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CapaTorcer até morrerRepórter da Viver Brasil foi às sedes de torcidas organizadas, acompanhou-as até o estádio, assistiu a jogos entre eles. Enfim, foi tentar descobrir o que se passa na cabeça de torcedores que admitem matar ou morrer pelo time do coração
Texto: Raquel Ayres | Fotos: Pedro Vilela e Miguel Schincariol/Perspectiva/AE
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Como numa cidade sitiada, assim estão as metrópoles brasileiras em dias de jogos. Em BH, as ordens vêm do Comando Guerrilheiro do Eldorado, 9º Comando, Comando Zona Norte, Sul, Leste e Oeste. Facções. Cada grupo tem seu líder, cada líder uma missão. Qual será? Fato é que, segundo o filiado à Máfia Azul, Anderson Lorde, 35 anos, 20 de torcida, a avenida Pedro II (sede da Galoucura) ou as ruas do bairro Maria Goretti (habitado principalmente por cruzeirenses) são territórios proibidos em dias de enfrentamento entre rivais. “É desrespeito, podem achar que é provocação.” Segundo outro filiado, a cidade não é de todo mundo, não. Como acontece nas guerras, os deslocamentos são feitos com cuidado. Os ônibus que partem em direção ao estádio deslocam-se em comboios. Os cruzeirenses saem da rua Tupis e chegam pela avenida Catalão, portões 3 e 6. Atleticanos embarcam na rua Curitiba e chegam pelos portões 9 e 12. Tudo para evitar o encontro entre estes machos da mesma espécie. No baile funk promovido pela Galoucura, em Betim, dia 11 de julho, os ânimos entre os filiados mais jovens estavam acirrados. No dia seguinte era o clássico: Atlético x Cruzeiro. “É eles ou é nós.” “Pra nós é o inimigo. São os alemães, igual polícia.” “É que nem gato e rato. A gente vê eles e quer matar.” Garotos entre 16 e 19 anos acreditam que perder partes do corpo ou até mesmo a visão é simples consequência. “Antes de entrar para a torcida organizada tem que pensar nestas coisas.” Brigam, não sabem por que verdadeiramente. Justificam dizendo que “está no sangue. A gente faz isso com orgulho pelo Galo.”
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Francisco de Souza não é adolescente. Aos 37 anos, dedicou 19 deles à Máfia Azul e hoje é diretor de patrimônio da instituição. Nas próprias palavras, cruzeirense acima de tudo, foi ali que conheceu também várias mulheres. Mas permanece solteiro. “Homem de torcida não é de casar.” Vai a todos os jogos e por conta de suas funções viajou o Brasil todo no encalço do Cruzeiro. Afirma que, hoje, a culpa pela má fama das torcidas é da mídia. “O ser humano quer ver desgraça. Mas a mídia não divulga que fazemos doações de cestas básicas e de sangue, área de lazer em bairros carentes”, lamenta. Mas, de modo contraditório, afirma que não há como controlar os jovens filiados brigões. “Se entram hoje, amanhã já querem mostrar vantagens. Como expulsá-los se estão defendendo o nome da torcida?” Pode significar o passaporte de aceitação numa sociedade que é excludente. Jogado quase exclusivamente com os pés, o futebol encaixa-se tão bem na cultura brasileira porque mexe com a mística de que é possível o mais fraco vencer o mais forte. “Como se fosse um Davi contra Golias, dá a sensação da virada no último instante. O risco é passar a gostar mais disso do que da própria vida”, adverte o psicólogo e preparador de atletas Eduardo Neves Pedrosa de Cillo. Como se diz que amor e ódio são faces da mesma moeda, esta relação alcança torcedores e seus times de devoção. Quando o time vai mal, principalmente, cobram posturas dos jogadores, ameaçam privacidade, fiscalizam rotinas de atletas. Fazem enterros simbólicos públicos de seus dirigentes, picham sedes, jogam pedras, sentem-se ofendidos na derrota. Por conta destas e outras é que, segundo o jornalista G.H.P.M, 20 anos de cobertura esportiva, os clubes acabam cedendo algumas benesses à torcida organizada. “Como unem muitas pessoas, criam inferno dentro dos clubes. Para exercer certo controle sobre eles, acaba-se cedendo ingressos, por exemplo.” Para ele, a falta de controle para aceitar membros filiados é um problema. “Se puxar a ficha criminal, muitos vão aparecer com passagem pela polícia.” Souza afirma que a diretoria do Cruzeiro cede ingressos e, algumas vezes, colabora para que torcedores possam viajar e acompanhar o time. Já a assessoria do Clube Atlético Mineiro foi enfática em ressaltar que a direção não se pronuncia sobre o assunto, uma vez que não existe relação entre clube e torcida organizada. William Palumbo é vice-presidente do conselho fiscal da Galoucura. Há 18 anos na lida, conta que já teve a fase de brigar. Admite que as pessoas já começam a se inflamar cinco dias antes dos clássicos. “O jogo é um detalhe que vai botando fogo na cidade. A rivalidade existirá mesmo se os times acabarem. Nada explica matar por causa de futebol, mas sentimento, paixão, é coisa que não se discute.” Os bastidores desta matéria, você encontra no Blog da Redação. |
Por quê?Possíveis explicações para a violência das torcidas organizadas, baseadas na observação dos discursos das autoridades esportivas e dos torcedores:- má distribuição de renda - exploração dos dirigentes esportivos e dos líderes das torcidas - efeitos da criminalidade - ausência de expectativa de futuro aos jovens - ausência do estado, como mentor de políticas públicas de formação social - efeitos da pobreza - afrouxamento da ordem legal e das posturas repressivas das instituições de segurança e Justiça - falta de emprego - miséria generalizada - familiarização com a violência - falta de infraestrutura nos estádios de futebol - má arbitragem - gozações de adversários |
NúmerosDados numéricos sobre violência e mortes em eventos futebolísticos no mundo - 1964 Lima (Peru): |
NúmerosDados sobre violência em eventos futebolísticos no Brasil (1992-2008) - São Paulo: 21 mortos Fonte: A lei e a anomia nas torcidas organizadas de futebol; Henrique Figueiredo Carneiro; Márcia Batista dos Santos; Universidade de Fortaleza |