoas a humanidade. “ A partir daí, sem identificação, não me sinto responsável”, frisa a diretora de educação e cultura do Instituto Ecofuturo, Cristine Fontelles.

Forma de falta de gentileza, substantivo abstrato que não tem nada a ver com o estabelecimento de padrões morais, e sim com a tomada de atitude. “É reconhecer que temos a predisposição de sobreviver a qualquer custo. Por isto é necessário melhor repertório para a existência em harmonia. Não somos seres humanos completos.” Cristine vai mais longe: a diferença de tratamento entre ricos e pobres e a não-validação das leis para todos é sintoma da não-gentileza. A mesma que nos coloca numa situação limite: “Que ser humano somos nós? Em que nos fiamos?”
 


Lenice Bismarck: “A gentileza é capaz de melhorar o mundo”
Lenice Bismarck: “A gentileza é capaz de melhorar o mundo”

Na busca do caminho inverso, há quem se ofereça, gentilmente, para colaborar com o projeto de terceiros na intenção de incentivar autoestima. Nem que para isso seja necessário, no fim de semana, recolher e recolocar no lugar mais de mil pinos da parede para dar espaço a produtos alheios. A designer de bijuterias Mary Arantes que durante 14 anos organizou o Bazarte com finalidade de recolher fundos para instituições carentes, cedeu, em dezembro de 2008, seu show-room para as artesãs da favela do Cafezal. Além do espaço, Mary cedeu o próprio nome – assíduo nas revistas de moda nacionais – para mobilizar colaboradores: gráfica, segurança, convites. Resultado: em local privilegiado, frequentado por suas convidadas de elevado poder aquisitivo, as artesãs venderam, em um dia, 13 mil reais. “Na rotina, somos pouco gentis. Todos precisam de amparo para descobrir do que são capazes”, enfatiza a designer. Nem sempre é preciso falar em cifras: pode-se ser gentil simplesmente emprestando o ouvido a quem precisa. Já pensou nisto?

A chapeleira Lenice Bismarck, autora do livro Oitavo Pecado: tudo sobre falta de educação, acredita que a gentileza é capaz de melhorar o mundo. E não poupa exemplos: o bom humor é uma forma de gentileza, do mesmo modo conversar com o motorista de táxi, ensinar crianças pequenas a se entrosarem com gente de todas as classes sociais, não falar de grifes e muito menos reparar nas pessoas. “Eu incentivo as varredoras aqui da rua a fazerem protesto contra cocô de cachorro nas calçadas.” E lamenta que governos não deem exemplos do bem viver.

Não há dúvida de que amabilidade e delicadeza são parte do processo civilizatório. A própria democracia é exemplo de gentileza política, uma vez que, a princípio, leva em conta a opinião do outro, com espaços para divergência. No entanto, sob este aspecto a psicóloga clínica Eliana Ferreira Rodrigues Silva acredita que pioramos. “Escândalos, metas absurdas impostas ao trabalhador, nossa sobrevivência ameaçada e um cotidiano desumano têm provocado mais hostilidade do que disponibilidade. Já não há tempo para sermos gentis. Temos nos desumanizado.”

Mas nunca é tarde e é sempre possível aprender. Inclusive em sala de aula. A professora Lúcia Maria de Morais Costa Machado, professora da rede municipal que trabalha com alunos de 8 e 9 anos, fez da gentileza matéria. Percebeu intolerância no trato pessoal. Também falta de cuidado com o mobiliário escolar. “A partir daí, trabalhei a figura do profeta Gentileza, questões éticas e de preservação da natureza. Fizemos poemas de cordel sobre o tema. Palavras como paz, intolerância e gratidão foram introduzidas e os pequenos ficaram atentos a atitudes cotidianas. Entenderam que, entre pessoas, precisa-se de delicadeza.”

Quem foi o profeta Gentileza

José Datrino, conhecido como profeta Gentileza, foi personagem andarilho das cidades de Niterói e do Rio de Janeiro. Em 1961 abandonou a família para ajudar as vítimas do incêndio que matou mais de 500 pessoas no Gran Circus Norte-Americano. No local da tragédia, plantou horta e ali viveu por quatro anos, consolando parentes das vítimas. A partir de 1971 começou a ser visto em barcas, trens e ônibus falando sobre amor, respeito e bondade em relação ao próximo e à natureza.  A partir de 1980 escolheu 56 pilastras do viaduto do Caju, numa extensão de aproximadamente 1,5km e encheu-as com inscrições em verde-amarelo propondo sua crítica do mundo e alternativa ao mal-estar da civilização. Com o decorrer dos anos, os murais foram danificados por pichadores, sofreram vandalismo, e mais tarde cobertos com tinta de cor cinza. O apagamento das inscrições foi criticado e posteriormente, com ajuda da prefeitura da cidade do Rio de Janeiro, foi organizado o projeto Rio com Gentileza, com objetivo de restaurar os murais. Em maio de 2000 a restauração das inscrições foi concluída e o patrimônio urbano carioca preservado. No final de 2000 o professor Leonardo Guelman publicou Brasil, tempo de Gentileza. No mesmo ano Gentileza foi homenageado pela escola de samba Acadêmicos do Grande Rio.

 
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