Muito mais do que um novo vestibular, um sistema de cota que premie segmentos da população, o ensino brasileiro precisa de uma mudança de prioridades. Embora o país tenha um percentual pequeno da população nos cursos superiores, o que poderia induzir ao pensamento de que aí é que deveriam ser concentrados os esforços do governo, a necessidade real é o ensino básico. Walter Braga, que preside a Kroton Educacional, uma das maiores empresas do setor de educação do país, é convicto de que a mudança radical, nos hoje nove anos do básico, é que vai assegurar um desenvolvimento sustentável. Dirigindo uma instituição com 650 escolas, próprias e conveniadas, de educação básica, com 250 mil alunos, e 50 mil de cursos superiores, em 30 campus das marcas Pitágoras e Ined, para formação de tecnólogos, Braga vê com preocupação também o momento brasileiro. Se estamos bem na economia, vamos mal na política, tolerantes com os corruptos e acomodados com a impunidade.
O mundo está mudando com muita rapidez. Nossa educação está preparada para todas estas mudanças?
Acredito que a instituição escola tem uma inércia própria e ela muda num ritmo diferente. Há uma defasagem em relação ao ritmo das mudanças. Até algum tempo, a escola era a mesma de alguns séculos. Não havia muita diferença na relação com o aluno. Mas as mudanças se aceleraram. Então você fica exposto a novas tecnologias, formas de aprendizagem e de acesso a conteúdos de maneira muito radical, nunca visto na história. Isto fez com que a escola acelerasse também sua mudança, com novas formas dos alunos terem acesso a conhecimentos e conteúdos. Isto implica algumas alterações, mas é preciso compreender que a escola é um instrumento social. Então o grande aprendizado que precisamos ter é como priorizar e filtrar o conteúdo de todos os tipos, alguns verdadeiros outros nem tanto, que estão disponíveis. Mas a própria sociedade, com uma visão, talvez, nostálgica dos pais, espera que a escola seja a mesma do tempo em que eles estudaram, o que acaba criando uma pressão externa à mudança mais radical. Não é fácil para as escolas compatibilizar a tecnologia e o ritmo da mudança no mundo à sua forma de ser. Eu diria que nós buscamos o melhor modelo para este momento.
Hoje a criança não chega à escola sabendo muito mais do que ela vai aprender ali num primeiro momento?
Hoje, as famílias com melhor poder aquisitivo têm acesso muito maior à informação, podendo transmitir a seus filhos muito mais conhecimento do que nossos pais podiam fazer. Então, a não- inclusão digital cria um fosso muito maior do que nós tínhamos no passado. É importante que a gente entenda que o processo de inclusão digital, hoje, é um processo de inclusão social, necessário e que deveria ser radical para evitar este fosso de conhecimento.
O senhor, que tem origem profissional na área de ciências exatas, não acha que a excessiva preocupação com a especialização, onde o profissional entende muito de uma coisa apenas, não está levando a uma redução da capacidade crítica e afastando os alunos do conhecimento humanístico?
Concordo plenamente com esta abordagem. Essa visão cartesiana, que leva a uma especialização cada vez maior, como se, ao entender a parte, entenderia o todo, evidentemente não leva em consideração um aspecto holístico da própria humanidade, do humano, que é a dimensão espiritual. Na minha visão, estamos passando por um momento de espiritualização da humanidade, da releitura dos valores. É preciso conhecer primeiro a dinâmica do todo, para chegar a entender as partes. A escola terá que passar por isso, mas não é simples. Isto não quer dizer que a especialização por si só é negativa. Mas imaginar que só ela é importante é um erro.
Quando fala em espiritualidade, fala no aspecto religioso...
Não, falo muito mais na dimensão transcendente do humano. Aquilo que o faz transcender da própria matéria. Falo do sentimento de solidariedade, de pertencimento à humanidade. É eu me sentir humano na própria humanidade. É ter um projeto de humanidade e buscar compreender como posso contribuir para o progresso da humanidade. Estamos num ponto 8
de inflexão de um novo mundo, uma nova sociedade, com maior importância à dimensão transcendental que ficou muito tempo relegada a um segundo plano, com a prevalência da dimensão material, com uma ambição desmedida. Não a ambição para se ter o necessário, mas uma ambição desmedida. Não é o que eu tenho que me importa, mas é o outro não ter o que eu quero ter.
O que é preciso mudar para que o ensino tenha uma visão mais humana do mundo?
A mudança mais radical que pode ocorrer na educação será através do professor. Não adianta ter os melhores laboratórios, as melhores instalações se você não tiver um bom professor para funcionar como fio condutor e articular esses instrumentos. Se você tiver um ótimo professor, que tenha competência para fazer os alunos compreenderem a dinâmica da vida, mesmo com condições mais simples de trabalho, terá uma escola que é efetiva. Por exemplo, o MEC está falando agora em mudar o ensino médio. Dificilmente, ao ler os documentos que propõem as mudanças, você ficará contra elas. Mas a questão é saber como os professores estão preparados para serem os agentes transformadores. Quando você pega os resultados dos vestibulares, você vê que as notas de corte para os cursos de licenciaturas são as menores. Isto quer dizer que os talentos estão evitando de alguma forma, ou não são estimulados, a seguirem a carreira de professor. Então temos um programa recorrente de formação de professores no Brasil.
Há quem diga que é só um problema de salário.
