Segunda, 21 de Maio de 2012
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Torcer até morrer

Repórter da Viver Brasil foi às sedes de torcidas organizadas, acompanhou-as até o estádio, assistiu a jogos entre eles. Enfim, foi tentar descobrir o que se passa na cabeça de torcedores que admitem matar ou morrer pelo time do coração

Texto: Raquel Ayres | Fotos: Pedro Vilela e Miguel Schincariol/Perspectiva/AE


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Apesar dos cães terem sido domesticados há mais ou menos 10 mil anos, traços de comportamentos da vida selvagem permanecem. É comum a luta pela liderança em que cada animal deixa sua secreção em cima do adversário. A disputa não tem fim. E é nos dias de jogos de futebol que parece que o homem racional se espelha nos seres irracionais para deixar aflorar a besta e despejar secreções sanguinolentas em torcedores rivais e, como dizem em depoimento dado à revista Viver Brasil, “matar ou morrer pelo time.” Alegam paixão.

Aos berros, entram em campo as torcidas organizadas de futebol: “Ca­chorrada f.d.p, chupa rola e vai tomar no c...”, “Ele matou pra impor sua moral”, “Lelelê bota pra f...” Provocações, bombas caseiras, violência, racismo, homofobia e ódio culminam em quebra-quebra e mortes. Desde 1942, quando foi fundada no Rio de Janeiro a primeira charanga que reuniu e uniformizou torcedores, muita coisa, ou quase tudo, mudou. De acordo com o professor de sociologia Carlos Alberto Máximo Pimenta, autor do livro Torcidas organizadas de Futebol: violência e autoafirmação, aspectos da construção das novas relações sociais, “a violência é parte da constituição destes grupos que se movimentam a partir de valores próprios como masculinidade, territorialidade”. O que deveria ficar dentro das 4 linhas extrapola (e muito) a arquibancada.


Clayton Ferreira de Souza, 27 (São Paulo), José Francisco dos Santos Filho, 21 (Pernambuco), Paulo Jonathas Pereira da Silva, 17 (Natal), Germano Soares da Silva, 44 (Rio de Janeiro) engrossam as estatísticas nacionais referentes a morte e espancamento em virtude de confrontos entre organizadas rivais. Em fevereiro do ano passado, em Belo Horizonte, o Ministério Público pediu o fim das torcidas organizadas do Clube Atlético Mineiro (Galoucura) e do Cruzeiro Esporte Clube (Máfia Azul) depois que o atleticano Samuel de Souza Tobias, 22 anos, morreu de mal súbito ao se deparar com torcedores organizados cruzeirenses. No mesmo dia o estudante Lucas Monnerat Silva Ellera, 22 anos, foi espancado e sofreu afundamento de crânio, teve dois dentes quebrados e passou por duas cirurgias. “Cria-se inimigo imaginário e a rivalidade aumenta a partir de sentimento de grupo. É um fenômeno que também se relaciona com as gangues de rua”, afirma o coronel Severo Augusto, especializado em gestão de crises e policiamento em estádios.


William Palumbo: “Rivalidade mesmo se os times acabarem”
William Palumbo: “Rivalidade mesmo se os times acabarem”

Como numa cidade sitiada, as­sim estão as metrópoles brasileiras em dias de jogos. Em BH, as ordens vêm do Comando Guer­rilheiro do El­dorado, 9º Comando, Comando Zo­na Norte, Sul, Leste e Oeste. Fac­ções. Cada grupo tem seu líder, ca­da líder uma missão. Qual será? Fato é que, segundo o filiado à Máfia Azul, Anderson Lorde, 35 anos, 20 de torcida, a avenida Pedro II (sede da Ga­lou­cura) ou as ruas do bairro Ma­ria Goretti (habitado principalmente por cruzeirenses) são territórios proi­bidos em dias de enfrentamen­to entre rivais. “É desrespeito, po­dem achar que é provocação.” Se­gundo outro filiado, a cidade não é de todo mundo, não.  Como acontece nas guerras, os deslocamentos são feitos com cuidado. Os ônibus que partem em direção ao estádio deslocam-se em comboios. Os cruzeirenses saem da rua Tupis e chegam pela avenida Catalão, portões 3 e 6. Atleticanos embarcam na rua  Curitiba e chegam pelos portões 9 e 12. Tudo para evitar o encontro entre estes machos da mesma espécie.

