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Especial Nova Serrana
Em cima do salto
Com o auxílio de instituições como o Sebrae, cidade de Nova Serrana
se prepara para novo salto de qualidade em sua produção calçadista
Texto: Vanessa de Cobucci | Fotos: Alexandre C. Mota
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 Henrique Soares Bento: estrutura enxuta para ser competitivo
Produção anual de 82 milhões de pares de sapatos, resultado da média diária de 500 mil pares que saem todos os dias de pequenas, médias e grandes fábricas sediadas em Nova Serrana e região, no oeste de Minas Gerais. Parece muito? Pois a expectativa de entidades de fomento, como o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de Minas Gerais (Sebrae-MG), da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), do Sindicato Intermunicipal da Indústria do Calçado de Nova Serrana (Sindinova), dos empresários locais e do poder público é ampliar esses expressivos números.
Porém, só aumentar a produção não basta: é preciso agregar valor a cada peça, inovando em design e tecnologia. Os fabricantes nova-serranenses não querem ficar apenas em pé de igualdade com as exigências do mercado nacional e internacional. Trocadilhos à parte, a pretensão é saltar do codinome de capital nacional do sapato esportivo para referência mercadológica do setor calçadista, também, nas linhas feminina, masculina e infantil, quer seja casual ou social. A ideia é investir em outras áreas, como a de sapatos em couro, sandálias, chinelos e botas, contemplando diversos públicos e faixas de preço.
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Nova Serrana: 82 milhões de pares de sapatos por ano |
A Viver Brasil foi até Nova Serrana para conhecer o que há por trás da fama da cidade dos calçados. Em qualquer rua há inúmeras placas cravadas nas fachadas e nos galpões que proliferam na paisagem urbana. Empresas são abertas com uma incrível velocidade. Há centenas de sapatarias na área central e também na periferia. Famílias inteiras vivem da produção calçadista. Os empresários têm histórias parecidas – quase todos começaram no chão de fábrica, como jovens operários. A evolução profissional é similar: trabalham muito para levantar recursos até fundar uma fabriqueta, quase sempre nos fundos da própria casa, e nela viravam noites e fins de semana investindo no negócio próprio. Dali nasceram as células de empresas que se tornam médias e grandes indústrias.
Desde a primeira sapataria, fundada no final dos anos 1940, até as mais de mil empresas atuais, a cidade viveu uma expansão rápida, tornando-se a Eldorado do Oeste. Dos 10 mil habitantes, em 1985, hoje possui mais de 75 mil, segundo dados do IBGE. Em 1989, nenhuma rua da cidade era asfaltada, hoje a poeira e a falta de infraestrutura ficaram para trás. O êxodo populacional criou uma sociedade de migrantes: apenas 13% da população nasceram em Nova Serrana, 12% vieram de outros estados e a maior parte dos demais, 75%, é do Norte de Minas.
Para o economista Matheus Cotta de Carvalho, diretor de operações do Sebrae, a cidade de Nova Serrana reúne qualidades únicas, propícias para colocá-la em destaque na produção industrial de ponta. “Nossa estratégia é aprimorar a competitividade desta indústria. Para isso, estabelecemos um diálogo com fabricantes locais para reavaliar suas estratégias empresariais, adaptando-as às necessidades do mercado”, explica Carvalho. De acordo com o economista, a partir deste novo posicionamento foram definidas ações de apoio ao polo calçadista de Nova Serrana. “Constatamos que as empresas precisam aprimorar a prestação de serviços aos lojistas e fabricar produtos que atendam às tendências de moda. As ações estabelecidas somadas à boa infraestrutura e logística tornarão o calçado nova-serranense mais competitivo.”
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José Silva de Almeida: “Tudo era feito à mão” |
Segundo Juliana Orsetti, coordenadora do projeto de calçados do Sebrae-MG, diversas ações foram feitas para avaliar e incrementar o polo calçadista. Em 2008, foi contratada a consultoria internacional Competitiveness, que avaliou, no período de seis meses, o mercado de calçados mundial e a competitividade do polo de Nova Serrana. Foi elaborado, a partir daí, um plano de ações para indústrias locais. “Realizamos oficina de design, que atua na elaboração de modelos a aprimoramento de produtos.
Outra ação foi o curso de moda rápida, realizado pela Fundação Getúlio Vargas. Verificamos que a cidade precisa produzir calçados de moda rápida. Lançar apenas duas coleções por ano é pouco. Para acompanhar tendências, as indústrias devem lançar cerca de seis coleções por ano”, ressalta Juliana. Para ela, é preciso agregar valor, qualidade, tecnologia, design e inovação. Também foi criado um projeto-piloto no Brasil: a materioteca, o primeiro centro permanente de exposição de materiais. A iniciativa aproxima as indústrias locais de 50 fornecedores de componentes como tecidos, pedrarias, solados, laminados, couros e matrizes.