Eu não acredito que apenas reajustar os salários faça as pessoas melhores. Há um pensador americano que diz que não adianta você pensar que os melhores ativos são as pessoas. Os melhores ativos são as pessoas certas, nos lugares certos. Mas evidente que você ter tranquilidade, condições para atender suas necessidades fundamentais é importante para o exercício da profissão. Tem uma outra questão que é como a sociedade vê o professor. No Japão, mesmo não sendo a profissão que melhor paga, o professor tem o respeito da sociedade. Isto é importante para sua autoestima, para que ele evolua na profissão.
É possível a escola afastada da família?
Com o tempo, muito do que era de responsabilidade da família passou a ser da escola. E a escola sozinha não consegue levar a educação. Família e escola têm que interagir, pois têm papéis complementares. Ao longo dos anos a relação escola/aluno tem mudado muito, seja pela facilidade de acesso à informação, antes um instrumento do professor, seja pela transformação das relações familiares. Há uma maior liberdade, em algumas situações liberalidade, que impacta nas relações dentro das salas de aula, do ponto de vista de regras.
Que diferença o senhor vê entre as escola pública e privada?
Tenho uma certa dificuldade em estabelecer uma comparação genérica. Conheço escola particular com excepcional qualidade de ensino e escola particular com baixa qualidade. Assim como acontece nas escolas públicas. A experiência nos mostra que a qualidade da gestão é fundamental para se conseguir bons resultados.
Como vê a proposta de substituir o vestibular pelas provas do Enen?
Vejo com os melhores olhos. Se você analisar os vestibulares hoje, verá que cada escola tem um programa diferente, com conteúdos diferentes. É como se cada faculdade tivesse a autonomia de dizer o que é e o que não é importante no ensino médio. Isto cria uma enorme dificuldade para as escolas e para os alunos que querem fazer o vestibular em mais de uma faculdade. O que o MEC está propondo é que o Enen seja a grande prova de entrada para a faculdade.
Mas o governo não está começando a casa pelo telhado. A reforma não deveria ser iniciada pelo ensino básico?
É, há uma inversão de prioridades no ensino brasileiro. Nós deveríamos estar investindo muito menos na educação superior e muito mais na educação básica. Aí sim, seria radicalmente transformador se investíssemos na qualidade da formação de nossas crianças. Os recursos são poucos e não dá para tudo. Gestão de recursos é gestão de prioridades. Há claramente uma inversão de prioridades no investimento na educação.
Com a implantação do sistema de cotas o governo não está dizendo ao aluno que lhe dá um ensino ruim, mas garante a entrada na faculdade?
Eu sou contra cota. Ela não estimula o enfrentamento dos problemas reais. É empurrar o problema para frente. O que deveria ser feito é mapear as populações que enfrentam restrições e dar a elas melhores escolas, melhores professores, premiações, estímulos para que eles chegassem mais à frente em situações de concorrer em igualdade de condições.
O curso superior é para a elite da inteligência ou deve ser aberto a todas as pessoas?
Nós temos um nível de penetração do ensino superior no Brasil muito baixo, inferior, por exemplo, ao Chile e ao Uruguai. Na verdade, o ensino superior não é para formar a elite acadêmica. É para dar uma formação em escala que qualifique a pessoa para acesso a demandas profissionais mais sofisticadas. Na formação educacional de outros países há a valorização do técnico, do pós-médio. São os cursos chamados tecnólogos, cursos superiores como qualquer outro, porém de menor duração. A proporção deveria ser de três ou quatro tecnólogos para cada bacharel. Os tecnólogos são mais focados para atividades específicas e são mais demandados pelo mercado. Mas no Brasil há uma visão elitista de que este é um curso de menor importância. Nos Estados Unidos, por exemplo, 75% dos alunos de curso superior são de cursos de tecnólogos. No Brasil quase todos são de bacharelado.
A crise afetou o setor de educação?
Atingiu sim. Ela nos atinge depois de atingir outros setores, provocando o desemprego. Aí chega até a educação, com as pessoas adiando planos de estudar. Afeta na procura e na inadimplência. Por outro lado, a crise faz com que as pessoas se sintam estimuladas a estudar para terem mais oportunidade no mercado. Nos Estados Unidos eles falam que a educação é contra a sequência cíclica pois lá, nos períodos de crise, a educação explode. Se você pesquisar, verá que as universidades lá estão lotadas. Isto funciona mais ou menos assim no Brasil, mas com uma diferença brutal. Nos Estados Unidos, o governo estimula o crédito para o aluno pagar depois que formar. Aqui no Brasil o crédito é limitado. O ProUni atende em parte, mas é muito limitado, atendendo no máximo 400 mil pessoas.
E o Brasil, como o senhor está vendo? Esta crise no Senado, a apatia da população?
No Brasil temos vivido uma situação de tolerância excessiva, com poucas consequências para atos graves. O que me preocupa é o fato de que podemos estar caminhando para um problema de governabilidade no futuro, com a corrosão de algumas instituições que se tornam frágeis. Nada melhor do que a democracia, mas ela pressupõe instituições fortes e a leitura que eu faço é que a continuidade de escândalos e o desprezo com que são tratados, como se fossem uma coisa rotineira, fragiliza as instituições. Mais que isso, cria uma cultura na sociedade que é altamente perniciosa. Cria nos jovens o desestímulo ao mérito e o estímulo à busca do caminho mais fácil. No Brasil estamos legitimando esta prática absurda. Mas isto não fica restrito ao Legislativo. Ele está disseminado pela sociedade. É o exercício do poder para deleite pessoal. E o poder não é para isto. É para ser exercido pelo bem comum.
Muitos dizem que este é um problema de educação. Mas que tipo de educação?
É... Esta é uma pergunta instigante.