Segunda, 21 de Maio de 2012
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Trânsito

Duas rodas, uma vida

Cresce o número de motos nas ruas e a imprudência; diminui o respeito à vida e às leis de trânsito

Texto: Vanessa de Cobucci | Fotos: Pedro Vilela


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Durante os três anos em que foi motoboy, Sérgio Marques Barbosa, 23 anos, sofreu oito acidentes, viu dois colegas de profissão morrerem e perdeu as contas de desconhecidos que presenciou vitimados no asfalto. “Decidi largar a profissão. Pedi transferência, fui lotado como estoquista na mesma empresa.” Em maio, o futebol entre amigos e colegas de Sérgio foi interrompido quando dois rapazes, aproveitando o intervalo do jogo, foram de mo­to até um caixa eletrônico, a poucos quarteirões dali. Motoqueiro e o garu­pa acabaram colhidos por um carro que, segundo testemunhas, avançou o sinal vermelho na avenida Cristiano Machado. A Viver Brasil flagrou o socorro prestado aos acidentados pela ambulância do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Sérgio foi um dos primeiros a chegarem ao local pa­ra ajudar os amigos. “O número de motoboys tem crescido, o mercado desvalorizou, muitos cruzam a cidade para ganhar 7 reais”, diz. Apesar da violência do impacto, o primeiro ferido teve escoriações e torção no joelho, o segundo quebrou a clavícula e foi operado para implante de pino na mão, que o manterá afastado do trabalho por longo período.

Colisões desse tipo engrossam estatística alarmante: o custo dos aciden­tes rodoviários no Brasil che­ga a 22 bilhões de reais por ano, somando gastos médicos, hospitalares, perda de produtividade, remoção e recupe­ração de veículos, custas judiciais e previdenciárias. Todo dia, cerca de 150 pessoas morrem no trânsito brasileiro. “É como se outro avião como o Airbus A330, da Air France, caísse a cada dois dias. O SUS gasta 30% de seu orçamento só com vítimas do trânsito. Desses acidentes, os que envolvem motos são os mais graves, com mais mortes”, alerta o economista mineiro Mar­celo Piancastelli, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que coordenou minucioso estudo so­bre trânsito. “A moto é uma ferramenta de trabalho indiscutível, mas se tornou uma máquina de morte. Se medidas urgentes não forem tomadas, caminhamos para um colapso nos plantões médicos, pela absurda demanda”, avalia Piancastelli.


De acordo com o Detran-MG, até maio de 2009 a frota circulante de motos em Belo Horizonte era de 138.262, e em todo o estado, de 1.402.615. Motoristas e motoqueiros travam disputa acirrada no caos urbano, com direito a acusações mútuas. “Na verdade, ninguém respeita ninguém, é um tumulto só. Minha alegria é chegar ileso em casa”, diz o motoboy Dirceu Matias de Jesus. Metas so­bre-humanas, correria, trabalho sem vínculo empregatício e falta de atenção com a saúde são comuns entre os profissionais. “Passo muito tempo sem me alimentar, já senti tontura. Dá medo, mas essa é a nos­sa rotina”, desabafa Dirceu.

No Hospital João XXIII, centro de referência no atendimento a politraumatismos, dão entrada mais de 20 motoqueiros por dia. Em maio, 8 o hospital recebeu 694 desses pacientes. Desde 2005, os registros só evoluem, sem perspectiva de queda, saltando de 5.774 atendimentos para 8.447 em 2008. “Na urgência e emergência para motoqueiros, temos 154 leitos, con­tando com o apoio do hospital Maria Amélia Lins e da Unidade Ortopédica Galba Veloso, e sempre funcionamos com capacidade ple­na. Algumas vezes, o excesso de demanda ainda nos obriga a procurar a rede privada, conveniada do SUS”, explica o anestesista Antônio Carlos de Barros Martins, diretor geral do João XXIII. A exemplo dos demais especialistas abordados pela reportagem, o diretor do João XXIII mostra-se preocupado com a aprovação, no Senado, do projeto de lei 203/2001, que regulamenta as profissões de mototaxista, motofrete e motoboy. Apresentado há oito anos pelo então senador Mauro Miranda (PMDB-GO),  a lei não havida sido sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva até o fechamento desta edição. Depois de sancionada, caberá a cada município definir regras próprias para os profissionais que utilizam moto. E a preocupação vai além. Existe ainda o recém-lançado incentivo federal para a compra de motocicletas de até 150cc. Linha de crédito de 100 milhões de reais foi liberada com recursos do Fundo de Amparo ao Tra­balhador (FAT) que permitirá a motofretistas financiarem, com juros reduzidos, até 100% do valor dos veículos. “Quase todos os nossos pacientes acidentaram-se em motos de 125 a 150cc”, pondera Martins. Tal incentivo estimula gente inexperiente a invadir o mercado de duas rodas. “Sem o devido preparo, eles começam a pilotar com cautela, depois perdem o medo. Serão mais propícios a acidentes, em meio ao trânsito maluco da cidade.”