No baile funk promovido pela Galoucura, em Betim, dia 11 de julho, os ânimos entre os filiados mais jovens estavam acirrados. No dia seguinte era o clássico: Atlético x Cruzeiro. “É eles ou é nós.” “Pra nós é o inimigo. São os alemães, igual polícia.” “É que nem gato e rato. A gente vê eles e quer matar.” Garotos entre 16 e 19 anos acreditam que perder partes do corpo ou até mesmo a visão é simples consequência. “Antes de entrar para a torcida organizada tem que pensar nestas coisas.” Brigam, não sabem por que verdadeiramente. Justificam dizendo que “está no sangue. A gente faz isso com orgulho pelo Galo.”


Enquanto isso, o DJ entoa: “Pode ficar bolado, a GB quando desce é porrada pra todo lado...” Ao fundo, barulho semelhante ao de saraivada de metralhadoras. Gestos tal e qual fazem os garotos traficantes que vemos em documentários. Não há, obrigatoriamente, relação entre tráfico de drogas e torcidas organizadas. Mas, conforme diz o psicólogo esportivo Eduardo Neves Pedrosa de Cillo, não é coincidência tal identificação, mas sinal de que existem aqueles que transitam entre estes dois universos. “Estádio de futebol hoje é lugar tido como apropriado para fumar maconha.” E a música continua... “Moleque de 12 anos já quer dar porrada. O que quer ser quando crescer? Galoucura e matar os Che Guevara.”


O guerrilheiro argentino é um entre os muitos símbolos que a Máfia Azul utiliza para agregar seguidores. O correspondente da Galoucura é a figura do general boliviano René Barrientos Ortuño responsável pelo plano de captura e morte de Guevara. Ambos os lados, nos ônibus, ruas e estádio, gritam palavras de ordem e se valem de frases de efeito em camisas como nada nos separa ou não lhes deem nada, mas retirem deles tudo, nós vamos ficar e lutar. “Criam autoimagens de poder”, assinala a psicanalista Cristiane Barreto. Mas, ironicamente, quanto mais desprovido se é deste atributo, mais necessário é construir lugar no mundo. “É uma paixão inventada e repetida com intensidade feroz a ponto da condenação física à devastação”, explica Cristiane Barreto. A torcida para a qual se vive, o líder a quem se segue são cruciais, marcam o lugar destes torcedores no mundo. “Alguns têm a vida condensadas nisso e nenhum outro ponto de paixão.”

Alexandre Mendes, presidente da Máfia Azul: arma para se defender
Alexandre Mendes, presidente da Máfia Azul: arma para se defender

Francisco de Souza não é adolescente. Aos 37 anos, dedicou 19 deles à Máfia Azul e hoje é diretor de patrimônio da instituição. Nas próprias palavras, cruzeirense acima de tudo, foi ali que conheceu também várias mulheres. Mas permanece solteiro. “Homem de torcida não é de casar.” Vai a todos os jogos e por conta de suas funções viajou o Brasil todo no encalço do Cruzeiro. Afirma que, hoje, a culpa pela má fama das torcidas é da mídia. “O ser humano quer ver desgraça. Mas a mídia não divulga que fazemos doações de cestas básicas e de sangue, área de lazer em bairros carentes”, lamenta. Mas, de modo contraditório, afirma que não há como controlar os jovens filiados brigões. “Se entram hoje, amanhã já querem mostrar vantagens. Como expulsá-los se estão defendendo o nome da torcida?” Pode significar o passaporte de aceitação numa sociedade que é excludente. 

