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TrânsitoDuas rodas, uma vidaCresce o número de motos nas ruas e a imprudência; diminui o respeito à vida e às leis de trânsito
Texto: Vanessa de Cobucci | Fotos: Pedro Vilela
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De acordo com o Detran-MG, até maio de No Hospital João XXIII, centro de referência no atendimento a politraumatismos, dão entrada mais de 20 motoqueiros por dia. Em maio, 8 o hospital recebeu 694 desses pacientes. Desde 2005, os registros só evoluem, sem perspectiva de queda, saltando de 5.774 atendimentos para 8.447 em 2008. “Na urgência e emergência para motoqueiros, temos 154 leitos, contando com o apoio do hospital Maria Amélia Lins e da Unidade Ortopédica Galba Veloso, e sempre funcionamos com capacidade plena. Algumas vezes, o excesso de demanda ainda nos obriga a procurar a rede privada, conveniada do SUS”, explica o anestesista Antônio Carlos de Barros Martins, diretor geral do João XXIII. A exemplo dos demais especialistas abordados pela reportagem, o diretor do João XXIII mostra-se preocupado com a aprovação, no Senado, do projeto de lei 203/2001, que regulamenta as profissões de mototaxista, motofrete e motoboy. Apresentado há oito anos pelo então senador Mauro Miranda (PMDB-GO), a lei não havida sido sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva até o fechamento desta edição. Depois de sancionada, caberá a cada município definir regras próprias para os profissionais que utilizam moto. E a preocupação vai além. Existe ainda o recém-lançado incentivo federal para a compra de motocicletas de até 150cc. Linha de crédito de 100 milhões de reais foi liberada com recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) que permitirá a motofretistas financiarem, com juros reduzidos, até 100% do valor dos veículos. “Quase todos os nossos pacientes acidentaram-se em motos de |
Esses acidentes causam sérias lesões às vítimas e requerem socorro ágil, feito por gente especializada. “No trauma, o primeiro atendimento será responsável pelo resultado, que pode ajudar, se bem-feito, quanto prejudicar, se mal-feito. Qualquer queda tem de ser valorizada”, avalia o paramédico Cláudio Emídio dos Santos, da equipe do Samu que socorreu a dupla de motoqueiros citada no início da reportagem. Há sete anos trabalhando na área, ele conta que nem toda queda de motoqueiro tem origem na imprudência. “Muitos acordam, na correria, trabalham num ritmo puxado, não se hidratam nem se alimentam corretamente. É comum terem síncopes, causadas por queda de pressão ou por alteração nos índices de glicemia. Sofrem um mal súbito guiando a moto e caem”, diz. Além dessa falta de cuidado com eles mesmos, os motociclistas vivem à mercê de um descaso generalizado da sociedade e do poder público. Para a socióloga da PUC Minas e especialista |
Enquanto isso não ocorre, as estatísticas continuam a revelar tragédias. Há 32 anos trabalhando no Hospital Sarah, de Belo Horizonte, na área de clínica médica e lesão medular, João Gabriel Ribas explica que aumenta, a cada ano, o índice de motoqueiros que se machucam gravemente. “De 1997 até agora, 1.462 motoqueiros nos procuraram, sendo que 76% deles com lesões medulares (com predomínio de paraplegia em 58% dos casos e 18% de tetraplégicos), 18% com traumatismos crânio-encefálico e 6% com lesões ortopédicas”. Os dados mostram que 86% desses pacientes eram homens, 76% solteiros, 46% apresentavam idade entre 20 e 29 anos, 72% conduziam a moto no momento do acidente. Embora 84% utilizassem capacete, a inexistente proteção ao tórax ocasiona lesões torácicas altas, que deixam o paciente sem o controle do tronco. O médico explica que a maioria dos pacientes requer uso permanente de medicamentos especializados para conter a dor neuropática, caros e nem sempre encontrados na rede pública. Quem apresenta lesões não reversíveis ainda precisará, por toda a vida, de medicamentos próprios para a bexiga e intestino. Para Ribas, faltam mais rigor na concessão da habilitação, melhoria nas vias, “impróprias para motocicletas”, transporte público de qualidade e mais campanhas educativas. “Um acidente grave não atinge só a vítima, atinge também a família, promove uma mudança radical e brusca na vida social e econômica de várias pessoas”, alerta o médico. Maria Aparecida da Rocha, de Itajaí (SC), é um exemplo. Ela está em tratamento de reabilitação no Sarah-BH após acidente há três anos e 11 meses quando estava na garupa do marido, a caminho da casa da sogra, ficando paraplégica após ser arremessada contra uma grade. “Quebrei três costelas, a omoplata, perfurei um pulmão e quebrei a vértebra T9. Num piscar de olhos, minha vida mudou”, lembra. |
Número de motoqueiros internados por ano no Hospital João XXIII 2005 5.774 Meses de 2009 Janeiro 599 |