Parece que o pior da crise econômica já passou. Parece, mas há grandes riscos: cresce a dívida pública federal norte-americana, relativamente às suas receitas, e mais da metade de seus estados estão em situação quase falimentar; o financiamento do sistema de saúde norte-americano é um problema não crescente. Esses fatos pressionam as finanças públicas e contribuem para a perda de confiança no dólar, o que gera instabilidade no comércio internacional. Há, ainda, a ameaça de a montanha de dinheiro público usada para salvar grandes bancos e empresas se transformar em inflação e provocar elevação dos juros, estrangulando uma eventual retomada do crescimento e agravando a situação de governos endividados. Portanto, não são pequenos os riscos e é recomendável cautela. No Brasil reina o otimismo. De fato, não estamos entre os mais afetados, como a Itália e o México, nem entre os que menos sofrem com a crise, como a China ou a Índia. Temos, porém, um sério problema: as políticas anticrise aqui adotadas em nada contribuem para construir o futuro. São, pelo contrário, medidas que nos levam ao passado ao reforçarem a velha economia ao invés de abrir espaços para as empresas brasileiras nos mercados de tecnologia de energia limpa e de produtos de baixo impacto ambiental, que serão os setores dinâmicos nas próximas décadas.
As medidas anticrise adotadas no Brasil não diferenciam entre produtos de baixa e de alta intensidade energética; todos os fogões, automóveis, geladeiras e outros produtos receberam isenções de tributos, sem qualquer vantagem para aqueles menos agressivos ao meio ambiente! Parece que o governo brasileiro ainda não acordou para o fato de que é retrogrado desconhecer a centralidade da questão ambiental! Vale perguntar: o que esperam nossos governantes?
Os pacotes de combate à crise dos países do G20 incluem, em variadas proporções, medidas de incentivo a produtos associados à economia verde. No grupo, nesse aspecto, o Brasil encontra-se em último lugar! Aqui, o governo ousou até incentivar o consumo de chuveiro elétrico, produto considerado, há décadas, um grande vilão no consumo de energia! Grandes incentivos para automóveis, e quase nenhum para os ônibus! As opções de política parecem completamente dominadas pelas preocupações eleitorais de curto prazo, ao custo de não abrir espaços para um futuro melhor! Dos pacotes anticrise nos países do G20, em termos de proporção do PIB voltado para o incentivo à economia verde, o campeão é o da China. Isso mesmo, a China! Lá, 4,8% do PIB de 2008 estão sendo investidos na construção da economia de baixo carbono. É também na China onde se realizam os maiores investimentos na produção de veículos híbridos, movidos em parte por energia elétrica. O país planeja tornar-se líder mundial na produção desses veículos, dentro de apenas três anos. Nos EUA, discute-se uma redução nos (já baixos) encargos trabalhistas, que seriam substituídos, em termos de arrecadação, por impostos sobre os produtos mais agressivos em termos ambientais. Imagine-se o impacto que medida semelhante teria em nosso país, em termos de geração de empregos e promoção das tecnologias que serão dominantes no futuro!No Brasil, o discurso oficial parece crer que, com a produção de álcool, estamos na dianteira do mundo e nada mais precisa ser feito. Haja miopia! Haja engano! Haja atraso!
Em tempo: alguém sabe quais propostas têm, sobre o tema, os prováveis candidatos a presidente da República?