Jogado quase exclusivamente com os pés, o futebol encaixa-se tão bem na cultura brasileira porque mexe com a mística de que é possível o mais fra­co vencer o mais forte. “Como se fosse um Davi contra Golias, dá a sensação da virada no último instante. O risco é passar a gostar mais disso do que da própria vida”, adverte o psicólogo e preparador de atletas Eduardo Neves Pedrosa de Cillo. Como se diz que amor e ódio são faces da mesma moeda, esta relação alcança torcedores e seus times de devoção. Quando o time vai mal, principalmente, cobram posturas dos jogadores, ameaçam privacidade, fiscalizam rotinas de atletas. Fazem enterros simbólicos públicos de seus dirigentes, picham sedes, jogam pedras, sentem-se ofendidos na derrota. Por conta destas e outras é que, segundo o jornalista G.H.P.M, 20 anos de cobertura esportiva, os clubes acabam cedendo algumas benesses à torcida organizada. “Como unem muitas pessoas, criam inferno dentro dos clubes. Para exercer certo controle sobre eles, acaba-se cedendo ingressos, por exemplo.” Para ele, a falta de controle para aceitar membros filiados é um problema. “Se puxar a ficha criminal, muitos vão aparecer com passagem pela polícia.”

Souza afirma que a diretoria do Cruzeiro cede ingressos e, algumas vezes, colabora para que torcedores possam viajar e acompanhar o time. Já a assessoria do Clube Atlético Mineiro foi enfática em ressaltar que a direção não se pronuncia sobre o assunto, uma vez que não existe relação entre clube e torcida organizada. William Palum­bo é vice-presidente do conselho fiscal da Galoucura. Há 18 anos na lida, conta que já teve a fase de brigar. Admite que as pessoas já começam a se inflamar cinco dias antes dos clássicos. “O jogo é um detalhe que vai botando fogo na cidade. A rivalidade existirá mesmo se os times acabarem. Nada explica ma­tar por causa de futebol, mas sentimento, paixão, é coisa que não se discute.”

Os bastidores desta matéria, você encontra no Blog da Redação.

Blitz da polícia: procura por armas, drogas
Blitz da polícia: procura por armas, drogas

Por quê?

Possíveis explicações para a violência das torcidas organizadas, baseadas na observação dos discursos das autoridades esportivas e dos torcedores:
- má distribuição de renda
- exploração dos dirigentes esportivos e dos líderes das torcidas
- efeitos da criminalidade
- ausência de expectativa de futuro aos jovens
- ausência do estado, como mentor de políticas públicas de formação social
- efeitos da pobreza
- afrouxamento da ordem legal e das posturas repressivas das instituições de segurança e Justiça
- falta de emprego
- miséria generalizada
- familiarização com a violência
- falta de infraestrutura nos
estádios de futebol
- má arbitragem
- gozações de adversários
Policiais em confronto com torcedores no Palestra Itália em São Paulo
Policiais em confronto com torcedores no Palestra Itália em São Paulo

Números

Dados numéricos sobre violência e mortes em eventos futebolísticos no mundo

1964 Lima (Peru):
Peru x Argentina 320 mortos e mais de 1.000 feridos
1968 Buenos Aires (Argentina):
River Plate x Boca Juniors 71 mortos
1971 Glasgow (Escócia):
Rangers x Celtic 66 mortos e 100 feridos
1985 Bruxelas (Bélgica):
Liverpool x Juventus 39 mortos e mais de 400 feridos
1989 Estádio Hillsborough (Inglaterra):
Liverpool x Nottingham Forest 95 mortos
1996 Estádio Mateo Flores (Guatemala):
Guatemala x Costa Rica 91 mortos
2000 Den Bosh (Holanda):
Jogo da segunda divisão 1 morto e dezenas de feridos
2001 Gana (África do Sul):
Hearts of Oak x Kumasi 102 mortos
2001 Johannesburg (África do Sul):
Orlando Pirates x Kaiser Chiefs 43 mortos
2002 Buenos Aires (Argentina):
Racing x Independientes 2 mortos e 25 feridos

Violência entre torcidas: fenômeno de gangues de rua
Violência entre torcidas: fenômeno de gangues de rua

Números

Dados sobre violência em eventos futebolísticos no Brasil (1992-2008)

- São Paulo: 21 mortos
- Rio de Janeiro: 5 mortos
- Minas Gerais: 3 mortos
- Rio Grande do Sul: 4 mortos
- Santa Catarina: 1 morto
- Ceará: 3 mortos
- Pará: 1 morto

Fonte: A lei e a anomia nas torcidas organizadas de futebol; Henrique Figueiredo Carneiro; Márcia Batista dos Santos; Universidade de Fortaleza
(UNIFOR), Ceará, Brasil


 
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