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Ramon Alves Amaral: “Temos boas perspectivas” |
De acordo com o prefeito de Nova Serrana, Paulo César Freitas (PDT), mais de 90% da receita municipal provém da cadeia produtiva calçadista. “É uma força produtiva de mais de 21 mil empregos diretos e outros 20 mil indiretos.” Ramon Alves Amaral, presidente do Sindinova, com 35 anos de experiência no setor calçadista, diz que Nova Serrana possui estilo peculiar que fez a indústria atravessar e vencer diferentes crises financeiras e as oscilações de mercado. “Sempre houve cooperação entre empresários, fornecedores e clientes, há um elo de amizade muito forte. E agora, mesmo durante essa crise financeira mundial, temos boas perspectivas.” Os maiores mercados dos produtos de Nova Serrana são o Nordeste, o Centro-Oeste e o estado de São Paulo. No mercado internacional, o maior comprador é a Argentina. A exportação ainda é pequena: apenas 3% da produção. Para o presidente do Sindinova, o que mais prejudica Nova Serrana é a entrada irregular de produtos nas fronteiras. “São produtos que chegam ao Brasil valendo um dólar por dúzia de calçado. Não temos barreiras alfandegárias para conter essa invasão. Em junho, estive, junto de 12 líderes sindicais, com representantes do governo federal, em Brasília, para discutir ações antidumping na importação de produtos asiáticos. Esse é o grande problema para o produtor nacional.”
Henrique Soares Bento, da Henso, uma das maiores fábricas da cidade, com cerca de 500 funcionários, está há 20 anos no ramo e diz que o perfil do industrial contemporâneo é aprender com a concorrência. “Trabalhamos com estrutura enxuta que nos permite ser mais competitivos.” Além da Henso, que engloba várias marcas, como a Zem e Júlia Mezzetti, Bento possui uma fábrica de matéria-prima para solados, em Divinópolis. Ele produz calçados nas linhas feminina, masculina e infantil, solados e bolsas, cuja produção é encaminhada a grandes magazines e lojas de departamentos. Já o empresário Júlio César Torres é uma exceção em Nova Serrana. Estreante no ramo, ao contrário de seus colegas, ele não fez carreira no setor calçadista. Trabalhou em escritório durante muitos anos, e foi dono de uma empresa de informática. Há dois anos e meio resolveu investir em calçados. Com o sócio José Walter juntou as economias, cada um investindo 11 mil reais, para criar a Dazzo Calçados.
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Agora, comemora a mudança de sua fábrica, de local pequeno, para um novíssimo e amplo galpão alugado de 480m2, com linha de produção moderna, maquinário novo, e produção diária de 320 pares. “Está dando certo porque planejamos o negócio.” Torres está feliz por ter optado em mudar de profissão. “Minha próxima meta é adquirir um terreno próprio para a fábrica”, confessa o novato empresário.
E o que dizer de José Silva de Almeida, o seu Zezito. Ao contrário de Torres, ele é referência em Nova Serrana como um dos precursores da indústria local. Aos 15 anos, começou como aprendiz em uma das três sapatarias artesanais de botinas. Com as primeiras economias, comprou um terno. “Tudo era feito à mão: fazíamos desde o solado até a cola, que nem existia, usávamos grude feito de polvilho”, lembra seu Zezito.
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Prefeito Paulo César Freitas: “Mais de 21 mil empregos” |
Em 1952, o pai adquiriu um terreno na cidade, que permitiu que a família fundasse a própria empresa. “Compramos uma máquina Singer, que na época já era antiga (peça que ele faz questão de preservar). Até 1961, trabalhamos em família. Infelizmente, meu pai não era ousado comercialmente.” Com a chegada da energia elétrica na cidade, em 1967, seu Zezito diz que houve uma expansão rápida para as empresas. Os dois filhos do empresário seguiram o caminho do pai: ambos têm fábricas e loja no setor calçadista. Seu Zezito, ainda hoje, embora possa desfrutar de uma vida tranquila financeiramente, vai todo dia para a fábrica. “Gosto mesmo é de trabalhar.” Nas horas livres, seu Zezito escreve poemas e vem reunindo documentos e anotações para escrever uma biografia. E, claro, contar a história da cidade calçadista.
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