No começo dos anos 50, o médico e diplomata João Guimarães Rosa inicia viagem pelo sertão, onde anota usos, costumes e linguagem do sertanejo, dando origem a vários livros, entre eles Grande Sertão Veredas, obra-prima da literatura brasileira. Mais de cinco décadas após a incursão de Rosa, o linguajar do povo mineiro, de norte a sul, continua a encantar. Dentista, 49 anos, nascido em Pedra Azul, Vale do Jequitinhonha, João Victor F. Velloso acaba de lançar dicionário onde reúne mais de 5 mil verbetes sobre o jeito mineiro de falar.
O livro é fruto das viagens do dentista pelo estado. Membro da Associação Brasileira de Odontologia (ABO), em 1996, ele começou a lecionar em cidades do interior, onde se surpreendeu com expressões usadas pelos moradores. “Em Três Corações, diziam que as pessoas viviam encarangadas. Descobri que eram encolhidas por causa do frio. E aos poucos fui conhecendo novas palavras”, lembra. Assim como Rosa, Velloso passou a anotar tudo, consumindo 20 cadernos, fruto das viagens em mais de 100 cidades. Amigos, ao saber do projeto, passaram a enviar-lhes novas expressões. O livro recebeu o nome Pipocas! Dicionário quase etimológico Do Gerais – Para estrangeiros. Pipocas, segundo ele, porque os verbetes pipocam pelas 528 páginas.
Filho do falecido professor de latim Reynaldo Velloso, da pequena Pedra Azul, do qual herdou o gosto pela literatura, Velloso foi um dos quatro vencedores do Prêmio BDMG – Cultural de Poesia, em 2005, que resultou no livro Minas em Mim. No ano passado, participou da coletânea de Micro-contos Pitanga, publicada em Portugal pela escritora angolana Luísa Coelho. Com a nova obra, o dentista diz não ter pretensão literária nem transformar o mineirês (jeito de falar mineiro) em alvo de deboche, como costumam fazer alguns livros e sites, mas sim resgatar a riqueza cultural e o jeito gostoso do mineiro de falar.