A partir de meados do século XX, foram significativas as transformações políticas, econômicas e sociais que caracterizaram o surgimento da sociedade pós-moderna. As relações familiares e amorosas não ficaram isentas dessas mudanças. De uma época para outra, os laços afetivos entre as pessoas sempre se modificaram, mas nunca tão fortemente como agora. Hoje observa-se uma grande mudança na forma de se pensar e estabelecer vínculos amorosos. Durante muito tempo vivemos basicamente sob a cultura de valores que se referiam à lealdade, à dignidade, à honestidade, a uma ética em que o bem-viver conferia importância ao outro. Com a quebra das utopias, dos ideais coletivos e revolucionários, o homem volta-se para si mesmo numa cultura que busca extrair do corpo o máximo de sensações. O corpo passa a ser medida de valor.
A idéia de liberdade e autonomia, associada à excessiva cultura do eu, acabou favorecendo o fortalecimento do individualismo. Surge a idéia de um homem sem limites – aberto a inúmeras possibilidades, independentemente das relações, alimentado por um imaginário no qual pode bastar a si mesmo. Há um novo panorama para se pensarem os laços afetivos. Para o sociólogo alemão Zigmund Bauman, hoje os laços afetivos são frágeis. A transitoriedade é signo dos relacionamentos. Para ele, os amores líquidos são os relacionamentos que se rompem precocemente, por qualquer motivo, sem possibilidade de se aprofundarem.
A cultura hedonista, do prazer imediato, associada a uma permanente performance de vida bem-sucedida, apresenta-se como defesa para os riscos do amor. Os ideais de amor que predominam são impossíveis de serem cumpridos. Se a experiência de amor sempre esteve associada ao risco de sofrimento, na tentativa de viver só do gozo, troca-se o risco de sofrer pelo vazio de não sentir. Um relacionamento que bem dura no tempo, com certeza passou pelo processo de desidealização. São relacionamentos que sustentam os inevitáveis desencontros e frustrações, amadurecendo as possibilidades e os recursos de se reinventarem. Para o psicanalista Contardo Calligaris, a receita do amor que dura é “amar o outro não apesar de sua diferença, mas por ele ser diferente”.
E é justamente pela intolerância às diferenças, pela impossibilidade de completude, muitas vezes tomadas como incapacidade, que muitos relacionamentos são facilmente descartados. Os vínculos amorosos não desapareceram. O império dos sentidos está em alta, mas é possível sustentar outra posição frente à diversidade de exigências e ofertas de ilusão. Os efeitos das sensações são efêmeros, passam rápido. Logo o sujeito estará novamente diante de si. A condição humana nos diz da impossibilidade de sermos completos, plenamente satisfeitos, sem nenhuma falta. Portanto a falta é de todos nós: dos casados, dos que vivem triângulos amorosos, dos que não querem ninguém, dos que querem todo mundo. É pela falta que nos fazemos sujeitos desejantes, pois a única condição em que nada falta é na morte.