Antônio Martins: preocupação com incentivo para compra de motos de até 150cc
Antônio Martins: preocupação com incentivo para compra de motos de até 150cc

Esses acidentes causam sérias lesões às vítimas e requerem socorro ágil, feito por gente especializada. “No trauma, o primeiro atendimento será responsável pelo resultado, que pode ajudar, se bem-feito, quanto prejudicar, se mal-feito. Qualquer queda tem de ser valorizada”, avalia o paramédico Cláudio Emídio dos Santos, da equipe do Samu que socorreu a dupla de motoqueiros citada no início da reportagem. Há sete anos trabalhando na área, ele conta que nem toda queda de motoqueiro tem origem na imprudência. “Muitos acordam, na correria, trabalham num ritmo puxado, não se hidratam nem se alimentam corretamente. É comum terem síncopes, causadas por queda de pressão ou por alteração nos índices de glicemia. Sofrem um mal súbito guiando a moto e caem”, diz.

Além dessa falta de cuidado com eles mesmos, os motociclistas vivem à mercê de um descaso generalizado da sociedade e do poder público. Para a socióloga da PUC Minas e especialista em trânsito Andrea dos Santos, é um mercado pontuado pela informalidade, qualquer pessoa aprende facilmente a pilotar moto. “Dados da Companhia de Engenharia de Tráfego de São Paulo estimam 70% de motoqueiros não habilitados nas ruas.” Andrea afirma que o Código de Trânsito não é colocado em prática porque somos uma sociedade individualista, que não se importa com o outro. “Precisamos de mais organização, de romper com a cultura de tolerar e fazer pequenos delitos”, diz a doutoranda.

Sérgio Barbosa: troca de profissão após oito acidentes
Sérgio Barbosa: troca de profissão após oito acidentes

Enquanto isso não ocorre, as estatísticas continuam a revelar tragédias. Há 32 anos trabalhando no Hospital Sarah, de Belo Hori­zon­te, na área de clínica médica e lesão medular, João Gabriel Ribas explica que aumenta, a cada ano, o índice de motoqueiros que se machucam gravemente. “De 1997 até agora, 1.462 mo­toqueiros nos procuraram, sendo que 76% deles com lesões medulares (com predomínio de paraplegia em 58% dos casos e 18% de tetraplé­gicos), 18% com traumatismos crâ­nio-encefálico e 6% com lesões ortopédicas”. Os dados mostram que 86% desses pacientes eram homens, 76% solteiros, 46% apresentavam idade entre 20 e 29 anos, 72% conduziam a moto no momento do acidente. Embora 84% utilizassem capacete, a inexistente proteção ao tó­rax ocasiona lesões torácicas al­tas, que deixam o paciente sem o controle do tronco. O médico explica que a maioria dos pacientes requer uso permanente de medicamentos especializados para conter a dor neuropática, caros e nem sempre encontrados na rede pública. Quem apresenta lesões não rever­síveis ainda precisará, por toda a vida, de medicamentos próprios para a bexiga e intestino. Para Ribas, faltam mais rigor na concessão da habilitação, melhoria nas vias, “impróprias para motocicletas”, transporte público de qualidade e mais campanhas educativas. “Um acidente grave não atinge só a vítima, atinge também a família, promove uma mudança radical e brusca na vida social e econômica de várias pessoas”, alerta o médico.

Maria Aparecida da Rocha, de Itajaí (SC), é um exemplo. Ela está em tratamento de reabilitação no Sarah-BH após acidente há três anos e 11 meses quando estava na garupa do marido, a caminho da casa da sogra, ficando paraplégica após ser arremessada contra uma grade. “Quebrei três costelas, a omoplata, perfurei um pulmão e quebrei a vértebra T9. Num piscar de olhos, minha vida mudou”, lembra.

Número de motoqueiros internados por ano no Hospital João XXIII

 2005       5.774
 2006       6.122
 2007       7.757
 2008       8.447

 Meses de 2009 

 Janeiro       599
 Fevereiro   577
 Março       552
 Abril          637
 Maio         694


 
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